Ele foi considerado um dos melhores ponteiros-esquerdos do Brasil numa época em que o futebol brasileiro tinha o talento de sobra. Talento de um José Macia, também conhecido por Pepe, que jogava no Santos Futebol Clube, ao lado de Pelé. Considerado o melhor time e o maior jogador de todos os tempos. Tinha ainda o tinhoso e sempre político, embora habilidoso na bola e nos bastidores, Mário Lobo Zagallo, que jogava no Botafogo, ao lado de Garrincha, um dos maiores ídolos brasileiros de todos os tempos. Sem contar José Ribamar de Oliveira, conhecido por Canhoteiro, e declaradamente um dos maiores ídolos de Pelé, ao lado de Zizinho. É tudo fera. E foi no meio deste ninho de cobras que surgiu e se destacou um garoto da Ponte Pequena, em São Paulo, chamado Nilson Borges.

Sobre esta trinca de canhoteiros, Nilson Borges diz: “Eu aprendi com o Canhoteiro. Ele era muito bom. Eu olhava tudo o que ele fazia para aprender com ele. Mas eu acho que Pepe era o maior de todos. Grande jogador. Grande pessoa. Chute potente. Merecia o lugar de Zagallo na seleção, mas Pepe não era de fazer política. Zagallo já era Zagallo naquele tempo, sempre se mexendo”, diz ele. Revelado pela Portuguesa de Desportos, Nilson Borges começou a jogar profissionalmente porque era um garoto obediente. Garoto que jogava na rua ao lado de outro cobra do futebol dos anos 60, Roberto Dias. Ele refugou, queria trabalhar, mas o pai o levou para um teste. E depois disso, teve que fazer carreira. Esteve naquele time fabuloso da Portuguesa de Desportos de 1960 que por pouco foi campeão. Mas deixou marcas no lombo de todos os grandes.

Um time que subiu quase todo junto do juvenil: um grupo com Jair da Costa, que foi para bicampeão mundial no Chile e depois vendido para a Internazionale de Milão. Tinha Servilio, Silvio, Ocimar, Ditão e se juntou a outros cobras. O goleiro era nada menos que Félix, que veio a ser tricampeão brasileiro no México. Nilson Borges foi para a Europa, voltou, foi para o Corinthians e quando pensou que sua vida ia ficar triste, apareceram “três reis magos” do Atlético na porta de sua casa, na Vila Guilherme: Lanzoninho, Jackson do Nascimento e Cireno Brandalise na porta de sua casa – dispostos a levarem ele para um lugar que ele achava muito distante, chamado Paraná. “Eu fui no dia seguinte falar com o Jofre Cabral no Hotel Jaraguá no centro da cidade. Me preparei para dizer não de um jeito elegante. Pedi o dobro do que eu ganhava no Corinthians, pedi um carro e ainda casa alugada”, conta Nilson Borges.

“Sabe o que ele me respondeu? Vamos embora. Você viaja amanhã ou depois?”, conta ele. Não tinha mais jeito. Ele já era atleticano. Ele veio para Curitiba. Um ano depois seu passe era comprado. E Nilson Borges carimbou seu nome na história do Atlético com aquele título de 1970, com a campanha de 1968 no Robertão e em muitas partidas memoráveis. Ele ganhou um lugar eterno no coração do torcedor atleticano. Este é apenas um aperitivo da primeira reportagem da série Lendas Vivas, versão 2015, que começa na próxima segunda-feira, dia 2 de fevereiro.