Quando Luna Del Vechio, 27 anos, estava se preparando para prestar vestibular, ela dizia para si mesma: “quero ter qualquer profissão, menos professora de Educação Física”. O motivo que levava a jovem a fazer tal promessa a si mesma era sua vontade de ter uma ocupação diferente da de sua mãe, a professora de Educação Física Eliana Patricia Pereira, 50 anos. No entanto, mesmo depois de iniciar outra faculdade, Luna voltou atrás em sua decisão e decidiu optar pela mesma carreira de sua mãe.

“Sempre vi minha mãe trabalhando muito. Então, não queria seguir a mesma carreira porque sabia que a vida de professora seria muito difícil, com muita correria, pouco retorno financeiro e pouco reconhecimento. Mas quando comecei a fazer bicos com recreação, percebi que tinha mais perfil para a Educação Física mesmo”, relembra Luna. Hoje em dia, ela é uma grande defensora da profissão.

No início, a própria mãe de Luna tinha suas dúvidas a respeito da decisão da filha. “Quando escolhi ser professora de Educação Física, fiz exatamente aquilo que queria. Trilhei um caminho escolhido, desejado. Mas quando ela me disse que também faria Educação Física, fiquei com ela dúvida. Será que eu não estava transferindo a minha paixão para ela?”, comenta Eliana.

No entanto, com o passar do tempo, ela percebeu que este era mesmo o desejo de sua filha e que ela também estava se tornando uma profissional tão apaixonada pela Educação Física quanto ela. A certeza veio quando mãe e filha começaram a trabalhar juntas de fato. Há alguns anos, as duas atuam em um projeto de natação para pessoas com necessidades especiais na Unibrasil – Eliana como professora e Luna como voluntária. “Ela tem qualidades que admiro em qualquer profissional, como a dedicação, o comprometimento e a pró-atividade”, afirma Eliana.

Ambas garantem, entretanto, que, com exceção deste projeto, Eliana nunca teve participação ativa na construção da carreira de Luna. “Não queria ficar à margem da minha mãe nem que dissessem que eu estava trabalhando em determinado lugar só porque minha mãe tinha indicado. Então, desde quando comecei a fazer estágios, sempre fui atrás das oportunidades sozinha. Nunca precisei de interferência ou indicação dela”, conta Luna.

Esta não era exatamente a vontade da mãe, mas Eliana teve que aceitar o desejo da filha. “Em alguns momentos, isso foi muito doído para mim porque eu via que ela tinha dificuldades em conquistar seu próprio espaço e sabia que podia interferir, mas respeitei o desejo dela porque não queria que ela ficasse com aquela dúvida: ‘estou aqui porque sou competente ou só porque minha mãe indicou?’”, reconhece Eliana.

Vantagens e desvantagens

Assim como Luna, muitas mulheres optam por seguir as mesmas carreiras de suas mães. Para a coach Cibele Nardi, isso acontece porque os jovens instituem referências para eles. “Quando o pai ou a mãe é bem-sucedido, o filho olha com carinho para esse modelo e, mesmo que instintivamente, quer segui-lo”, explica.

As vantagens de seguir a mesma carreira de um dos pais são várias. “O caminho já foi desbravado. Então, fica muito mais fácil entrar no mercado do que quando se começa do zero, pois alguém já tem contatos, clientes e experiência na área para ajudar e orientar quando o novo profissional precisar, principalmente no período de formação”, opina.

Apesar de Luna não ter se aproveitado dos contatos profissionais da mãe, pelo menos uma facilidade ela admite que teve. “Sempre tive muito acesso à informação, com livros e dicas de quem tem muita experiência pr&a,acute;tica”, afirma. Para Cibele, entretanto, não há qualquer problema em pular etapas devido à estrutura que os pais podem oferecer. “Gerar oportunidades para os filhos é saudável, só não se pode fazer as coisas por eles”.

A única situação em que essa escolha não deve ser incentivada, segundo a coach, é quando o filho opta por seguir a carreira dos pais somente para agradá-los. “Se isso acontece, o profissional fica frustrado. Cabe aos pais refletir se não estão induzindo o filho a uma decisão que não é dele, se esta é a vontade dele mesmo, se não está abrindo mão de outra profissão que realmente deseja só para ficar na zona de conforto”.