Lavamos as mãos, preocupados com contaminação. Trancamos a porta de casa, com medo de sermos furtados e, mesmo assim, às vezes, depois de sair, nos esquecemos se a porta realmente ficou trancada ou não. Para algumas pessoas, entretanto, essas atitudes comuns podem se tornar pesadelos. Tem quem lave as mãos até causar feridas na pele, ou quem abra e feche a porta quase cem vezes, e também quem passe os dias contando coisas, em crises intermináveis de ansiedade geradas por pensamentos obsessivos.

A partir do momento em que estas atitudes começam a interferir na vida de uma pessoa, pode-se considerar que elas deixam de ser classificadas apenas como manias ou superstições e passam a ser sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). É quando a pessoa deixa de sair de casa ou se atrasa para os compromissos porque perde muito tempo nestes rituais. Algumas chegam ao ponto de se machucar, cedendo às compulsões.

“É um transtorno psiquiátrico em que o indivíduo apresenta obsessões (pensamentos repetitivos que invadem sua mente) ou compulsões (comportamentos repetitivos), ocorrendo ambos na maioria dos casos. Muitas vezes, as compulsões (rituais de verificação ou limpeza, por exemplo) ocorrem em resposta aos pensamentos obsessivos”, explica o médico psiquiatra Alexandre Karam Mousfi, vice-presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria (SPP).

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De acordo com ele, há fatores genéticos envolvidos na causa da doença, o que explica a presença do TOC, mais frequentemente, em indivíduos da mesma família. Mais da metade dos casos tem evolução constante e progressiva, mas de 10% a 15 % dos pacientes apresentam a doença em fases, com períodos de melhora completa. O médico ainda afirma que 75% dos diagnósticos de TOC aparecem antes dos 30 anos – a maioria deles na adolescência e no início da vida adulta.

Foi assim com a vendedora autônoma Luciana Ribeiro de Paula Garcia, 37 anos. Na infância, ela já apresentava sintomas de contagem e perfeccionismo em simetria e, aos 18, começou a piorar. Não conseguia, por exemplo, sair do banheiro sem contar todos os azulejos. “Comecei a ter manias de limpeza e a criar rituais em casa, principalmente comigo mesma, como o de lavar as mãos várias vezes. Aos 22 anos, logo depois de terminar a faculdade, tive uma depressão profunda porque isso começou a atrapalhar a minha vida. Comecei a deixar tudo de lado e vivia dentro de casa”, conta.

O corrimão do ônibus, por exemplo, era um inimigo. Luciana tinha medo de encostar, pensando nas mãos de pessoas doentes que poderiam ter tocado ali antes dela. Com medo de contágio, andava com as mãos nos bolsos e, aos poucos, foi se isolando do mundo. Dentro de casa, os rituais aumentaram ainda mais. Uma vez, ela chegou a ficar quatro horas no banho. Quando a mãe chegou do trabalho, encontrou a filha quase com hipotermia, porque o gás já tinha acabado e a água estava fria. Em outra madrugada, ela teve um pesadelo com vermes saindo do corpo e quase feriu os ouvidos com hastes flexíveis, procurando por eles.

A mãe, então, decidiu levá-la ao médico e ela recebeu o diagnóstico de TOC, que é feito na conversa com o psiquiatra e exame do estado mental apenas, já que ainda não existem exames específicos para avaliar a presença do transtorno. Também não há medicação específica. Segundo Mousfi, o tratamento é feito principalmente com antidepressivos, ansiolíticos como coadjuvantes, e psicoterapia, para que os pacientes aprendam a lidar com o TOC.

Depois de quase dez anos com medicamentos, Luciana encontrou outra saída: a Noergologia, que é um treinamento mental para reprogramar a comunicação entre as células nervosas, criando comandos mentais para desativar pensamentos negativos e modificar comportamentos. Ela trocou os remédi,os pelas atividades mentais diárias.

“As manias não param, mas eu aprendi a conviver com elas e aceitar o que eu tenho. Quando eu vejo que o TOC quer me vencer, eu dou um jeito de dar a volta nele. Eu domino ele, ele não me domina mais. Vivo o hoje e daqui para a frente, tento não pensar no passado, que me deixa muito triste”, explica.

Outra superação, de acordo com ela, foi deixar para trás o preconceito. Ela garante que antigamente as pessoas viam pacientes com TOC como loucos ou como se tudo fosse “frescura”. O depoimento de vários artistas, como o cantor Roberto Carlos, admitindo tratar o transtorno, e a presença de personagens na televisão convivendo com o TOC, ajudaram a desmistificar a doença. O personagem principal de Monk: Um Detetive Diferente, Adrian Monk (Tony Shalhoub), e Sheldon Cooper (Jim Parsons), da série Big Bang Theory, são exemplos de como é possível viver e encontrar o lado bom do TOC para melhorar a vida.

“O Monk, por exemplo, é um excelente detetive. Tira proveito do perfeccionismo nas investigações”, lembra Luciana. Ela mesma aprendeu a “tirar sarro” dos medos que sentia do que poderia acontecer se ela não fizesse os rituais. Os médicos disseram para a mãe dela, na época do diagnóstico, que ela não poderia trabalhar ou casar, mas ela superou tudo isso e hoje vive normalmente com o esposo. E trabalha todos os dias, como qualquer outra pessoa.

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O cantor Roberto Carlos e os personagens Monk e Sheldon Cooper ajudam a desmistificar o TOC e incentivam a procura por tratamento.