Além das estrelas e dos planetas, Copérnico – que revolucionou a astronomia com a sua teoria heliocêntrica – ocupou-se também de uma reforma monetária. Naturalmente, como ocorre com milhões de outras pessoas, foi a inflação que conduziu Copérnico a pensar sobre o problema. O seu interesse surgiu em conseqüência do agravamento da situação econômica provocada pela crise monetária em Warmia.

Naquela época, o papel-moeda não havia ainda sido introduzida na região. Toda transação ordinária, na vida comercial, utilizava exclusivamente moedas que eram cunhadas com uma liga de prata e cobre. A situação monetária era muito complexa, pois o dinheiro, cunhado pelas diferentes casas das moedas dos governos, sofria diversas flutuações e perdia o valor. Por outro lado, as moedas provenientes dos países vizinhos repercutiam igualmente na economia da região. No território da Prússia e da Pomerânia, existiam quatro casas da moeda: em Torun, em Gdansk, em Elblag e em Kroleviec. As moedas que essas casas cunhavam eram refundidas pelos cavaleiros teutônicos que introduziam, no meio circulante, moedas com uma quantidade cada vez menor de prata, o que, além de provocar inflação, freava o desenvolvimento do comércio.

Em 1516, quando os estados prussianos se reuniram em Elblag, Copérnico interessou-se pela questão e preparou uma primeira dissertação De estimatione monete (Sobre o preço da moeda). Dois anos mais tarde, quando de uma estada em Olsztyn, Copérnico retomou tal dissertação e elaborou um novo estudo um pouco diferente intitulado: Tractatus de monetis, Modus cudendi monetam (Tratado sobre as moedas, modo de cunhar moedas).

Em março de 1522, Copérnico e o cônego Tideman Giese participaram, como representante de Warmia, no Congresso dos estados da Prússia Real, em Grudziadz. Por solicitação destes estados que já conhecia o seu interesse pelo problema, Copérnico apresentou o seu tratado sobre a moeda (Tractatus de monetis). Nesse estudo, Copérnico propôs igualizar a moeda prussiana com a polonesa, o que foi aprovado pelos congressistas presentes. Em seguida, tal questão foi reestudada em outras assembléias dos estados da Prússia Real: em Tezew, em outubro de 1522, e de novo, em Grudziadz, em outubro de 1524, quando todos os estados aprovaram a proposta do astrônomo polonês. Em 1526, redigiu Dissertatio de optima monatae cudendae ratione (Discurso sobre a cunhagem de moeda boa).

As questões monetárias eram de uma enorme atualidade na época. Elas eram discutidas em quase todas as reuniões dos estados prussianos, pois a crise monetária e a inflação resultante vinham provocando efeitos muitos sérios nas transações comerciais. Em 1528, Copérnico elaborou um estudo teórico definitivo sobre a questão: Moneto cudende ratio (Sobre a maneira de cunhar moedas), no qual desenvolveu uma série de postulados que visavam melhorar a situação; por exemplo, aconselhava a instalação de uma única casa da moeda, a unificação do sistema monetário em todo o Reino da Polônia, bem como a estabilização e revalorização da moeda.

Para melhor esclarecer os políticos que acreditavam em uma dicotomia entre a estabilidade política e a econômica, convém reproduzir o período inicial da dissertação copernicana: “Inúmeras são as causas que provocam habitualmente a decadência dos Estados (das monarquias e das repúblicas). Na minha opinião, existem quatro que são as mais perigosas: a discórdia (divisões intestinas), a grande mortalidade, a esterilidade do solo e a desvalorização da moeda. As três primeiras são tão evidentes que ninguém poderá colocar em dúvida os seus efeitos. Ao contrário, o quarto, relativo à moeda, só é reconhecido por muito pouca gente e assim mesmo por aqueles que refletem com seriedade e profundidade, pois os Estados não são condenados à ruína no primeiro golpe, mas lentamente e de uma maneira invisível”. Logo em seguida explicava: “A moeda é uma espécie de medida geral de valor. Ora, é indispensável que ela seja uma medida que deve ser conservada sempre como uma grandeza constante e imutável.”

