No dia 8 de fevereiro de 2004 o Clube Atlético Paranaense entrou em campo para enfrentar o Paraná Clube em jogo válido pela primeira fase do Grupo A, pelo Campeonato Estadual. A partida terminou com o placar apontando 3×0 para o Furacão. Seria mais um clássico entre as equipes da Vila Capanema e da Arena da Baixada não fosse um pequeno detalhe: este foi o jogo da reestreia do centroavante Washington Stecanela Cerqueira, depois de 14 meses afastado dos gramados em virtude de um problema de saúde no coração. E mais: ele voltou e ainda fez o primeiro gol da vitória de seu time, aos 7 minutos do segundo tempo. Por ironia, contra o seu ex-time. Depois ele foi substituído por Renna que fez o segundo gol. Mas a festa e a emoção estavam garantidas. A torcida, de pé, o aplaudia.

Hoje vereador pelo PDT em Caxias do Sul, Washington avalia a importância daquele jogo e daquele gol. “Foi o gol mais inesquecível de minha carreira, este da minha volta, um ano e dois meses depois de parar”, diz ele. E os registros da época não desmentem: depois de marcar o gol o atacante correu chorando para comemorar. Era muita emoção. Washington nascia de novo para o futebol depois de ser dispensado pelo Fenerbahçe da Turquia, por apresentar uma lesão cardíaca que o obrigou a passar por um cateterismo e uma angioplastia. Ele ficou sem clube e sem rumo. Foi aí que o Atlético entrou na jogada. E ganhou a parada. Ao comemorar seus gols, a partir de então Washington passou a bater no coração. E a torcida lhe grudou um apelido que o acompanhou até o fim da carreira: Coração Valente.

O diretor João Augusto Fleury da Rocha, que era presidente do conselho administrativo do clube, disse a respeito da aposta num jogador que todos os outros clubes não queriam nem de graça, por considerar um verdadeiro homem-bomba, “pronto para explodir a qualquer momento”: “Estávamos cientes do risco”. No entanto, apoiado em pareceres médicos, o Atlético acreditou que seria possível resgatar o atacante. Washington conta como foi o seu contato com o Furacão depois que foi dispensado pelo time turco: “O primeiro contato comigo foi feito quando o Vadão me convidou para jogar no Atlético”, diz ele. “Na época eu estava em recuperação e foi a partir daí que conheci o doutor Constantino Constantini e fiz as avaliações necessárias para poder voltar a jogar”, completou.

Constantini afirmou no começo deste ano, por ocasião dos dez anos da volta de Washington aos gramados, que foi muito criticado à época por encarar o desafio de devolver o atacante ao futebol. No entanto, o tempo lhe deu razão e ele hoje diz tranquilo: “Nunca vou me arrepender de ter liberado ele para jogar”. Nem o médico, nem o Atlético. Naquele ano o Furacão montou um timaço que encarou o Campeonato Brasileiro e era o favorito para levar o título. “Foi um dos melhores times em que joguei. Quando cheguei era um grupo em formação, que foi se entrosando aos poucos e com a chegada do treinador Levir Culpi o time foi se ajustando e fizemos uma campanha inesquecível. Tivemos jogos memoráveis como aquele contra o Flamengo e contra o São Caetano”, relembra Washington.

O Furacão de 2004

“Nós tínhamos um time muito bem treinado. Tínhamos jogadores rápidos e técnicos e por isso nossa transição da defesa para o ataque era muito rápida.”