Em Paris é fácil perder a cabeça, que o diga Maria Antonieta. São tantos os lugares a visitar, tanta história na frente aos nossos olhos que o tempo que passamos percorrendo a cidade jamais será suficiente para conhecê-la realmente.

Passei um mês percorrendo-a e já tive, no meu retorno, esses típicos comentários: “mas como você não conheceu tal lugar? É imperdível!”. O único consolo é ouvir dos próprios parisienses, sempre ufanos e de narizinho empinado, que nem eles mesmos conhecem tudo sobre ela.

Por isto aqui vai a primeira dica para afastar o estresse nesta viagem: priorize suas visitas, não pelo que os outros dizem e sim procurando satisfazer seus próprios interesses. E dedique a isso todo o tempo que for preciso.

Paris é hoje, sobretudo, turística – aliás, a França não perde o título de país que mais recebe turistas no mundo há anos – e é bom investigar o que a capital tem a nos oferecer em descontos, passes, horários de visita e tudo aquilo que nos ajudará a aproveitar melhor nossa viagem.

Um exemplo? Descobri que jornalistas e professores não pagam ingresso em vários dos museus importantes, basta mostrar a credencial e dizer as palavras mágicas: bonjour e merci, bom dia e obrigado, respectivamente.

É incrível como estes detalhes, como cumprimentar e agradecer com energia sempre a quem temos na nossa frente, seja garçom ou policial, porteiro ou vendedor, funcionam para quebrar essa suposta frieza e empáfia dos parisienses.

Eles sempre tiveram esta fama de desagradáveis e mau-humorados. Isto começou a afetar tanto o negócio do turismo que o governo francês fez uma gigantesca campanha, que se chamou justamente Bonjour, para mostrar que as caras feias e as palavras ríspidas estavam afugentando a clientela.

A idéia era simples e clara: “gente, saúdem o turista, nossa cidade vive, em grande parte, deles”. Hoje, embora ainda existam espécimes insuportável e visceralmente desagradáveis, estão nos atendendo muitíssimo melhor. Até sorriem para nós!

Capital francesa enfeita-se para receber 2009

A cidade já está vestidinha para celebrar o Natal e Ano Novo. No final do ano passado se inaugurou a moderníssima iluminação da Avenida Champs Elisée, que agora gasta 60% menos de energia que a decoração antiga. As árvores parecem chorar lágrimas azuis e com a chuva ficam refletidas na larga avenida.

E se hoje esta tradicional e histórica via parisiense ferve de gente, não queira imaginar o que ocorre na noite de 31 de dezembro. É tradição por aqui cair nesta avenida, que deve receber este ano, no mínimo, um milhão de pessoas, a grande maioria com pelo menos uma garrafa de espumante na mão. E haverá outros milhares rondando o Trocadero, a Torre Eiffel, o Campo de Marte e todo lugar conhecido da cidade.

A Torre Eiffel também está com nova iluminação. Uma grinalda cobre a torre dos pés à cabeça parecendo uma gigantesca árvore de natal e, de hora em hora, dá a sensação de que milhares de flashes fotográficos se disparam aleatória e acidentalmente por todos seus lados.

Um efeito novo, belo e emocionante para este antigo símbolo parisiense, que continua fascinando os visitantes, mais ainda nestas datas. No inverno, as noites de Paris são mais longas, portanto, mais uma razão para continuar a festa.

Quando visitá-la? Sempre!

Até as escadarias da Sacré-Coeur são palco de shows na cidade.

Não há uma época melhor ou pior para visitar Paris. Agora, se você for em baixa estação, não encontrará o aglomerado de pessoas comum nos me,ses de junho e julho. Além disso, fugirá do calor senegalês que costuma castigar a França no verão. No inverno europeu, dezembro é o mês em que mais gente visita a cidade.

Tem algo de incrivelmente romântico estar em Paris no Natal e no Ano Novo, embora o mar de gente na charmosa Champs Elisée ou aos pés da Torre Eiffel nessas datas seja de gerar medo.

Por isto, se sofre de pânico ao tumulto, reserve seu lugar num bom restaurante que tenha vista para os símbolos parisienses e saboreie uma boa comida, regada a vinho ou espumante. Nacionais, evidentemente.

