Stephen Hawking comentou, em On the Shoulders of giants (Sobre ombros de gigantes), que duas teorias físicas, classificadas de pseudo-ciências pela Inquisição e pelo regime nazista, causaram perseguições: o heliocentrismo de Galileo e a relatividade de Einstein.

As grandes confusões parecem envolver físicos, até hoje em dia, como no caso da proliferação de artefatos nucleares pelo mundo afora. O povo judeu sempre esteve muito ligado a tudo isso. Até acho que o sobrenome Galileo vem da Galiléia, em Israel. O casal de físicos drs. Rosemberg foi assassinado nos Estados Unidos, sob a acusação de vender à União Soviética os segredos atômicos americanos, um absurdo, já que os físicos soviéticos sempre foram muitíssimo competentes.

Simon Wiesenthal, o caçador de nazistas, em seu livro sobre a história do martiriologio judaico ao longo dos tempos (Editions Robert Laffont, Paris,1986) afirma que os judeus procuraram se destacar nas ciências e nas artes para equalizarem-se com as elites. Apesar de que o número de judeus ganhadores do Nobel é exageradamente superior à sua ínfima parcela demográfica mundial, eu tenho outra explicação, muito mais simples: os judeus foram educados a gostar de livros, tanto que são o povo do ?Livro?.

Até hoje, Galileo (nem os Rosembergs pelo governo dos Estados Unidos, por causa distinta) não foi totalmente absolvido pelo Vaticano, por sua heresia em afirmar que a Terra gira em torno do Sol; que a Terra não é o centro do Universo; que o Sol não é um planeta.

Durante os primórdios da civilização, havia o consenso entre alguns de que o Universo tinha de ser entendido, mas através de mecanismos matemáticos descritivos, independentemente de se ater a teorias físicas aceitáveis. Por exemplo, haveria um princípio de causalidade: tem de haver um ?motor? para que os planetas se movam. Esse motor poderia ser originado do trabalho consciencioso de anjos. – Isso é teoria científica??? Através de certa matemática, o movimento conhecido dos planetas em torno da Terra podia ser explicado, por exemplo, pelo modelo complicado de Ptolomeu. A matemática utilizada era meramente descritiva, nunca refletindo uma teoria ?física?, i.e., realística.

Um grande número de astrônomos, entretanto, percebeu que a melhor explicação seria o modelo heliocêntrico (o Sol, no centro; os planetas, girando em torno do centro). No século XVII d.C., Johannes Kepler, seguido por Copérnico, Galileo e Newton, trabalham com ferramentas matemáticas que descrevem, finalmente, teorias sobre o sistema solar, claramente heliocêntrico. A matemática, aqui, é usada dentro de uma teoria física. Não é algo tirado do ?colete?. Esta teoria física, a Mecânica, é colocada para funcionar em outros casos, como por exemplo, para explicar movimento dos corpos aqui na Terra.

A grande virada é que esses físicos testam a teoria aplicável ao sistema solar, para ver se ela serve na explicação de outros fenômenos – ou então, seria descartada. Coincidentemente, utilizando uma teoria realística, o modelo heliocêntrico revela-se mais simples que o de Ptolomeu e explica observações astronômicas de forma mais correta que o deste último. Newton conclui que a matéria atrai a matéria com o inverso do quadrado da distância relativa.

Tanto a Igreja Católica quanto os protestantes se sentem ameaçados. Começa uma perseguição contra os defensores do heliocentrismo. Copérnico evita a publicação de seus resultados. Giordano Bruno é queimado vivo. Galileo é julgado pelo Santo Ofício, o tribunal do Vaticano. É condenado.

Recentemente, pressionado pela vergonha de muitos cientistas católicos, o papa João Paulo II nomeia uma comissão para rever o auto de condenação de Galileo. Em 1980, sai o final infeliz: Galileo disse a verdade, a Terra de fato gira em torno do Sol, porém Galileo não possuiria, pelos dados observacionais da sua época, razão para concluir que o planeta de fato girava em torno do astro. Teria sido um chute, daí a razão verdadeira, atualmente, para manter a condenação de Galileo.

Para muitos, este desfecho reabilitou Galileo. Aos olhos doutros tantos, porém, um colega nosso ainda está necessitando dum advogado competente, para, através de uma ação rescisória, levantar, post-mortem, a condenção injusta.

Marcelo Samuel Berman, cientista, cosmólogo. Membro da Academia de Ciências de Nova York, autor de mais de oitenta artigos de pesquisa de ponta, publicados em revistas especializadas do Japão, Europa, e Estados Unidos. Autor de livros publicados por editoras dos Estados Unidos (McGraw-Hill e NovaScience).
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