O meia-esquerda João Pires Natal marcou muitos gols, não contabilizou quantos porque na época em que jogou, nos anos 60, não havia o hábito de registrar as estatísticas: o importante era marcar e não contar. Mas se perguntarem qual o gol mais bonito da carreira, ele guarda até hoje na memória: “Nunca esquecerei. Foi aquele que eu marquei contra a Santa Catarina, pelo Campeonato Brasileiro de Seleções em nossa vitória por 3×0”, diz ele. Vale dizer que aquele campeonato de seleções foi o último no formato em que existia desde 1922, quando São Paulo foi campeão e Arthur Friedenreich e Neco foram artilheiros. Antes de enfrentar os catarinenses, os paranaenses quebraram um tabu de 34 anos ao derrotar e eliminar os gaúchos. Desde 1928 o Paraná não derrotava o Rio Grande do Sul.

A vitória de 2×0 contra os gaúchos no dia 2 de dezembro de 1962 em Curitiba foi espetacular. Recorde de público no Paraná, com 18 mil pessoas na Vila Capanema. E recorde de arrecadação – Cr$ 3.011.503,00. No jogo anterior em Caxias do Sul, houve empate sem gols. Natal foi convocado na semana do segundo jogo com os gaúchos e a sua estreia aconteceu em Florianópolis. A partida terminou empatada em dois gols. Luiz Carlos e Ariel, ambos de cabeça, marcaram para os paranaenses.

Quanto a Natal, não passou despercebido. Fez uma estreia vistosa. “Entrou com o pé direito na seleção. Uma das grandes figuras do match”, registrou a Tribuna. O segundo jogo entre as duas seleções, no Belfort Duarte, foi tratado como algo sensacional. No dia do jogo “não cabia mais um palito de fósforo no estádio”, relata Natal. Naqueles anos se popularizou gritar olé nos campos de futebol quando um time estava em vantagem contra o adversário. A torcida gritava olé toda hora. Natal recorda que o jogo também teve atrativo especial: “Foi a inauguração das redes de náilon. Antes as redes eram de corda e rompiam facilmente”, diz ele. O resultado não poderia ser mais alvissareiro: 3×0 para o Paraná.

Natal fechou a conta. “O dianteiro Natal encerrou a contagem com um grande gol. Invadiu a área e com categoria chutou forte e alto, atingindo em cheio as redes do goleiro Rubens, que nada pode fazer”, relatou a Tribuna. Depois do jogo Natal declarou: “Essa foi uma das maiores emoções da minha vida. Estava convicto da vitória”, disse ele. A Tribuna registrou assim a atuação do atacante: “Perfeito o seu trabalho. Desta vez ganhou as honras de melhor homem da batalha, se bem que Nico, Lara e Luiz Carlos também tivessem comportamento expressivo”. O Paraná pela primeira vez era o maior do Sul do Brasil. Foi o campeão do grupo IV.

Sequência

Classificado para as oitavas de final, o Paraná pegou a Bahia. “Empatamos aqui no estádio Durival de Brito e Silva em 0x0. Depois fomos jogar na Bahia no dia 5 de janeiro de 1963. Ganhamos de 1×0”. Mas a viagem de volta foi complicada. “Não tinha lugar suficiente nos voos normais, a delegação foi dividida em grupos. Teve gente chegando na quarta-feira, no dia de jogo”, diz ele. “Resultado foi que perdemos de goleada para os mineiros. Eles fizeram dois gols, eu diminui, mas eles fizeram o terceiro. Foi um massacre. A viagem cansou o nosso time, mas o time mineiro era muito bom”, admite Natal. No jogo em Belo Horizonte, outro chocolate: 4×0. Mas o Paraná, pela primeira vez, fez bonito.