d41.jpgRecentemente tivemos uma grata notícia pela imprensa. Resultado de extensa pesquisa, tudo indica que brevemente teremos um medicamento à base do xaxim, que deverá solucionar um dos principais problemas respiratórios que é a asma. O que para muitos foi motivo de surpresa, nos remeteu a quase cem anos atrás, quando o ilustre e benemérito médico paranaense Dr. Jayme Reis, integrante da comissão organizadora da participação do Paraná na Exposição Nacional de 1908 no Rio de Janeiro, foi incumbido por seus pares de organizar a exposição de plantas medicinais da flora paranaense.

Premiado com medalha de ouro, a participação de Jayme no certame foi primorosa. Quem já teve a oportunidade de examinar o catálogo da participação paranaense, nas páginas 97 a 127, encontra uma verdadeira enciclopédia da nossa botânica medicinal, catalogando nada menos que 325 espécies de plantas mortas e 234 vivas, separadas por suas famílias, nome vulgar, científico, partes usadas na medicina e suas propriedades terapêuticas.

Na apresentação desse trabalho, Jayme esclarece que o Brasil ainda conhece bem pouco de suas forças naturais e, com muita propriedade esclarece que: ?… uma das suas grandes divisões, a botânica medicinal, jaz em relativa obscuridade, se um certo número de plantas é conhecido, foi estudado pelos competentes, se foram desvendadas as suas propriedades terapêuticas, uma enorme quantidade de outras é ainda empregada empiricamente pelo povo que a descobriu acidentalmente ou recebeu, de seu antecessores, a comunicação oral e prática de suas virtudes medicinais. A análise química, ao estudo dos terapeutas e dos clínicos é preciso ir pouco a pouco submetendo as preciosas espécies medicamentosas que as nossas florestas, as nossas campanhas e as nossas marinhas, com tanto carinho, contêm e conservam…?.

Sabia também ele da necessidade de se organizar uma terapêutica botânica essencialmente brasileira, sentia que uma expressiva quantidade de descobertas viria provar que o Brasil, devido à sua imensa área e a diversidade de seu clima, possuía um tesouro incalculável capaz não só de solucionar problemas da saúde, mas também influenciar na economia.

Afirmava que das diversas regiões brasileiras, uma das mais ricas botanicamente falando era a paranaense. Muito embora tivesse tido pouco tempo para organizar essa seção da exposição, seus conhecimentos e os de seu pai, o Dr. Trajano Reis, facilitaram sobremaneira a tarefa, possibilitando organizar a coleção que figurava no catálogo paranaense.

Entretanto um trecho de seu trabalho chama a atenção e sua reprodução é de extrema importância: ?Colocados entre as plantas, vivas e mortas, aqui expostas, os espécimes do xaxim, Diksonia sellowiana, Polypodiacea, podem causar estranheza, por que são mais ou menos ignoradas as suas propriedades terapêuticas, que acidentalmente viemos a conhecer, mas uma vista lançada mais adiante, na Seção de Artes Liberais, ao grupo 9.º, servirá de laço entre esses espécimes e um produto deles extraído, ?os filamentos do xaxim?, similar do ?Pengawar Djanbi?, poderoso hemostático, do qual já me ocupei em sessão da Sociedade de Medicina e Cirurgia desta Capital?.

E realmente, conforme consta na Revista da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (n.º 01janeiro de 1909), Jayme esteve presente na reunião de 28 de julho de 1908 daquela sociedade. Sua comunicação das propriedades terapêuticas do xaxim foram motivo de intensos debates, muitos dos presentes tinham receio de que pudesse advir uma infecção subseqüente ao emprego da substância. Mas Jayme foi bastante convincente, em defesa de sua tese, tinha como base o emprego dos filamentos do xaxim em cerca de 400 casos de sua clínica e na de seu pai, sem qualquer conseqüência adversa.

Nessa oportunidade Jayme também inovava distribuindo aos presentes ?amostras? dos filamentos do xaxim acondicionados em caixinhas. Essas amostras também foram distribuídas durante todo o período de realização da exposição.

Entretanto, é frustrante saber que há quase cem anos já se tinha conhecimento das propriedades terapêuticas do xaxim, propriedades que somente agora chegam ao seu aproveitamento. Logicamente que isso poderia ser diferente, não fosse o lamentável e prematuro desaparecimento de Jayme Reis em 1912, encerrando não só uma brilhante carreira, mas também nos privando de seu preciosos conhecimentos.

Carlos Alberto Brantes é associado do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.