O parnaguara Arzemiro de Souza Bueno, 74 anos, aposentado do Banco do Brasil, pode ser considerado um pioneiro no futebol. Colega de quartel do atacante Bídio, um dos ídolos do Ferroviário nos anos 60, Arzemiro nunca foi jogador de futebol – embora, claro, soubesse correr atrás da redonda. Em compensação, ele se viu cercado de craques durante a maior parte de sua vida. Na realidade, de futuros craques. Professor Miro, como veio a ser conhecido, foi um dos primeiros a abrir algo em Curitiba na metade dos anos 60 que veio a ser chamado “escolinha de futebol”.

“Tudo começou em 1965, quando o presidente do Capão da Imbuía, Edgard Lessnau, me convidou para cuidar dos meninos que iam jogar bola lá no campo deste clube amador”, conta Arzemiro, que desde então ficou conhecido como Professor Miro. “Eu fiquei no Capão da Imbuia por um ano mais ou menos”, diz ele, que a esta época já era funcionário do Banco do Brasil, onde ingressou no dia 1 de junho de 1964. “Eu trabalhava no banco até às 14h, quando eu pegava o meu carro e ia treinar os meninos no Capão da Imbuia”, diz ele. Alguns destes garotos foram indicados para o Coritiba, time do coração do Professor Miro e de seu pai, João Juvêncio Bueno, que veio de Paranaguá para Curitiba no começo dos anos 40 para trabalhar com padaria.

Deste contato com o Coritiba – feito através de Jacob Mehl, que era cliente do banco – nasceu a ponte que o levaria para trabalhar nas categorias inferiores do alviverde. “O Evangelino era presidente do clube e convidou o Jacob Mehl para o departamento amador do Coritiba. Naquele a época não tinha vice-presidente de futebol, estas coisas. Era diretor. O Jacob sabia de meu trabalho no Capão da Imbuia, nós fizemos amizade e ele me chamou para abrir a categoria infantil no Coritiba”, conta Professor Miro. “Aquele foi o primeiro cargo do Jacob no Coxa”, diz ele. “E foi assim que eu abri a Escolinha do Coxa”, diz Miro, que ficou por quase 50 anos no clube do Alto da Glória.

A escolinha não funcionava apenas para treinar garotos que gostavam de jogar futebol, mas também para revelar novos talentos e principalmente servir de polo de atração para garotos que se destacavam na periferia. Se antes os meninos que tinham uma notável habilidade chamavam atenção apenas quando se tornavam adultos, a partir do advento das escolinhas eles começaram a chamar atenção desde os nove e dez anos e assim receber atenção especial. Esta foi a principal revolução da geração de profissionais que naqueles anos 60 desenvolveram o trabalho que em Curitiba era feito pelo Professor Miro.

De forma precária ou não, Professor Miro se transformou por 47 anos num personagem central na garimpagem de talentos precoces canalizados para o Coritiba. Um trabalho que rendeu a revelação de quase uma centena de craques, embora várias centenas de outros garotos, alguns até promissores, não tenham vingado. Entre os garotos que passaram pelas mãos dele estão ídolos de vários clubes como Alex (ver página 4). A lista é longa e inclui Joel (centroavante campeão pelo Atlético), Serginho (Pinheiros, Grêmio e Paraná Clube), Marquinhos (Pinheiros e Atlético), Marcão (Atlético, Palmeiras e Internacional), Henrique (Coritiba, Palmeiras e Napoli), Pedro Ken, Ilan, Pachequinho, Marlos, Duilio, Gil, Odirlei, Hélcio, Gilson Kleina e dezenas de outros.