Foto da formação do ciclone tira por satélite.

São Paulo – Uma equipe formada por dez cientistas, sendo seis do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec), dois da Universidade de São Paulo (USP) e dois da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realiza a primeira reunião técnica, na 3ª feira (6), no CPTec, em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, interior paulista, para analisar o ciclone Catarina. A intenção é entender o que de fato aconteceu e, a partir das conclusões, espera-se encontrar soluções capazes de auxiliar em ações preventivas diante do risco de uma eventual repetição do fenômeno, que, segundo os especialistas, chegou a ser confundido com um furacão.

Em nota técnica, divulgada na 2ª feira passada (29/3), um dia após os estragos provocados na costa de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul, o CPTec informou que os Centros Metereológicos vinham monitorando a formação desse ciclone desde o último dia 24. O que levou alguns a acreditar que, pela primeira vez, o Brasil estaria às voltas com um furacão foi a mudança na rotação do vento, acompanhada pela formação de “um olho”, típico dos furacões.

A coordenadora geral do CPTec, Maria Assunção da Silva Dias, desfaz as dúvidas. Segundo ela, no começo o ciclone tinha o formato de uma vírgula de ponta cabeça, típico de um ciclone extratropical, em que os ventos ficam rodando em volta . “Em círculo fechado como se fosse um pião, formou-se bem junto a uma frente fria que estava no mar e que chegava até a Bahia indo em direção ao pólo”, explicou Assunção.

Continuando disse que o ciclone ficou numa situação estacionária e foi se alimentando com o vapor da água do mar, quando encontrou a barreira topográfica interposta pelas montanhas. Com a intensificação desse processo, “as nuvens fecharam um círculo com um olhinho no centro, mas isso não é suficiente para dizer que foi um furacão e para nós tratou-se de um fenômeno híbrido”.

Assunção observa que casos semelhantes já foram verificados em áreas do Mediterrâneo, na Austrália e também no Japão e, comparando com os demais registros, aponta que, no Brasil, foi menor a intensidade. Enquanto aqui os ventos foram acompanhados por 75 milímetros de chuva, no Mediterrâneo o índice pluviométrico alcançou entre 200 a 400 milímetros. Ela lembrou que, em fevereiro de 1999, rajadas de vento forte arrancou árvores de até um metro de diâmetro, fato comum nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. A novidade é que desta vez o ciclone veio do mar e com características mutáveis.

A especilista explica que o ciclone extratropical se forma longe do Equador e em geral acompanhado de uma frente fria. Se assemelha a um cilindro de vento, girando no sentido dos ponteiros do relógio tanto na superfície quanto nos altos níveis atmosféricos e dentro desse espaço o ar é mais frio do que a parte externa e a velocidade dos ventos oscilam entre 80 km/h e 90 km/h. Já o furacão se forma sobre as águas quentes da região equatorial e sempre busca águas quentes com temperaturas acima de 27 graus. A temperatura interna é mais alta do que a externa. Na superfície, os ventos giram num sentido, e nos altos níveis atmosféricos, num outro sentido. Além disso, em seu centro, há o olho, uma calmaria com diâmetro variando de 30 km a 50km .

Rebatendo as informações de que o fato foi subestimado, Assunção garantiu que “em nenhum momento nós minimizamos o que aconteceria na hora em que o ciclone entrasse no continente, mas isso de alguma forma se perdeu na mídia dando essa impressão”. Ela defendeu a necessidade de uma melhoria no sistema de comunicação. Quanto aos estragos, disse ser difícil evitar “que telhas saiam voando e que casas sejam derrubadas porque não se controla a natureza”. E o que conseguiu-se evitar, em sua opinião, foram danos maiores à população. O número de mortos e feridos poderia ter sido ainda maior caso houvesse uma evacuação em massa.

