Nenhuma mãe cria filho para ser bandido. Elas podem até errar na educação às vezes, talvez por inexperiência e falta de estrutura, mas não podem ser culpadas pelas escolhas que os filhos fazem depois de adultos. Muitas delas, ao contrário do que muitos pensam, estavam lá orientando os filhos a não seguirem pelo caminho errado, mas não foram ouvidas.

Todo mundo sabe como é grande a dor da família de uma vítima de qualquer tipo de crime, mas dificilmente as pessoas lembram que a família de quem está preso também sofre, principalmente a mãe. Esposas, que ficam sozinhas com os filhos para criar, irmãs, avós e filhas, também se sentem desamparadas quando descobrem que o homem que elas tanto amam cometeu um erro inaceitável e ficará muito tempo longe.

De acordo com a Secretaria de Estado de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Paraná (Seju-PR), o Paraná tem 17937 presos em penitenciárias, 6629 custodiados em 60 delegacias onde a Seju cuida da carceragem, e 3496 presos em outras delegacias, nas quais a carceragem é de responsabilidade da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (Sesp-PR).

Felipe Rosa

Para organizar as visitas nas penitenciárias, a Seju criou a Central de Credenciais do Departamento de Execução Penal (Depen). Em um ano de funcionamento do sistema, foram cadastrados 14500 visitantes, das quais 81,28% são mulheres. Desse total, 4393 são mães de presos; 2716 companheiras; 2097 irmãs; apenas 660 mulheres casadas legalmente com os presos; e somente 271 filhas.

Mais de três mil presos, entretanto, não recebem quaisquer visitas. Sem o apoio da família, a ressocialização fica ainda mais difícil. “Este é o antídoto para a brutalidade, em um ambiente conflituoso, poluído e maciçamente violento, diminuindo a cólera e acalmando os ânimos. Assim, a pessoa que cumpre pena vê que a vida continua do lado de fora e que ainda é integrante da sociedade, mesmo que temporariamente ausente dela”, explica a coordenadora da central, Juvanira Mendes Teixeira.

Dor

Não é simples tirar forças em meio à tristeza, raiva e decepção, para ser este elo tão importante na vida de quem está preso. A Seju tem recebido depoimentos de várias visitantes dos presos no projeto Mãos de Mães. Sem se identificar, elas desabafam. “Não é nada fácil ter que trabalhar para manter o preso e os filhos, conciliar hora pra visita e, muitas vezes, ser mal recebida por algum funcionário despreparado. Sem contar a angústia da hora da visita, principalmente a hora que ela acaba e você tem que ir embora e deixar um pedaço teu para trás. Mas o mais triste é saber que, dentro da instituição, eles não têm muito que fazer para se ocupar”, relata uma delas.

Outra mulher, mãe de um agente penitenciário e outro rapaz que está preso, conta que criou os dois da mesma forma, mas eles reagiram à vida de formas diferentes. O mais novo se entregou às drogas, perdeu o emprego e foi preso em uma “boca de fumo”. Depois de 15 meses preso, foi solto, mas voltou a ser detido. “Dói nossa alma ver o filho arrancado da sociedade, excluído da família. Mas continuamos juntos, dando apoio emocional, suporte material dentro do possível. Na segunda vez, veio o desespero, ódio, revolta, tudo. Me senti traída. Busquei mais ajuda para saber viver sem me destruir e também a minha família. Eu jamais desisto de um filho”, conta.

Essa também é a realidade de, sofrimento na vida de Joana e Maria, esposa e mãe de João. Os nomes são fictícios, já que, neste mundo de ameaças e incertezas, todos têm medo de se identificar. Joana é casada há seis anos com João e eles têm uma filha de cinco anos, que acredita que o pai está viajando. “Ela é muito esperta. Se a gente falar a verdade pra ela, vai contar pra todo mundo. E não tem porquê. O pai é um herói pra ela, ela não precisa ver ele preso”, conta.

Joana precisou fazer uma cirurgia enquanto o marido estava preso e teve que chamar os pais para cuidar dela no período de recuperação porque não tinha com quem contar. Se não fosse a ajuda de Maria, não teria como trabalhar para criar a filha. Esta é a segunda vez que João foi preso. Na primeira vez, mãe e esposa visitaram ele no Centro de Triagem, em Piraquara, onde a revista dos visitantes é mais rigorosa e constrangedora – até as partes íntimas são observadas. Agora, João está em uma delegacia. Lá, o espaço é para presos provisórios, portanto, não há um espaço propício para visita.

Enquanto nos presídios as visitantes podem tocar nos presos, abraçá-los e matar as saudades, na maioria das delegacias elas ficam distantes deles por algumas grades. Podem apenas vê-los e conversar com eles. Levam roupas, comida, e tudo é aberto, verificado, para evitar que entrem produtos ilícitos na carceragem. Tanto nos presídios quanto nas delegacias, elas só podem ver os presos uma vez por mês. Com os olhos marejados, Maria lamenta a situação. “Eles acham que a gente é a mesma coisa que eles. É muito triste porque é difícil arrumar emprego para eles depois que saem. É meu único filho, eu não posso desistir dele!”, desabafa.