Mesmo antes de Amor à Vida estrear, todo mundo já sabia que a personagem Paulinha (Klara Castanho) ficaria doente e teria que passar por um transplante, ainda que poucos detalhes tenham sido divulgados oficialmente pela Rede Globo. Agora, depois de quase um mês no ar, a novela começa a mostrar o drama da menina. Na semana passada, os médicos anunciaram a necessidade do transplante de fígado em decorrência de um comprometimento do órgão devido à ação de uma doença autoimune, o lúpus.

Na novela, a doença da menina é apenas um pretexto para Paloma (Paolla Oliveira) descobrir que Paulinha é sua filha que sumiu depois do parto. Mas a história serve para alertar a população, principalmente as mulheres, sobre o lúpus. Afinal, o sexo feminino é o principal “grupo de risco” da doença. E, apesar de rara – estima-se que menos de 1% da população mundial sofra com ela -, a doença pode ser muito perigosa se não for tratada com atenção desde a aparição dos primeiros sintomas.

Apesar de Paulinha ter apenas 12 anos, a maioria dos pacientes que sofrem desta doença são mais velhos. “Na verdade, o lúpus nessa faixa etária é mais raro do que em adultos. Estima-se que, no mundo, a cada um milhão de crianças e adolescentes, apenas cinco apresentem a doença. Por outro lado, as mulheres em idade fértil são as mais atingidas. Para cada homem que desenvolve o lúpus, há nove mulheres com a doença”, explica a reumatologista Christina Pelajo, do Hospital Pequeno Príncipe.

Felipe Rosa
Christina explica que as mulheres em idade fértil são mais atingidas pela doença.

Mas esta é apenas uma das informações que ficaram faltando na explicação dada por Paloma ao anunciar o diagnóstico a Bruno (Malvino Salvador), pai de criação da menina. Na cena, a médica explica apenas que, quando uma pessoa tem lúpus, o sistema imunológico “recebe uma informação errada” e passa a combater o próprio organismo. Mas nem sempre a área atacada é o fígado, como acontece com a personagem.

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), a doença mostrada na ficção, pode acometer qualquer órgão. “Esse tipo de lúpus pode afetar as articulações, os rins, o sistema nervoso central, o pulmão, os músculos, o coração, o sangue ou apenas causar sintomas inespecíficos, como cansaço, fraqueza e falta de disposição”, afirma. Há ainda o lúpus discóide ou cutâneo, que provoca apenas manifestações na pele. Essa variação mais leve é um dos critérios de diagnóstico do LES, feito por meio de avaliação clínica e complementado com exames laboratoriais.

São dez os demais critérios para chegar ao diagnóstico do lúpus, segundo Christina: existência de uma mancha característica no rosto (conhecida como asa de borboleta), fotossensibilidade (reação exacerbada ao sol), nefrite (inflamação dos rins), manifestações do sistema nervoso central (convulsões ou psicose), úlceras orais, alterações no sangue, presença do autoanticorpo fan, presença de outros autoanticorpos, artrite e serosite (inflamação da pleura, membrana que envolve os pulmões).

Como os sintomas não são tão característicos e não aparecem necessariamente todos juntos, de uma vez, é comum que os pacientes passem por diversos médicos até serem diagnosticados corretamente. Mas essa demora pode ser fatal,. “O lúpus é uma doença bastante imprevisível e traiçoeira. Pode ter um aspecto benigno, mas também pode ocasionar uma mortalidade rápida também, tudo depende de como ela se manifesta no paciente. Por isso, a importância de um diagnóstico correto”, justifica.

Devido a essa característica de múltiplos aspectos, o tratamento também é bastante individualizado, podendo incluir anti-inflamatórios, corticóides, antimaláricos e, principalmente, imunossupressores. “Esse medicamento controla a atividade exacerbada do sistema imunológico que o faz atacar seu próprio organismo”, explica. No entanto, a medicação tem que ser constante, pois o lúpus é uma doença crônica e não tem cura, apenas controle, podendo haver reativação da doença a qualquer momento.

Gestantes devem ter cuidado

Apesar de inúmeros estudos científicos já terem sido realizados, ainda não foi comprovada a causa do lúpus. No entanto, existem algumas certezas. Uma delas é a relação da doença com a variação hormonal, o que pode ser o motivo de as mulheres serem maioria entre os pacientes. Estrogênio e progesterona podem desencadear uma ativação ou reativação da doença em quem já tem predisposição para desenvolvê-la.

“Uma paciente com lúpus não deve tomar anticoncepcional com estrogênio por este motivo”, explica a médica reumatologista Scheila Fritsch, voluntária do ambulatório do Hospital de Clínicas (HC) e membro da Sociedade Paranaense de Reumatologia, assim como Christina. Segundo ela, a doença também pode ser perigosa para quem decide engravidar. “A fertilidade não é diminuída, mas é importante que a gestação seja acompanhada de perto, pois pode acabar sendo uma gravidez de risco”, alerta.

O risco se deve à possibilidade de ativação da doença durante a gestação, segundo Scheila. “Os anticorpos que combatem o organismo da mulher podem passar para o bebê e atacá-lo também. Além disso, a placenta pode envelhecer mais rápido, fazendo com que a criança nasça antes e/ou com baixo peso”, explica. Assim como os hormônios, outros fatores podem servir de “gatilho” para a ativação ou reativação da doenaça, como uma predisposição genética, o estresse e a exposição solar.