Hoje em dia, já não dá mais para falar que existem profissões essencialmente masculinas. Há cargos que podem ser mais desempenhados por homens, mas sempre vai ter uma mulher no meio da equipe. Independente de o trabalho depender da força ou requerer liderança, elas estão lá.

Preconceito existe ainda sim. Muitas mulheres que optam por entrar em um mercado de trabalho mais masculino enfrentam preconceito até mesmo dentro de casa. Mas por que uma mulher quer trabalhar na construção civil, por exemplo? Além de hoje ser uma das áreas com mais oportunidades de empregos e avanços salariais, a mulher pode sim encontrar a satisfação profissional dentro de uma obra.

Tornou-se cada vez mais comum encontrar mulheres em profissões restritas aos homens até pouco tempo atrás. Nesta edição, o TDelas mostra histórias de algumas delas. Elas foram atrás do que queriam e venceram em suas profissões, mesmo em um mundo masculino.

Se elas chegaram a um cargo de chefia, pouco importa. O que interessa é a felicidade em trabalhar com o que gosta e sonhar com mais. São as histórias de uma azulejista, de uma guarda municipal, de uma motorista de ônibus e de uma operária. Exemplos inspiradores que comprovam que não há barreiras para o sexo feminino. Quando motivadas, elas vão lá e executam qualquer tipo de trabalho!

No canteiro de obra

Felipe Rosa

Rosinéia Aparecida Maximiano, ou Rosi, como gosta de ser chamada, trabalhava como diarista, mas largou tudo para entrar na construção civil. Ela já tinha visto o pai realizar obras pequenas e gostou daquilo. E colocou na cabeça a ideia de que construir viraria profissão quando teve que erguer a própria casa, com o auxílio de um ajudante de pedreiro e a experiência de família.

“Eu gostei tanto que procurei cursos. Fiz de azulejista, de pedreiro, de hidráulica. Depois, fui procurar emprego. Entrei como servente de pedreiro, passei pelo Projeto Crescer, dentro da FMM Engenharia, que oferece capacitação. E estou trabalhando como azulejista há oito meses nesta mesma empresa”, conta Rosi.

Dentro de casa, houve resistência. “Minha mãe foi contra. Ela falava que ser servente não era coisa para mulher”, revela. No primeiro dia de trabalho, Rosi ficou nervosa. Não tinha visto uma obra tão grande como a que está trabalhando.

São 1,5 mil unidades habitacionais – dentro do programa Minha Casa, Minha Vida – que estão sendo construídas no bairro Santa Cândida. E a rotina de Rosi não é nada fácil. Trabalha o dia inteiro colocando os pisos e os azulejos dos banheiros e das cozinhas. “O maior entusiasmo é saber que fui eu quem fez tudo isto”, salienta. Mas Rosi quer mais. Ela deseja fazer o curso técnico em edificações. Assim, será possível trabalhar e pagar a mensalidade da faculdade de Engenharia Civil. “Este é o meu sonho”, revela.

Pelas ruas de Curitiba

Quatro horas e meia atrás de um volante. Assim é a rotina da motorista de ônibus Tânia Mara Miara, que desempenha esta função há cerca de oito meses. Viu a condução como uma oportunidade para crescer e ganhar mais. “Fui cobradora por seis anos. Quando tirei a carteira de motorista, veio a oportunidade de passar pela capacitação dentro da empresa para o transporte de passageiros. A família apoiou e eu sempre gostei de dirigir. Então, aceitei o desafio”, afirma.

Apesar da quantidade de horas dirigindo, Tânia garante que cada viagem pelas ruas de Curitiba é diferente. Além da linha Ahú-Los Angeles, ela já dirigiu na linha Água Verde-Abranches e ainda conduziu um Ligeirinho. “Dirigir um microônibus e em seguida pegar um Ligeirinho dá diferença, mas logo acostuma”, garante.

Conduzir um &,ocirc;nibus pela cidade é um grande motivo de satisfação para Tânia, que, mesmo em pouco tempo de profissão, se sente realizada. Mas, infelizmente, aparecem aqueles passageiros que aproveitam para fazer brincadeirinhas de mau gosto. “Teve uma vez, quando dirigia o Ligeirinho, que um passageiro me perguntou se eu tinha tamanho para dirigir um ônibus como aquele. Outro perguntou se eu tinha carteira para dirigir. Mas a gente acaba levando na brincadeira porque não vale a pena discutir”, comenta. A meta de Tânia é dirigir um ônibus biarticulado. Para isto, vai precisar passar por outro curso de capacitação.

Trabalhando pela segurança

Felipe Rosa

Há 22 anos, Eliane Hirt Muller trabalha na Guarda Municipal de Curitiba. Quando entrou na corporação, a área era pouco procurada pelo público feminino. O número de mulheres aumentou, mas ainda representa uma pequena fatia no efetivo. Hoje, há 133 mulheres num total de 1530 agentes. “Quando entrei, tinha 18 anos. Fiz vários concursos públicos à procura de uma carreira com estabilidade. Optei pela Guarda e desempenhei diversas funções, desde patrulhamento nas ruas, condução de viaturas, até serviços internos”, conta.

Ela decidiu fazer uma série de cursos durante esta trajetória. Formou-se como socorrista, bombeiro civil e pedagoga. Fez pós-graduação em emergências e urgências. E agora está terminando o curso técnico em enfermagem. Atualmente, está no setor de ensino, responsável pela capacitação dos agentes.

Assim como Rosi, também sofreu resistência dentro de casa. “Minha mãe teve que aceitar, pois ainda tenho uma irmã que é guarda municipal em São José dos Pinhais e outra que é investigadora de polícia”, relata.

O esforço pela construção de uma carreira foi recompensado há dois anos. “Eu estava de folga, quando vi um veículo parado na rua e uma gritaria. Podia ter ido embora, mas alguma coisa fez me voltar. Era uma mãe jovem, com um bebê engasgado com leite. Fiz as manobras de desobstrução e a criança respirou novamente. Todo o esforço que eu fiz na vida foi compensado naquela hora”.

Uma fábrica de sonhos

A necessidade levou Gelsina Maria de Souza Soares para uma fábrica. Precisava criar a família e faltavam oportunidades. Nunca tinha pisado em uma indústria, mas conseguiu emprego na Electrolux em Curitiba, onde trabalha há 19 anos. Começou como auxiliar de produção, função que desempenhou por dois anos. Da turma de 50 mulheres que entraram com ela naquela época, permanecem apenas seis. O número de funcionárias aumentou desde então, mas ainda representa uma minoria.

Ao longo do tempo, as oportunidades foram aparecendo. Gelsina se tornou soldadora. Na equipe de 172 funcionários deste setor, ela era a única mulher. Nos cursos que fazia, também era a única representante do sexo feminino. “Não enfrentei resistências ou problemas de rejeição. Sou uma pessoa que se comunica com todos da mesma maneira. Dentro da fábrica, se você se dá o respeito, você consegue este respeito. Nunca quis regalias. Por isso, não havia diferenças. Podia estar acabada fisicamente, mas eu fazia tudo”, conta.

Para Gelsina, a mulher não pode se esconder quando encontra desafios deste tipo. Hoje, ela comanda uma das linhas de produção da fábrica, a de refrigeradores mais sofisticados. Gelsina comanda uma equipe de 56 pessoas, sendo que apenas uma é mulher. “Já trabalhei com outros times que havia mais mulheres. Não vejo diferença de ser chefe de homem ou de mulher. A gestão é de igual para igual”, garante.

Aliocha Mauricio