Normalmente, o alerta é dado à Defesa Civil local de forma simultânea tanto pelos centros regionais como pela Defesa Civil Nacional, além do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do próprio CPTec. No caso de Santa Catarina é o Climer e do Rio Grande do Sul, o 8º Distrito do Inmet. As previsões indicavam velocidades do vento em até 100 km/h para a 6ª feira (2), dois dias antes da devastação. Perdeu força no sábado e ao chegar a costa de Santa Catarina com média entre 60 a 70 km, próximo à Criciúma, desenvolveu, rapidamente, uma tempestade forte por causa da barreira formada pelas montanhas. Existia a previsão, mas não se sabia onde iria exatamente ocorrer. De acordo com Assunção, a estimativa era de que atingiria uma faixa de Florianópolis até Torres

O metereologista Gilvan Sampaio, do CPTec, acredita, que sem dúvida nenhuma, é necessário um aprimoramento de ações conjuntas envolvendo a Defesa Civil para enfrentar situações como essa. Ele frisou que os vários setores de observação se comunicam entre si sempre atentos às ocorrências, mas que a intensidade dos fenômenos ainda é uma dificuldade na previsão. No caso deste último, esclareceu, que era do conhecimento de todos que quando chegasse a costa e encontrasse topografia poderia causar estragos em uma área de aproximadamente 200 quilômetros.

Supercomputador

Para monitorar as variações meteorológicas e saber com antecedência de até dez dias como se comportará o tempo dentro de uma precisão de 70%, o CPTec tem um supercomputador, o Nec SX-6, de origem japonesa. O investimento de cerca de US$ 25 milhões, permite que os metereologistas interpretem as informações rastreadas em cerca de 400 sensores espalhados pelo país. Em maio próximo, mais oito máquinas serão acopladas a esse supercomputador, aumentando sua capacidade que passará de 256 gigaflop para 768 gigaflop.

Isto equivale dizer, explica o técnico, que o novo sistema poderá realizar 768 bilhões de cálculos por segundo. Instalado em um ambiente especialmente adaptado para sua operação, o equipamento é acompanhado 24 horas por dia. A sala onde esta instalado tem que ser mantida com umidade inferior a 80% e a temperatura na faixa de 15 a 32 graus. No CPTec são feitas as previsões numéricas e repassadas aos centros regionais pelo Inmet, que faz as análises.

Nas 400 estações metereológicas de superfície, existem equipamentos como termômetros, pluviômetros, para medir a temperatura, umidade, velocidade e direção do vento e a pressão. Enviadas via satélite, as informações chegam até uma central onde passam a ser retransmitidas via internet.

A captação dos dados também pode ocorrer por meio de balões metereológicos, que são soltos transportando equipamentos para medir temperatura, pressão do vento, umidade. A desvantagem é que se o balão ultrapassar os 20 km de altura ele estoura e a caixa com os instrumentos, denominada de radiosonda, cai e se perde. Operações dessa natureza ocorrem duas vezes por dia em 20 locais do país.

Outra opção, são as bóias colocadas no mar para se obter as informações tanto da temperatura atmosférica, umidade, ventos como temperatura da água e correntes marítimas, também enviadas por meio de satélites. No caso do Sul não havia nenhuma bóia marítima. “Isso fez uma falta enorme”, diz Assunção, explicando que o acompanhamento foi feito meio às cegas, tendo auxílio apenas os dados do satélite, que é uma medida indireta transmitida de três em três horas. Ela conta que na altura de Natal (RN), existem bóias, por força de um projeto tocado em parceria com França e Estados Unidos.

Hoje, informa a coordenadora do CPTec, o satélite norte-americano Goes é o mais utilizado. Ele capta imagens sobre o Brasil a cada três horas e o país depende desse espaço de tempo para atualizar os seus dados. “Não temos o controle sobre isso porque o satélite é americano. Se tivéssemos o equipamento que faz as imagens num satélite nacional isso permitiria que, em vez de ter imagens a cada três horas, tivéssemos imagens a cada três minutos”. (Participou o repórter Leonardo Stavale)