A expressão ?queimar o filme? saiu do universo da fotografia para entrar para o jargão popular, sendo usada quando alguém passa por uma situação vexatória. Antigamente, quando as câmeras analógicas dominavam o mundo, usava-se o termo para fotos maltiradas, pois as pessoas gastavam dinheiro e só ?queimavam o filme?, numa alusão ao processo técnico, em que a luz ?queima? o negativo para formar a imagem. Com a crescente demanda de câmeras digitais, que dispensa o uso de negativos, ?queimar o filme? começa a entrar no domínio popular como um arcaísmo lingüístico, de um tempo tecnológico passado.

Numa pesquisa realizada pelo Instituto GFK, a venda de câmeras digitais e de celulares com dispositivos de captura de imagens deve chegar a dois milhões de unidades este ano. Para Duda Escobar, coordenadora da maior feira de fotografia da América Latina, a PhotoImageBrazil, que acontece esta semana em São Paulo, o que a princípio parecia um modismo, vem comprovando ser uma tendência. ?É uma realidade, mas não era há quatro anos.? Ela cita que há 22 milhões de câmeras analógicas e entre 5 e 6 milhões de máquinas digitais no mercado brasileiro, ?o que significa que existe um mercado de 17 milhões para esses objetos de desejo?.

Duda considera a fotografia digital uma via de acesso fácil para que pessoas possam lidar com captura de imagens. ?Permite que as pessoas tirem quantas fotos quiserem, registrem o cotidiano com facilidade e vejam o resultado no visor, sem gastar com negativos e revelação?, explica.

Segundo Duda, a foto digital está propiciando relações diferentes com a imagem, como a possibilidade de imprimi-la com facilidade em vários materiais, como tecidos, painéis e concreto. ?Não existe barreira material específica. Pode ser transferida para qualquer tipo de mídia?, diz. Ela afirma que, do ponto de vista tecnológico, as câmeras estão atingindo um alto nível de sofisticação, com maior valor agregado e preços acessíveis, sendo este outro fator que contribui para a expansão do mercado.

De acordo com o gerente de marketing da Fuji, Flávio Takeda, a migração das câmeras analógicas para digitais vai depender da demanda. Takeda diz que, em determinados lugares, as analógicas são uma boa opção. Ele dá o exemplo da Disney World, em que câmeras analógicas descartáveis representam mais de 25% do total de máquinas usadas. ?São também opções práticas para locais em que há riscos para o equipamento, como na beira-mar?, afirma. Segundo ele, a popularização das digitais no Brasil se deu em 2004, quando os preços de câmeras amadoras topo de linha chegaram a ficar por volta de R$ 2 mil. ?Em 2002, ninguém imaginaria ser possível encontrar câmeras por R$ 50, como acontece hoje.?

Resolução

O que vem contribuindo para a popularização das máquinas digitais é o incremento na resolução. De acordo com Takeda, no mercado amador, as câmeras chegaram a uma resolução parecida com a do negativo, com seis milhões de pontos compondo a imagem de uma fotografia, ou na linguagem corrente do mundo digital, seis Megapixels. ?Mas, para fotos no tamanho 10 por 15 centímetros, aparelhos com resolução de dois megapixels já são suficientes?.

Takeda comenta que, quase que anualmente, os fabricantes lançam máquinas com resoluções melhores. Para o ano que vem, ele diz que a Fuji trará câmeras para o mercado amador com nove megapixels. Além disso, softwares que antes só estavam disponíveis em máquinas profissionais já começam a ser incorporados nas digitais amadoras.

Apesar de todas as mudanças do analógico para o digital, Takeda opina que há comportamentos que não irão mudar tão facilmente. ?As fotos que as pessoas desejam guardar como lembrança deverão ser impressas em casa ou em estabelecimentos especializados de fotografia. Computadores e cds demonstraram serem péssimos para armazenar fotos por um longo período de tempo?, pontua.

