Entrar no Facebook para conferir o que os amigos postaram nas últimas horas ou compartilhar algo interessante se tornou quase uma “obrigação” a mais para cumprir todos os dias. Esta também era a rotina da publicitária Jaqueline Gonçalves Pinto, 27 anos, até pouco mais de dois anos. Em maio de 2011, ela entrou na rede social normalmente e clicou em uma foto de uma amiga para ver mais detalhes. Foi quando percebeu um detalhe estranho: em uma seção de comentários, aparecia uma foto dela, sem que ela tivesse deixado qualquer mensagem ali. Jaqueline atualizou o Facebook, mas a sua imagem continuava na página. Em apenas um clique, ela descobriu que tinha sido vítima de uma fraude na internet.

Uma pessoa desconhecida tinha criado um perfil no Facebook utilizando as fotos dela, mas com o nome de Solange. “Foi uma sensação horrível”, relembra. A publicitária, então, tentou contato com o responsável pelo perfil, mas não conseguiu. Com esse insucesso, ela resolveu denunciar o perfil falso ao próprio Facebook e a página foi retirada do ar em dois dias. “Minha página é restrita, mas um álbum tinha ficado aberto ao público. O perfil falso tinha todas as minhas fotos deste álbum”, conta. Jaqueline ainda conseguiu verificar que a única pessoa com quem a “dona” do perfil falso se comunicava era uma outra mulher, que tinha alguns amigos em comum com ela.

“Na época, eu cancelei tudo. Fiquei muito assustada. Mas depois você começa a analisar e lembra que quem colocou aquelas imagens na rede social foi você mesma. Vai fazer o quê? Ao mesmo tempo em que eu fiquei em choque, também pensei que fui eu quem colocou as fotos lá. A responsabilidade em publicar é do usuário. A partir do momento em que você publica um conteúdo, não tem mais responsabilidade sobre ele”, avalia Jaqueline. Depois de um tempo, a publicitária retomou a “vida” nas redes sociais, mas com muito cuidado. “Fiquei mais atenta. Meus perfis estão todos restritos”, comenta.

A criação de um perfil falso é considerada um crime de falsa identidade e está entre os principais motivos para a procura por atendimento no Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber), em Curitiba. Segundo o delegado-chefe da unidade, Demétrius Gonzaga de Oliveira, outras demandas são os crimes contra a honra. “Quem coloca ofensas na internet acha que não vai ter investigação em cima. A internet se tornou uma válvula de escape e as redes sociais se tornaram confessionários”, opina. Para o presidente da Safernet Brasil, Thiago Tavares, as formas tradicionais de ofensas migraram para a internet de uma maneira muito intensa. “Como se não tivesse mais graça fazer isso ‘offline’. Cria-se uma repercussão muito maior. Situações que antes ficavam restritas no bairro ou na escola agora estão em um universo bem mais amplo”, avalia.

O delegado explica que a vítima deve registrar o boletim de ocorrência quando está configurado algum tipo de crime. Posteriormente, a pessoa pode recorrer à esfera cível para a reparação de danos, como no caso de uso indevido da imagem no crime de falsa identidade. Oliveira ressalta que nem todas as situações envolvendo o uso de imagem são consideradas crimes.

Relembrando antigas recomendações

Arquivo
Criação de perfil falso e crimes contra a honra são os principais motivos que levam as pessoas a procurar o Nuciber, segundo o delegado Demétrius Gonzaga de Oliveira.

Os mesmos cuidados que são praticados para os e-mails (conferir quem mandou a mensagem e não abrir anexos ou links suspeitos, por exemplo) servem para as redes socia,is, inclusive no acesso por smartphones ou tablets. Especialistas também orientam que não sejam marcados pelas redes sociais os locais por onde você passou ou está. Isto pode chamar a atenção de criminosos reais. “Não tem qualquer necessidade de marcar onde é a sua casa e fotografar aquela televisão enorme, dizendo que você está em casa sozinha. Alguém que esteja de olho pode pegar esta informação e depois cometer um assalto. Bom senso é altamente recomendável”, afirma o especialista em redes sociais Joaquin Fernandez Presas.

Ele alerta que os arquivos digitais são facilmente manipulados. Por isso, são comuns os casos de imagens de pessoas em momentos de “exibição” e que depois são alteradas. É o caso de uma mulher que tira uma foto de biquíni. Se ela for alvo de pessoas mal intencionadas, esta foto pode ser transformada em uma imagem dentro de um site de pornografia ou que promove a prostituição. “Não precisa colocar tudo para todo mundo ver. Se quiser colocar algo mais íntimo, é possível selecionar que aquilo seja aberto apenas para os seus amigos, e não para todo mundo. É necessário haver um filtro e lembrar da relevância para aquela postagem”, salienta Presas.

De acordo com ele, também é necessário desconfiar de promoções muito atrativas, como concorrer a um smartphone de última geração com apenas um clique. Isto pode mascarar uma tentativa de repassar um vírus. “As pessoas não estão percebendo que estão clicando em tudo nas redes sociais, sem dó. Acham que tudo é confiável. Se uma empresa está fazendo uma ação promocional no Facebook, você deve ir na fanpage da empresa porque estas informações devem estar lá. Se uma imagem que clicar direcionar para um link fora da rede social, pode ser um vírus”, declara Presas.

Para Tavares, os usuários de redes sociais não têm noção do quanto estão expostos. “Muita gente incorporou mesmo as redes sociais. Mas não são apenas os nossos amigos que navegam pela internet. A internet é um espaço público e isto foi aprendido a duras penas pelos usuários. Tem que pensar antes de postar”, enfatiza.