Enquanto a mãe era vista, até pouco tempo atrás, apenas como a mulher carinhosa, que faz de tudo para agradar os filhos, a imagem do pai sempre foi a de uma pessoa rígida, que bota ordem em casa e nem sempre dá ouvidos às vontades da prole. Mas, tudo isso está mudando. Desde que a mulher passou a trabalhar tanto quanto o homem, a figura paterna, agora adaptada, é de um “faz tudo”. Ele cozinha, limpa a casa, e principalmente, também ouve os filhos e dá amor e carinho a eles.

Em muitas casas, agora a mãe é a “carrasca” e o pai é a figura mais importante da vida dos filhos. “Atualmente, ele está mais participativo, acompanhando o desenvolvimento, participando das atividades diárias e fornecendo um bom modelo de respeito, companheirismo e afeto. Quanto maior a participação do pai na vida da criança, melhor será seu desenvolvimento e maturidade para lidar com as situações do seu cotidiano. Consequentemente, ela terá uma vida mais saudável”, explica Edilene Lourenço Gomes, psicóloga especializada em psicopedagogia.

Por outro lado, nem sempre o pai está presente para representar esse papel, ainda mais com tantas mudanças pelas quais a sociedade está passando. Com a revolução sexual, muitos casais são surpreendidos por uma gravidez e não sabem como lidar com isso. Desta forma, nem todas as crianças são tão esperadas e desejadas como antes. Em parte dos casos, os homens acabam até fugindo desta responsabilidade, deixando de assumir os filhos. Isso desenvolveu uma geração inteira de pessoas que não tem o nome do pai no registro de nascimento.

Esse vazio no coração, para as mulheres, pode gerar vários traumas e outros problemas. “A menina define sua identidade sexual por volta dos cinco anos de idade e o pai tem papel fundamental nesta fase. Um pai ausente deixa na filha a marca da rejeição, que pode interferir principalmente em suas escolhas amorosas, buscando na relação afetiva “um pai” para suprir sua carência paterna”, revela Edilene. Para que isso não aconteça, é importante que exista uma figura masculina com vínculo afetivo com a criança, ainda que não seja ela o pai biológico.

Adoção por amor

Nem todas as filhas adotadas têm a necessidade de buscar sua origem. A profissional de marketing Fabrícia Stresser, 36 anos, nem pensa em procurar os pais biológicos. O pai adotivo, Dércio, é tão importante na vida dela, que basta. Ele e a esposa, Dirlene, tinham dois filhos homens e queriam muito uma menina. Na mesma época, a tia de Dirlene administrava um lar para meninas em uma cidade do interior do Paraná. Fabrícia até já passava os finais de semana com uma família, mas o processo de adoção acabou não dando certo.

Sabendo disso, Dércio foi até lá para buscá-la. Na casa nova, a pequena, de apenas 11 meses foi recebida com carinho pelos irmãos, então com 5 e 10 anos, mas só soube da adoção aos oito anos. “Certo dia, minha mãe me explicou que eu não tinha vindo da barriga dela, mas que era filha da mesma forma. Chorei muito na hora, mas no dia seguinte já fui para a escola e contei pra todo mundo. Nunca tive problemas com isso e nunca tive vontade de conhecer meus pais biológicos. Não sou obrigada a sentir algo por uma pessoa que eu não conheço. Não sinto esse vazio”, conta.

O substituto ideal

Marco Andre Lima
Sônia revê fotos dos dois pais e lembra da importância de Otávio para ela.

Sônia Maria Pedrini, 57, cresceu com um “buraco” no coração, mesmo tendo o nome do pai em seu registro de n,ascimento, diferente de muitas outras crianças. Quando ela tinha apenas um ano e meio, a mãe contraiu tuberculose e não acreditava que o pai de seus sete filhos, Ciro, seria responsável o suficiente para manter a criação de todos. “Naquela época, tuberculose não tinha cura. Ela veio para Curitiba para ficar em um sanatório e tentou amparar todos os filhos antes, com outros familiares, porque também tinha medo de que a gente contraísse a doença”, conta.

Sônia, ainda um bebê, e o irmão de três aninhos, ganharam então uma nova mãe e um novo pai, o tio Otávio. De Ciro, ficaram poucas lembranças. Uma vez, ela e o irmão o viram comprando uma boneca e uma bicicleta para dar de presente de Natal para eles. Depois, ele chegou para visitá-los, na casa de Otávio, dizendo que eram presentes do Papai Noel. Ela também se lembra de um dia em que Ciro, carpinteiro e pioneiro de Francisco Beltrão, construía uma ponte e a pegou no colo para atravessar. Além disso, foram poucas as demonstrações de carinho do pai biológico.

