Está tudo bem e, de repente, uma reviravolta muda a sua vida. É isto o que acontece com as mães que precisam passar pelo parto antes do tempo previsto e têm bebês prematuros. Uma fase difícil começa para estas mulheres, que se dedicam 100% para a recuperação e desenvolvimento dos seus filhos, que necessitam de muito mais cuidado do que aqueles que tenham nascido no período correto. Cada dia é um dia diferente. O tempo todo há altos e baixos. Mas quem já passou por isto afirma: tudo tem seu tempo. Apesar da angústia, é preciso paciência para enfrentar as dificuldades e estar bem para o bebê que precisa de todo o apoio possível.

A analista de sistemas Ariane Deziderá Mello acompanhou de perto todos os 86 dias em que o filho Bernardo, hoje com oito meses, ficou na UTI Neonatal até ter alta do hospital. Ele nasceu com seis meses de gestação e precisou de uma série de cuidados para continuar o seu desenvolvimento fora do útero da mãe. Bernardo nasceu com apenas 830 gramas e 32 centímetros. “Os exames indicavam que tudo estava bem, até que senti uma pequena cólica, que passou a vir com frequência, seguida de um pequeno sangramento. Fui para o hospital, mais por precaução, e já cheguei com dez centímetros de dilatação. O bebê estava nascendo”, lembra.

No caso dela, o filho nasceu prematuramente em virtude de uma doença caracterizada pela dilatação do colo do útero com o peso do bebê. “Não dá para detectar antes. Normalmente, o diagnóstico vem depois de alguns abortos sem motivo aparente. Era a minha primeira gravidez. Mas Bernardo conseguiu nascer com 26 semanas. Quando ele nasceu, foi direto com o médico. Ele não chorou, nada. Só vi ele passando. Somente depois de cinco minutos me deram uma resposta”, afirma.

Átila Alberti
Depois de muita apreensão, acompa-nhando o filho na UTI Neonatal, Ariane curte Bernardo em casa, finalmente.

Ariane conta que não estava preparada para nada, pois ainda faltavam três meses de gestação. Foi o tempo que Bernardo teve os cuidados necessários para terminar seu desenvolvimento. Uma das grandes preocupações era o pulmão do bebê, um dos últimos órgãos a amadurecer durante a gravidez. Bernardo ficou entubado por 45 dias e dois meses com respiração mecânica. Ariane revela que os primeiros 60 dias foram muito difíceis porque não parecia que estava ocorrendo uma evolução. Além disto, notícias boas e tristes marcaram este período.

“A gente passou por períodos de muita alegria e por momentos de tristeza. A gente fazia o possível para manter o astral bom, principalmente quando estávamos com ele. A ideia era aproveitar este tempo, pois dizem que a criança sente tudo, independentemente se podia pegar no colo. Demoraram dois meses até que pudesse fazer isto”, relembra. Ariane ainda conta que os pais que passam pela mesma situação dão suporte uns aos outros, o que ajuda a enfrentar este momento difícil. “O que a gente mais ouve no período da UTI é que os bebês têm o tempo deles e que vai chegar a hora certa”, afirma. Hoje, Bernardo está em casa e, além de receber muito carinho dos pais, passa por um acompanhamento com equipe médica e fisioterapia.

Pais não devem se desesperar

A autônoma Maria Ivanilda Moreira Pedroso está passando por tudo isto com a filha Laura Vitória, que tem dois meses de vida e está internada na UTI Neonatal do Hospital de Clínicas (HC), vinculada à Universidade Federal do Paraná (UFPR). A bebê nasceu com 27 semanas de gestação . “Foi tudo muito assustador e está sendo difícil. Mas ela está se recuperando, com aum,ento de peso. Ainda dá medo de pegá-la de tão frágil que ela é. A gente sabe que esta fase vai passar. Será apenas uma fase, se Deus quiser”, diz.

Há duas semanas, Maria começou a ficar mais próxima da filha, por meio do método canguru, no qual o bebê é colocado no peito da mãe, tendo o contato “pele a pele”. “Está sendo maravilhoso ter esta proximidade. Acho que a minha filha sente isto, sabe que a mãe dela está aqui”, conta a mãe.

Esta técnica permite o fortalecimento do vínculo entre mãe e filho, diminuindo o tempo de internação, melhorando o ganho de peso e reduzindo o risco de infecção. “Para que isto aconteça, ainda dentro da UTI Neonatal, é preciso estabilidade clínica, além do desejo da mãe, principalmente. Não há critério de peso. Muitas vezes, isto acontece precocemente”, explica a médica Ana Lúcia Sarquis, professora da UFPR e chefe da UTI Neonatal do HC.

Ainda dentro do método canguru, em uma segunda etapa, o contato entre mãe e filho pode acontecer no lado de fora da UTI, desde que o bebê tenha no mínimo 1,250 quilo de peso e não tenha medicação endovenosa, além de estar estável clinicamente. “Falamos para os pais que cada dia é uma conquista. Cada momento é uma vitória”, declara a médica.

Desenvolvimento continua na UTI

Os partos prematuros ocorrem, em grande parte, em virtude de doenças hipertensivas específicas da gestação, além da diabetes. Nos casos de bebês prematuros, os primeiros cuidados são essenciais para aumentar as chances de sobrevida da criança e ajudar no seu desenvolvimento a curto, médio e longo prazos. “É a fase que chamamos de golden minute (minuto de ouro), em que são feitos os cuidados iniciais. O bebê precisa deste suporte logo após o nascimento”, esclarece Ana Lúcia.

O sistema respiratório do bebê prematuro é o que necessita de mais cuidados, pois o pulmão ainda não está desenvolvido completamente. “Um dos pontos mais importantes é o amadurecimento do pulmão, quando é necessária a ventilação mecânica e a administração de medicamentos para isto. Além disto, de forma geral, há outros cuidados, como com a nutrição”, informa a médica.

É difícil determinar o tempo de internação de um bebê prematuro em uma UTI Neonatal. Os médicos dizem que, normalmente, a criança fica no ambiente especial pelo tempo que faltaria para completar a sua gestação. Se o bebê nasceu com seis meses de gravidez, ele deve ficar outros três antes de ter alta. “Em média, seria este tempo. A UTI passa a funcionar como um útero artificial”, explica Ana Lúcia.