Esta é célebre imagem da antiga Missão Cruls.

Em 11 de novembro de 2003, 111 anos mais tarde, nove pesquisadores iniciaram uma expedição que vai refazer o caminho da missão que produziu um dos documentos ecológicos mais importantes da nossa história.

A atual Missão Cruls é uma expedição que não tem o caráter exclusivamente científico como foi a original. Durante 15 dias, um historiador, um astrônomo, um geógrafo, um botânico, um zoólogo, um médico, um fotógrafo, um cinegrafista, um arquivista e mais o pessoal de apoio vão percorrer 14 cidades, do Rio de Janeiro a Brasília, para realizar palestras e exposições sobre o que foi a expedição que mostrou ao Brasil as riquezas botânicas, zoológicas, hidrográficas, astronômicas e humanas do Planalto Central.

Comissão Exploradora do Planalto Central

Em 12 de maio de 1892, por ocasião de abertura da segunda sessão ordinária da primeira legislatura, o Marechal Floriano Peixoto (1839-1895) considerou inadiável a mudança da capital da União. Com o objetivo de tornar realidade a determinação presidencial, uma resolução do Congresso Nacional consignou, na Lei de Orçamento em vigor, os recursos necessários à exploração da região da futura capital. Em conseqüência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936), escolheu para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que na época era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional.

Para constituir a Comissão Exploradora, Cruls escolheu entre os servidores do Observatório Astronômico e os engenheiros militares, em geral, seus ex-alunos na Escola Superior de Guerra.

Além de dois astrônomos do Observatório, Henrique Morize (1860-1930) e Julião de Oliveira Lacaille (1851-1926), incluiu também os especialistas: o médico higienista Antônio Martins de Azevedo Pimentel, o geólogo Eugênio Hussak e o botânico Ernesto Ule. Para a manutenção dos equipamentos científicos foram escolhidos dois mecânicos do Observatório: Eduardo Chartier e Francisco Souto.

Entre seus ex-alunos na Escola Superior de Guerra, os engenheiros Augusto Tasso Fragoso (1869-1945), Celestino Alves Bastos, Hastímphilo de Moura, Alípio Gama (1863-1935) e Antônio Cavalcanti de Albuquerque. A comissão incluía também o médico Pedro Gouveia e o farmacêutico Alfredo José Abrantes.

Para se ter uma idéia dessa missão convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos, tais como dois círculos meridianos, teodolitos, sextantes, micrômetro de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópios, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneróides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação, a comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

A partida da Comissão ocorreu no dia 9 de junho do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxílio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos em reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga mas na orientação das trilhas a serem percorridas.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento que consistia em servir-se do podômetro, da bússola e do aneróide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais foi usado para determinar a distância percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72 metro Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneróides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxílio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1.º de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre-d?Armas, chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudesse servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares, quer pela passagem de Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura, quer por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenopólis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual torma-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seria, seguindo o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – além de exigir um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, iria obrigar, mais tarde, uma segunda demarcação, definitiva e absoluta por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – além de preencher melhor a proposta, tinha a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que poderiam surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e torna possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferóide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.

Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano, de modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição. Em conseqüência dessa decisão, a comissão reunida em Formosa resolveu dividir-se em quatro grupos, destinados a determinar a posição geográfica de cada um dos vértices do quadrilátero.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo e pesquisador titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, do qual foi o criador e primeiro diretor. Autor de 70 livros, dentre eles o Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica.

Estudo da nova capital da União

O sucesso da Comissão Exploradora do Planalto Central fez com que em 1.º de junho de 1894, o general de brigada Bibiano Sérgio Macedo da Fontoura Costallat (1845-1904; ministro de 24 de abril de 1894 a 15 de novembro de 1894), ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, em nome do vice-presidente da República, resolvesse aprovar os trabalhos da Comissão de Estudo da Nova Capital da União para a qual foi designado Luiz Cruls.

Com base na planta da região já delimitada pela Comissão Exploradora do Planalto Central e nos conhecimentos acumulados durante esta missão, a finalidade desta nova comissão foi a de empreender os estudos necessários para fixar o local destinado a nova capital. Nesta tarefa, Luiz Cruls deveria orientar-se dentre dos seguintes parâmetros: determinar a salubridade do clima; a qualidade das águas, sua abundância e a facilidade para o abastecimento da futura capital e, finalmente, estudar a topografia, assim como a natureza do terreno, considerando-se as condições existentes, tendo em vista a necessidade de edificações e comunicações urbanas que permitissem o desenvolvimento de uma grande metrópole. Uma vez concluída e escolha definitiva do local, deveria a Comissão organizar uma estação, destinada à observação diária, regular e ininterrupta das condições meteorológicas, de modo que fosse possível estabelecer um conhecimento completo dos fatores climatológicos da região escolhida.

Previa também um rigoroso levantamento de uma superfície demarcada, uma triangulação da área de 14.400 quilômetros quadrados, assim como a determinação de coordenadas astronômicas.

Para que a nova capital estivesse ligada às demais cidades do país, deveria a comissão estabelecer o reconhecimento das ligações por vias férreas e mistas (ferro-fluviais). Além de estudar o estabelecimento de um ramal de estrada de ferro a partir de Catalão, a comissão deveria analisar as ligações com os rios Araguaia e São Francisco e estudar o traçado de uma estrada de ferro mais direta entre a futura capital e a atual, se possível aproveitando as estradas já existentes. (RM)