Carinho mesmo, ela recebeu dos tios. Ele e a esposa não chamavam Sônia de filha. Ela, lembrando-se de Ciro, não conseguia chamar o tio de pai. O sentimento, porém, era de uma relação de pais e filhos. Sônia sentia o amor dos novos pais a cada abraço. Muito religioso, Otávio ensinou Sônia, o irmão, e mais quatro filhos biológicos, além de outras crianças que também ajudou a criar, a valorizar as pequenas coisas. “Ele tinha muita paciência. A única vez que eu apanhei dele na minha vida inteira foi para parar de brigar com o meu irmão. Depois disso, nunca mais brigamos. Devo tudo a eles”, conta.

Outra grande lição que Sônia teve foi a perseverança. Otávio perdeu tudo o que tinha tentando salvar um filho doente. Mas, em nenhum momento, abandonou os filhos que adotou. Todos enfrentaram juntos as dificuldades. Sônia casou jovem e Ciro não compareceu à cerimônia. Em 1993, quando o filho mais velho dela já completava 18 anos, a angústia dela pela ausência de Ciro na vida da nova família aumentou. Ela decidiu fazer uma visita ao pai, na cidade onde nasceu, e organizou uma festa de aniversário para ele. “Nunca é tarde para fazermos nossos acertos”, ressalta.

Um ano depois, aos 71 anos, Ciro ficou muito doente, veio para Curitiba fazer tratamento e a madrasta pediu ajuda para Sônia. Ela ficou no hospital, ao lado do pai, até o fim. Em um dos dias de visita, Otávio chegou para dar um abraço no cunhado. “Um estava na cama e, o outro, do lado. Pensei em quem eu amava mais. Descobri que, na verdade, eu sempre amei os dois da mesma forma, só que cada um à sua maneira”, conta, aos prantos. Otávio faleceu em 2005, aos 94 anos, enquanto dormia, mas os ensinamentos dele são seguidos por Sônia até hoje.

Um pai amigo

Arquivo Pessoal
Virgínia: orgulho de Seu Gênio.

A professora de Educação Física Virgínia Crivellaro, 46, também tem medo de perder seu pai, Eugênio. Ela tem muito orgulho dele, que trabalhou a vida toda como mecânico. Dos oito aos 21 anos, ajudava os pais nas despesas da casa. Mesmo depois de casado, trabalhava debaixo de sol ou chuva e, nas férias, mandava a família para o litoral, mas só conseguia acompanhá-los nos finais de semana.

Mas, mesmo em meio a tanto trabalho, ele conseguiu ser muito presente na vida dos cinco filhos. “Era uma educação na qual a gente falava sobre tudo. Gelava quando fazia alguma coisa errada e ele dizia: “Depois, em casa, a gente conversa”. Isto era bem pior do que apanhar, pois a gente sabia que ele ficava magoado e doía bem mais. Sempre foi uma educação baseada no respeito, na confiança e amizade”, conta Virgínia.

A professora ainda tem o pai como seu melhor amigo e adora ver como ele chora de alegria com as mais simples conquistas de cada um dos cinco filhos, doze netos e oito bisnetos. Ela sempre lembra de seu pai dizendo que deve-se prezar a honestidade,, para dormir com a consciência em paz e ter o sono dos justos, e que “quem grita perde a razão em qualquer discussão”.

Eugênio sempre foi um homem apaixonado pela esposa, Tereza, e, com suas atitudes (dava flores e a levava para jantar fora toda semana), ensinou os filhos a amar sem ter medo nem vergonha. Depois que ela faleceu, a alegria dele é reunir a família. “Até hoje ele me ensina muita coisa com seus gestos de amor e carinho, como respeito, amizade companheirismo e solidariedade, que eu tento passar para meu filho também. Sua riqueza deixada para nós foi o estudo, pois ele não completou o curso primário, mas sempre dizia que, com estudo, voaríamos sozinhos, e nisto ele estava certo”, garante Virgínia.

Depoimento

Nasci muito tempo depois de meu irmão e minha irmã, então, eles tiveram uma criação muito diferente da minha. Meu pai era um homem “bruto”, muito rígido e que trabalhava demais, mas que sempre quis o melhor para os dois. Como eu vim de surpresa, em um momento da vida em que meu pai já estava mais maduro e que buscava estudar Psicologia, eu ganhei um “pai babão” e muito presente. Meu pai era meu herói.

A separação dos meus pais foi difícil para mim, aos dez anos. Por isso, até a adolescência, briguei muito com ele. Nossa relação precisou ser renovada e nossos laços hoje são diferentes. Na fase adulta, compreendi o que aconteceu e tudo o que fizeram por nós. Passei a amá-los ainda mais.

Apesar da criação diferente, meu pai conseguiu formar três filhos trabalhadores, honestos, e que colocam a família acima de tudo na vida, sempre com o apoio da minha mãe, uma mulher batalhadora e amorosa. Obrigada, meu herói, por me ajudar a ser uma pessoa melhor. Mando um beijo também ao meu irmão, que é um pai “bruto” como o nosso era com ele, mas que também é capaz de fazer qualquer coisa para oferecer o melhor para meus quatro sobrinhos. Eu amo vocês.