Depois de expor suas considerações genéricas sobre a moeda, Copérnico analisou os problemas da moeda da Prússia e as causas da crise. Em conseqüência das falsificações praticadas durante longos anos, o valor da moeda caiu. Por outro lado, o fato das cidades (Torun, Gdank, Elblag, Krolewiec) terem a possibilidade de cunhar sua própria moeda, fez com que aparecessem em circulação moedas boas e ruins, o que provocou um aumento na quantidade de moedas em circulação e uma redução na sua qualidade. Os ourives e os comerciantes escolhiam, entre as diferentes moedas, as melhores, em geral as mais antigas, e após extrair a sua prata, vendiam o metal. Assim, eles obtinham do povo ignorante uma maior quantidade de prata em moeda misturada. Desse modo, à medida que as velhas moedas de maior valor desapareciam totalmente de circulação, só as moedas aviltadas permaneciam. Com a diminuição da quantidade da prata, as moedas sofriam uma queda no seu valor de troca. Partindo desta constatação, Copérnico formulou a primeira lei da suplantação da boa moeda por uma má, ou seja, por uma moeda de mais fraco teor de metal precioso.

Tal lei, enunciada por Copérnico, ficou conhecida com o nome de lei de Gresham, em homenagem ao financista inglês Thomas Gresham (1519-1579), criador da Bolsa de Londres, que, no século XVI, depois de Copérnico, formulou também o princípio segundo o qual as moedas ruins contaminam as boas(1).

Talvez para melhor compreender esta última conclusão nada melhor do que esta análise de Copérnico, o astrônomo que revolucionou a astronomia e a economia “O comércio, o tráfico, as artes e as profissões florescem onde o dinheiro é bom. Onde é ruim, ao contrário, as pessoas se tornam tristes e preguiçosas: renunciam a cultivar seu espírito. Recordamos ainda o tempo no qual tudo era barato na Prússia, quando a moeda em circulação era boa. Agora, os preços dos objetos de primeira necessidade aumentaram. É evidente que o dinheiro desvalorizado favorece a indolência e não ajuda os pobres…”

À medida que se estuda a vida de Copérnico, descobre-se uma personalidade preocupada com toda espécie de questões sociais. Provavelmente em conseqüência das solicitações do capítulo, Copérnico se dedicou a problemas que se afastavam do interesse maior, como por exemplo, a elaboração de tarefas relativas ao preço do pão. A tabela do preço dos pães – Panis coquendi ratio -elaborada por Copérnico, em 1531, constituiu uma determinação que regulamentava ao mesmo tempo o preço e o modo de cozedura do pão em Olsztyn e nas outras cidades de Warmia.

As mais diversas preocupações desse imenso talento mostram-nos um espírito muito sensível: um homem para o qual tudo que era humano não lhe era estranho ou indiferente.

 

Notas:

(1) Na época da implantação do plano Collor, escrevemos sobre Copérnico, astrônomo e economista, com a seguinte conclusão: Trocando em miúdos para nós brasileiros que vivemos uma crise monetária, o cruzado novo (a moeda ruim) poderá destruir o cruzeiro (a moeda boa). Assim, a grande ameaça ao plano Collor é a persistência dessa segunda moeda que deveria ter desaparecido totalmente. Ela surgiu, como as moedas da velha Warmia, de uma delegação governamental que permitia aos bancos – através de um modo mais sutil, talvez, mais moderno – “cunhar” uma falsa moeda pelo “over” ou “open” que pareciam corrigir a inflação, mas na realidade, introduziam no meio circulante uma “moeda aviltada” que o povo sempre mal informado, como também ocorreu na época de Copérnico, acumulou em suas poupanças. Na verdade, o povo já vinha sendo confiscado há muito tempo com uma “falsa” moeda – o cruzado novo que nascia na calada da noite, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão fundador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual hoje é pesquisador-titutar, e autor de mais de 70 livros, entre outros, do “Copérnico -Pioneiro da revolução astronômica”. Consulte a homepage:

http:// www.ronaldomourao.com