Elas ajudam na reconstituição de tecidos e podem combater graves problemas de saúde como doenças cardíacas e degenerativas, o câncer e até mesmo a calvície. Muito se fala sobre o poder das células-tronco e, mais do que nunca, elas são um dos temas principais dos noticiários sobre saúde e ciência e tecnologia internacionais. Com todas as expectativas, terapia celular e novas tecnologias sobre células-tronco geram polêmica, pela questão da saúde e também por aspectos políticos, religiosos e culturais. O Ministério da Saúde entende que o assunto ainda precisa ser bastante estudado.

Ao mesmo tempo, o governo federal acredita na importância de estimular pesquisas com células-tronco, pelos benefícios que elas podem trazer à saúde da população. O Ministério da Saúde apóia instituições do Brasil dedicadas a essas pesquisas e vem discutindo com a sociedade a possibilidade de incorporar as tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS). Ainda este ano o ministério deve lançar um edital para receber projetos de pesquisa de terapia celular.

Células-tronco são as que ainda não possuem características que as diferenciem, como, por exemplo, as células do tecido epitelial (pele) ou ósseas. Pesquisas já demonstraram que elas podem recompor tecidos danificados. Os cientistas acreditam que as células-tronco ajudariam a tratar várias doenças, como o mal de Parkinson, o câncer e problemas cardíacos sérios.

Existem dois tipos de células-tronco: as extraídas de tecidos maduros de adultos e crianças e as retiradas de embriões. Células extraídas de tecidos maduros, como a medula óssea, são mais especializadas e dão origem apenas a alguns tecidos do corpo.

As células-tronco embrionárias demonstram ainda mais eficácia para formar qualquer tecido do corpo. O problema é que, para extraí-las, o embrião é destruído. Nesse ponto, cientistas entram em conflito com grupos como os religiosos, embora aleguem que seriam usados apenas embriões descartados por clínicas, que dificilmente provocariam uma gravidez. No Brasil a Lei 8.974/95, a Lei de Biossegurança, proíbe “a produção, armazenamento ou manipulação de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível”.

Viabilidade

Reinaldo Guimarães, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit), do Ministério da Saúde, acredita na viabilidade de incorporar os tratamentos com células-tronco ao SUS, desde que haja ampla pesquisa e discussão. “Em nenhum país do mundo as terapias com células-tronco são rotineiras. Essas atividades acontecem em terreno experimental”, afirma Reinaldo. “Muitos procedimentos ainda são realizados com animais e não com seres humanos”, informa.

No Brasil o Ministério da Saúde, por meio do Decit, pretende apoiar a pesquisa das novas tecnologias, principalmente aquelas voltadas para o tratamento de doenças do coração, onde há maiores evidências de sucesso. “Os resultados são fantásticos na recuperação e na qualidade de vida do paciente”, elogia Reinaldo Guimarães.

O governo reuniu alguns dos maiores especialistas do País em cardiologia para discutir ações de implementação da terapia celular na recuperação de pacientes do SUS. O encontro aconteceu no final de março, no Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. “Queríamos ouvir dos especialistas qual é a distância entre o nível experimental e a prática rotineira da terapia celular”, conta o diretor do Decit.

Uma das principais conclusões do encontro é a de que não pode haver incorporação indiscriminada da terapia celular ao SUS. “Precisamos de uma fase de experiência por tempo indeterminado”, pede o diretor do Decit. Reinaldo justifica a cautela e cita dois recentes artigos publicados na revista de ciências britânica Nature, que colocam algumas dúvidas sobre o funcionamento das tecnologias com as células-tronco. “Uma das questões que chama atenção é a de que, com a terapia celular, o paciente melhora, mas não se sabe nitidamente como acontece essa melhora; se a célula-tronco realmente conseguiu se transformar em músculo cardíaco ou se a melhora se dá por outros mecanismos, como, por exemplo, o estímulo à formação de novos vasos sangüíneos”, fala Reinaldo. “Entre outras essa pergunta precisa ser respondida antes de implementarmos a terapia na rede de saúde pública”, conclui.

Após o encontro, o Ministério da Saúde criou quatro grupos que irão elaborar o termo de referência para a pesquisa com células-tronco. Eles vão preparar o termo para terapias que tratem do infarto agudo do miocárdio, complicações crônicas em infartados, pacientes com doença de Chagas e os de cardiopatias dilatadas. “A partir daí, esperamos um grande esforço nacional para pesquisas nas áreas de laboratório e clínica”, anuncia. O resultado dos termos se tornará público por meio de um edital, ainda em 2004.

Existem cerca de 50 pacientes recebendo o tratamento de terapia celular no País. Um dos objetivos do Ministério da Saúde em estimular a pesquisa é também o de aumentar os pacientes beneficiados. No Brasil permitem-se experiências de terapia celular em animais e seres humanos. Para que humanos possam se submeter ao tratamento é necessária a autorização da Comissão Nacional de Ética na Pesquisa (Conep), ligada ao Conselho Nacional de Saúde.