Se alguém perguntar para Zé Roberto ou para Tião Abatíá, dois dos maiores ídolos de todos os tempos do Coritiba, qual foi o maior craque que eles conheceram no Paraná, é muito grande a chance de o primeiro nome que vão dizer ser o de Leocádio. Foi um meia-direita habilidoso, técnico, com toques precisos, fossem longos ou curtos. No dia 3 de outubro de 1971, Leocádio concluiu de cabeça para fora uma jogada sensacional de Abatiá no final da partida contra o Atlético Mineiro, que o próprio meia-direita iniciou. “Nós tínhamos uma jogada ensaiada pelo Tim. Ele dizia o seguinte: quem lançar para o Tião ou para o Paco (Paquito), entra para finalizar”, conta Leocádio.

Leocádio lançou para Tião Abatiá e correu para receber e finalizar. O Coritiba ganhava por 1×0. “O Tião não era muito habilidoso. Mas ele driblou um, driblou outro, passou pelo goleiro Renato e eu fiquei na marca do pênalti. Até que ele lançou, a bola veio e eu podia escorar de cabeça para o meio do gol. Se eu cabeceasse ela entrava. Mas eu quis inventar, quis fazer palhaçada e cabecear nas costas do Renato e a bola foi para fora”, conta Leocádio. O meia-direita não se conformou em perder o gol, foi para o vestiário e chorou. Ele que era considerado um jogador frio chorou por quinze minutos. Abatiá, que se consagrou no lance e teria consagração ainda maior se o gol fosse marcado, chegou para o companheiro e disse: “Você errou porque é craque”.

Aquilo serviu de consolo para Leocádio, mas não evitou as gozações dos colegas. “O que os caras me pegaram no pé não está escrito”, diz ele. “O pior é que aquela jogada que foi bonita passou todos os dias, durante dois meses na televisão. Até que eu cheguei para os jornalistas e disse: se vocês passarem esta jogada mais duas semanas, a bola vai acabar entrando”, diz ele com bom humor. Um craque perde um gol feito? Pode parecer um paradoxo, mas acontece. Pelé foi craque e não acertou algumas jogadas que, mesmo assim, entraram para a história. É o caso de Leocádio. No entanto ele colecionou jogadas e gols que entraram para a história do Coritiba, incluindo o da vitória contra o Atlético na velha Baixada, no dia 30 de maio de 1971, que virou tabu porque o alviverde ficou 28 anos sem conseguir outra vitória no campo do maior rival.

Zé Roberto foi outro que disse sem economizar adjetivos: “Falam muito do Zé Roberto, mas o jogador mais importante do Coritiba naquela época era o Leocádio”. E não se trata apenas de elogios de colegas. Um dos maiores técnicos brasileiros de todos os tempos, Elba de Pádua Lima, o Tim, costumava dizer que Leocádio foi o melhor jogador com quem trabalhou em toda a sua carreira. Leocádio era tão bom que foi o primeiro nome que a diretoria do Coritiba pensou em contratar quando ficou sem o ídolo Dirceu Krüger, que quase morreu na tragédia que foi o choque com o goleiro Leopoldo na área do Água Verde no dia 11/04/70. Tragédia dupla porque quase vitimou o atacante e deixou o clube com um buraco no meio que precisava ser tampado.

Leocádio estreou com a camisa do Coxa no dia 13 de abril de 1970 num amistoso contra o CSKA. Ele ficou no Alto da Glória até 1974. No Coritiba, Leocádio foi artilheiro com cinco gols numa das duas excursões que o Coxa fez no começo dos anos 70 ao exterior, venceu três campeonatos estaduais, o Torneio Internacional de Verão de 1971 e o Torneio do Povo de 1973. Leocádio nasceu em Mafra no dia 5 de outubro de 1944 e hoje mora na mesma cidade. No entanto, nestes últimos setenta anos, o pacato cidadão Leocádio Cônsul escreveu nos campos de futebol do Paraná a sua lenda de grande meia-direita.

Gerson Klaina

Final da carreira

Em 1974, ele foi para o Londrina, time que já tinha defendido durante quatro anos no início da carreira. O Londrina foi o seu último clube.

Evangelino

“Eu estava bem no Coxa. Teve um jogo em que ganhamos de 3×0 do Corinthians e eu não queria jogar sem contrato. O Almir de Almeida falou: Leocádio, renova e depois você viaja para Fortaleza, onde o Coritiba ia jogar. Acontece que o Coritiba era uma família. A gente não tinha segredos. Eu fui falar com o Evangelino numa segunda e peguei ele num dia daqueles. Fechamos o pau. O Iustrich foi contratado e me viu e perguntou porque eu não jogava. Eu disse que não tinha contrato e ele falou com o Evangelino, que ficou hesitante. Nesse meio tempo apareceu o Londrina. Fechei com eles e fui embora”.

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