Dicas para fazer uma boa aquisição

Para o gerente de marketing da Fuji, Flávio Takeda, as câmeras digitais possuem a vantagem de não precisar de filme, porém o consumidor deve prestar atenção em alguns detalhes técnicos, antes de decidir qual câmera irá comprar. Ele observa que é freqüente as pessoas procurarem aparelhos com cartões de memória de alta capacidade, esquecendo de observar o consumo de bateria. ?Há câmeras que precisam trocar de bateria após tirar entre 40 a 50 fotos, mas possuem cartão de memória que armazena 300 fotos. Para não ter esse problema, é preciso buscar aquelas que possuem baterias de longa duração?, explica.

Outra característica que precisa ser analisada é o tempo de disparo dos equipamentos. ?Há máquinas fotográficas que demoram até um segundo entre acionar o botão de disparo e fazer a captura de imagem. E com essa demora, as pessoas acabam não conseguindo captar o momento único, que não vai se repetir.?

Segundo Takeda, não adianta também possuir aparelhos sofisticados, com alta resolução, mas com cartões de memória de baixa capacidade de armazenamento. ?Não adianta ter uma câmera de seis Megapixels de resolução e não ter um cartão de memória condizente.?

Celulares

Ao comprar celulares com câmeras, as pessoas devem antes pensar qual será o uso que pretendem destinar ao aparelho. Assim pensa o gerente de produtos da Siemens, Ivanildo Cordeiro Silva. Na avaliação dele, há uma grande quantidade de consumidores que desejam ter dispositivos de captura de imagens em celulares, mas isso não quer dizer que celulares sem câmera vão desaparecer. ?Há pessoas que preferem não ter o dispositivo, porque o usam somente para se comunicar?, pondera.

Segundo Silva, se a intenção do usuário for tirar fotos e enviar para celulares de outras pessoas, um aparelho com resolução pequena, com tela de 352 por 288 pixels, pode suprir as necessidades. ?Para ver no monitor do celular é o suficiente?, indica. Porém, se o objetivo for baixar as fotos no computador, é interessante procurar modelos com resolução maior.

Silva ressalta que celulares com câmeras de 1,3 megapixels de resolução possibilitam imprimir fotos de 10 por 15 centímetros. ?Modelos como esse estão disponíveis desde o segundo semestre do ano passado.? (RD)

Resolução depende do tipo de uso

No dia dos namorados, o fotógrafo da Prefeitura de Curitiba Michel Wilian comprou uma câmera digital para presentear sua esposa. Como profissional, ele poderia ter optado por uma máquina de alta resolução, como por exemplo as de cinco megapixels. Mas não foi o que aconteceu. Levou uma de 3,2 megapixels. ?Uma câmera com essa resolução é suficiente para muitas das necessidades das pessoas, podendo imprimir fotos e fazer ampliações, sem que haja problemas na imagem.?

Segundo ele, ?nominalmente? não seria possível, mas o resultado final é bastante satisfatório. ?A resolução é um dos mitos correntes sobre as câmeras digitais?, avalia. Wilian diz também que muitas dessas máquinas digitais amadoras estão vindo com vários recursos encontrados antes somente em equipamentos profissionais.

O fotógrafo atenta também para outro fato: imagens com alta resolução requerem um bom computador para poderem ser tratadas. Uma câmera de cinco megapixels de resolução, explica, geram arquivos de 15 megabytes, quando descompactados. Segundo Wilian, para trabalhar com arquivos desse tamanho em programas como o Photoshop, é aconselhável que o computador seja no mínimo um Pentium 3, com 512 de memória RAM e com processador de 1Ghz. Ele lembra também que, para transferir pela internet esses arquivos de imagem em alta resolução, é preferível o uso de banda larga. De acordo com Wilian, é difícil hoje alguém dispensar o uso do Photo-shop. ?E preciso tratar as fotos no computador, para ajustar cor, recortar a foto. Somente as câmeras topo de linha, em mãos muito experientes, podem dispensar o uso do computador?, explica. (RD)