Vergonha, receio ou falta de coragem para encarar a situação fazem com que muitas motoristas sofram quietas com o medo de dirigir. Comum, o problema tem fácil solução e o primeiro passo para que isso aconteça é a recuperação da confiança. Porém, enquanto não procuram ajuda, muitas mulheres se sentem diminuídas e ficam na dependência de caronas, táxis ou meios de transporte coletivos para se locomover ao mesmo tempo em que adiam ao máximo conduzir um veículo.

Os traumas ocasionados por situações graves, como acidentes de trânsito, não são os mais comuns entre as motoristas. De acordo com a psicóloga Maria Cristina Matsubara, questões sociais e autocrítica elevada são as principais causas. “Vários fatores podem interferir. Muitas pensam no que os outros vão pensar de seu desempenho no trânsito, para estacionar ou quando o carro morre ficam desesperadas. Tem ainda as pessoas perfeccionistas, que se esquivam para não passar por isso, para não falharem”, observa. “Às vezes, também, o problema surge como medo de dirigir, mas no fundo não é nada relacionado a isso. Só que na hora que a pessoa vai para o carro ele se manifesta, mas relacionado à parte emocional”, diz a psicóloga. Manifestações sérias, como desmaios, transpiração, taquicardia e dificuldade para respirar, representam problemas mais graves que necessitam de acompanhamento específico.

Com carteira de habilitação há sete anos, a empresária Leila Godinho, 38 anos, deixou de dirigir depois de quase se envolver em um acidente ainda no começo de sua experiência como motorista. “Um senhor me fechou e me assustei muito com aquilo. Não bati o carro, mas de lá pra cá não dirigi mais. Acho que se tivesse batido nunca mais na vida ia entrar em um carro”, disse. Desde então, ela conta com as caronas do marido e de táxis para chegar a seus compromissos. “É chato depender das pessoas. Vou voltar a dirigir, fica muito melhor com o meu carro”, garante Leila, que acredita que a falta de experiência ao volante tenha contribuído para a situação.

Outra motorista, que não quis se identificar, já era experiente até que um contratempo no trânsito a deixou com receio para dirigir. Ela morou em São Paulo, onde só se locomovia de moto, mas quase se envolveu em um acidente em Curitiba. “Há um ano, estava parada em uma esquina perto do Jardim Botânico, esperando a preferencial, quando um motorista que estava falando ao celular encostou na minha moto. A partir desse dia não consegui mais andar de moto e muito menos de carro”, lembra. Ninguém se machucou e apenas o carro ficou um pouco arranhado.

Acompanhamento especial ajuda a vencer o medo

As duas procuraram ajuda na Autoescola Ella, exclusiva para mulheres, que deu início a um programa específico de acompanhamento a motoristas com medo de dirigir depois de perceber que muitas alunas e ex-alunas apresentavam algum receio. “É muito mais comum do que imaginávamos. Antes, elas tinham mais vergonha de se expor e elas conseguiam lidar mais com isso, pegavam carona ou ônibus. Mas hoje em dia dirigir é uma necessidade para as mulheres e não um luxo. Elas estão mais independentes, precisam trabalhar, levar o filho para o colégio, ao médico”, analisa a proprietária da autoescola e coordenadora do projeto, Karla Coelho Martins.

Em pouco mais de um ano do programa “Sem Medo de Dirigir”, cerca de 300 mulheres foram atendidas, em geral com idades acima de 25 anos que, na avaliação de Karla, ficaram muito tempo sem conduzir um veículo e sentem receio de enfrentar o trânsito intenso. As motoristas, então, passam por entrevistas e voltam ao volante na companhia de instrutores e psicólogas, que identificam quais e como surgem ,os principais problemas e dão orientações para resolvê-los. “Já dirigi e não tive tanto medo. Em casa, eu treino tirando o carro da garagem, coisa que não fazia antes. Quando fico nervosa, desligo o carro e faço uma técnica de respiração. Tenho que me controlar e dirigir não é um bicho de sete cabeças, vou perder esse medo”, comemora Leila.

“O problema se resolve com boa vontade e atitude, assumindo o compromisso de dirigir e se envolvendo gradativamente, começando pela rua da sua casa, depois a quadra, o quarteirão e o bairro. O motorista tem que ter estes dois elementos e vai conseguir”, garante o instrutor de trânsito Fernando Fortunato. Ele ressalta ainda que este problema não é específico de mulheres. Motoristas homens também passam por isso, mas sentem mais dificuldades em pedir ajuda.