Pouca gente sabe, mas uma a cada três mulheres vão sofrer de incontinência urinária antes do envelhecimento. É o que revela a especialista em Fisioterapia Pélvica e coordenadora da Faculdade Inspirar, Maura Seleme. E o pior: uma pesquisa recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que o distúrbio ainda pode afetar a sexualidade das mulheres (leia abaixo).

São vários os fatores que fazem com que o distúrbio atinja as mulheres. “Como elas têm fenda vaginal, a descida dos órgãos fica favorecida. A gravidez e o parto também contribuem, assim como a diminuição da taxa hormonal na menopausa, que enfraquece a musculatura do assoalho pélvico”, explica Maura.

Por último, há ainda mais um fator. “Exercícios de alto impacto também causam incontinência, principalmente em mulheres que participam de competições”, completa ela. De acordo com o médico urologista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no Hospital de Clínicas (HC), Luiz Carlos de Almeida Rocha, existem dois tipos de incontinência. “A funcional, que se deve à hiperatividade da bexiga, e a de esforço, que é causada por esses fatores”.

Segundo o médico, a realização de cirurgias cesarianas em vez de partos normais pode contribuir com a prevenção, evitando lesões no assoalho pélvico. Além disso, ele sugere que as mulheres façam exercícios específicos para a região com orientação de um fisioterapeuta. “Esses movimentos fazem com que o músculo do assoalho pélvico ganhe mais tonicidade, mas têm que ser feitos antes da menopausa para que tenham resultado”, comenta.

Maura ensina um dos exercícios que podem ser feitos. “É só contrair o ânus, como se fosse evitar um pum de sair, pois assim, você contrai todos os músculos do assoalho pélvico. Faça isso por seis segundos e depois relaxe por mais seis segundos, repetindo o procedimento 20 vezes em cada período do dia – manhã, tarde e noite”, explica. Outras recomendações são caminhar meia hora três vezes por semana, não engordar, beber muita água e fazer fisioterapia durante a gravidez.

Tratamento

A fisioterapia também é usada no tratamento da incontinência, quando a mulher já sofre com o distúrbio. “Na menopausa, costumamos fazer o tratamento com reposição hormonal e exercícios, que a complementam, só que a mulher tem que ser muito disciplinada porque é preciso regularidade. Inclusive, ela pode fazer sozinha depois que aprende com o fisioterapeuta”, comenta Rocha.

Em último caso, pode-se recorrer à cirurgia para devolver sustentação à uretra. “É um procedimento relativamente simples, mas o problema é que não dá certo algumas vezes, principalmente quando houver excesso de peso, pois o abdômen cai sobre a bexiga”, explica. Neste caso, é preciso tratar a complicação com uma nova cirurgia. “É preciso que sempre começamos o tratamento com a fisioterapia, que tem resultados melhores”.

Maura concorda com ele. “A fisioterapia é menos invasiva e mais barata, não agredindo o organismo da paciente, mas ela só funciona quando o problema é anatômico, não funcional”, reforça. Também ensina a mulher a urinar corretamente, com postura adequada. Ela ainda garante que, pensando na saúde das mulheres curitibanas, a Faculdade Inspirar começa a oferecer tratamento gratuito a partir de agosto deste ano.

Sexualidade prejudicada

Um estudo recente da Unifesp aponta que, além de incômoda, a incontinência urinária afeta a sexualidade das mulheres. Durante todo o ano passado, 163 mulheres foram avaliadas e ficou comprovado que 53% das que sofrem de incontinência apresentam algum tipo de disfunção sexual. Nas mulh,eres que não têm o distúrbio, o índice cai para 23%.

“Avaliamos vários aspectos – desejo, prazer, excitação, orgasmo, interação com o parceiro – e todos eles são prejudicados quando elas têm incontinência, ainda mais porque mais de 40% delas tem perdas de urina durante o ato sexual”, conta o urologista Fernando Almeida, que orientou a pesquisa, apresentada como tese de mestrado pela fisioterapeuta Mariana Rhein. Além da perda durante o ato, as mulheres se sentem feias e sujas, segundo ele, o que as prejudica ainda mais.

A próxima fase da pesquisa deve avaliar os resultados do tratamento nas mulheres que participaram do grupo analisado. “A Organização Mundial de Saúde  (OMS) relaciona a atividade sexual como um dos critérios para avaliar a qualidade de vida das pessoas. Por isso, o estudo é tão importante”, opina. Para Maura, o número de mulheres que perdem o desejo devido ao distúrbio poderia ser menor se houvesse mais conscientização. “O assunto ainda é tabu e, como a fisioterapia não é oferecida no sistema público, as mulheres ficam sem opção de tratamento”.