Para quem gosta de caminhar, Paris é uma festa, como bem escreveu Ernest Hemingway. É a cidade perfeita para calçar tênis e sair por aí. Ou quase. Só tem um problema: muitas pessoas não estão nem aí com as “bombas” que seus cachorros vão soltando pelos quatro pontos cardinais.

Tendo esse cuidado de estar sempre de olho por onde se caminha, com tempo se chega praticamente a todos os pontos turísticos a pé. Por exemplo, ao visitar o Trocadero, se tem uma excelente vista das suas fontes, a imponência da Torre Eiffel ao fundo, o Rio Sena e, de quebra, todo o parque Campo de Marte.

Descendo, se cruza a Ponte Iena e, em poucos minutos, se está embaixo da torre. Arme-se de muita paciência se quer subir num dos seus três mirantes e, antes de fazer a fila, pense muito bem que setor quer ver do alto.

Nosso conselho: o mirante norte e o sul são os mais visitados. Desde ambos se vê essa Paris pelo qual pulsa nosso coração, podendo avistar o Louvre, Place Vendôme, Tulleries, Notre Dame, Sacré-Coeur, Arco do Triunfo e, claro, a suave curva que faz o Sena em direção da Ile de La Cite.

Seguindo o caminho pelo Campo de Marte se chega em poucos minutos ao Hotel dês Invalides, onde está o túmulo do mesmíssimo Napoleão Bonaparte, dentro da igreja do Domo.

Num cantinho se pode ver o famoso chapéu que usava “em batalha”, ou seja, de ombro a ombro e não em coluna, para se diferenciar de seus oficiais. Também está seu casaco militar, pelo qual se percebe que era um pequeno grande-homem.

Se o túmulo é importante de conhecer, mais ainda será percorrer o Museu das Armas, que está no mesmo conjunto. Aqui não há somente pistolas, sabres ou canhões, este museu mostra essa capacidade de criação doentia que os homens têm quando querem se eliminar entre si.

O acervo é surpreendente. Embora a Segunda Grande Guerra tenha sido estado distante de nós, o pavilhão dedicado a ela emociona qualquer pessoa sensível. O uso de tecnologia moderna, onde se misturam projeções de vídeo, som, decoração, efeitos especiais e os objetos em amostra, criam um ambiente marcante e inesquecível.

Louvre com direito a repeteco

O Louvre, para quem admira a arte nas mais diversas formas, será passeio de dia completo – e não verá tudo.

Outro grande desafio para quem caminha é visitar o Museu do Louvre. Não basta ter pernas fortes, tem que agregar uma boa bússola mental. Se quiser entrar só para se fotografar diante da Gioconda, a Vênus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, pegue mapa numa mão, máquina fotográfica na outra e boa sorte.

Dica importante: na grande maioria dos museus é permitido fotografar, só pedem para não usar o flash. Pena que poucos respeitam isto, que não é frescura. Os golpes de luz estragam o delicado pigmento usado nos quadros clássicos, às vezes com centenas de anos.

Quem achar que isto é mito, ponha um quadro ou mesmo uma foto ao sol, por tempo prolongado. Impossível que não percam suas características originais. O Louvre, para quem admira a criação do homem, será passeio de dia completo. E não verá tudo.

Difícil é não ficar absorto frente a um quadro de Rafael, esboços de Da Vinci feitos a carvão sobre papel, esculturas gregas, dezenas de jóias egípcias, sarcófagos, peças etruscas, assírias, romanas, enfim, milhares de objetos únicos de altíssimo valor histórico, expostos em dez,enas de salas, salões e pátios, admiradas em uma romaria quase interminável. Uma boa dica: às quartas e sextas, o Louvre fecha às 21h45; no resto dos dias, às 18h. Aproveite!

E falando em aproveitar, não deixe de visitar o Museu Petit Palais. A entrada é franca mas isto não significa que não tenha coisas interessantes em seu interior. Ao contrário, obras de Manet, Rembrandt, Renoir, além de arte sacra e peças romanas, esculturas e outras formas de arte são exibidas aqui.

Outro museu imperdível é o d’Orsay, que pode ser de menor tamanho, mas seu acervo é assombroso. Está instalado numa antiga estação de trem na orla do Sena, onde se pode admirar Degas, Manet, Monet, Renoir, as mais belas obras de Gauguin, inclusive esculturas feitas por ele, enfim, um banho de imersão no impressionismo. Há esculturas, exposição de fotografias e amostra de pintores modernos, portanto, reserve pelo menos uma tarde completa para este esplêndido museu.

Algumas dicas para enfrentar um euro nas alturas

Se acotovelar para tirar uma foto da Monalisa faz parte do programa no museu mais famoso de Paris.

Como o euro está tão alto como a própria Torre Eiffel, é bom tirar proveito das opções que são brindadas ao viajante. O metrô é a melhor e mais rápida forma de se locomover em Paris.

O tíquete individual custa 3,20 euros, por isso, o mais conveniente é comprar o passe Carte Orange. Tem de uma semana até meses, viajando as vezes que precisar, por só 16,30 euros.

Uma pechincha! Só é preciso levar uma foto 3×4 até o guichê do metrô e solicitar o passe que mais aprouver. Dica importante é que este passe serve para semana corrida, ou seja, de segunda a domingo.

Outro passe conveniente é o Paris Visite, um tíquete de metrô com diferentes períodos de validade, que inclui também outros meios de transporte como ônibus, trem SNCF e RER.

Este último serve para visitar Versailles e Saint-Germain-en-Laye, onde está o museu de Arqueologia Nacional, lugar que pouco turista conhece, mas que merece, de todas as maneiras, uma visita.

Tem que se ter muito cuidado com a questão do transporte. Se bem que se pode tomar o metrô com um bilhete Zona 1-3 e logo subir a um RER para ir, por exemplo, a Versailles e chegar sem problema.

Saiba que, se você não tem o bilhete Zona 1-5 vai ter, sim, problemas sérios. São 70 euros de multa se o inspetor descobre seu erro. E não tem explicação nem choro que o libere do vexame.

A multa será de rigor napoleônico. Se informe bem. Outro passe que é imprescindível obter se quiser visitar museus e monumentos importantes é o Paris Museum Pass. Há para dois, quatro e seis dias, a 30, 40 e 60 euros, respectivamente.

Se já decidiu que vai visitar Louvre, Arco do Trunfo, d’Orsay, Versailles, Museu das Armas e Túmulo de Napoleão, saiba que gastará mais de 50 euros se o fizer de um em um.

Por isto, compre o passe sem duvidar um segundo. Só para sua informação, os ingressos a museus e monumentos não custam menos que 12 euros e com este passe pode entrar a 60 deles. Não está incluída a Torre Eiffel, que está em mãos privadas. Todos os museus da França são gratuitos para menores de 18 anos.

Descubra seus paraísos pessoais

Fotos: Jaime Bórquez
Para quem gosta de caminhar, Paris é uma festa, como dizia Hemingway.

Lugares para conhecer há tantos que dá até desespero mas, como disse no início da matéria, tem que priorizar seus próprios interesses e não o que poderiam ser as regras do turismo convencional. Ponho meu próprio exemplo. Tenho verdadeira paixão por antiguidades, bugigangas e sucatas de outras décadas.

Por isto descobrir o Marche aux Puces de Saint-Ouen/Port de Clignancourt foi uma viagem ao paraíso pessoal., É impossível descrever tudo o que se vê nesta feira, que abrange vinte quarteirões da periferia parisiense. São ruas, ruelas, becos, cantos e calçadas cheias de tudo o que um dia foi objeto querido ou peça de algo ou de alguém.

Como não podia deixar de ser, parte desta feira está ocupada por produtos de marcas famosas, como Luis Vuitton, Armani, Nike, Rolex, Gucci, Pólo, Zara – todos tão legítimos quanto uma nota de sete euros. Mas são perfeitos para aqueles que desejam mostrar que sua viagem a Paris foi, principalmente, para comprar estas marcas famosas nas galerias Lafayette ou nas lojas finíssimas da Champs Elisée.

Quem vai duvidar da sua palavra? Esta feira está aberta de sábado a segunda, das 10h às 18h. Estas feiras e mercados ganharam o apelido de aux puces, ou das pulgas, porque tiveram início vendendo roupas usadas as quais tinham, quase sempre, estas e outras habitantes parasitas em suas telas e tecidos.

Capital é o berço da culinária. Bon apetit!

Na Champs Elisée, as árvores parecem chorar lágrimas azuis.

Mas não só de arte vive o homem, tem também que alimentar seu corpo, caso contrário, de onde sairão as energias para estas longas caminhadas? Estamos em um dos mais famosos berços da arte culinária, terra da sopa de cebola, dos escargots, das trufas (aaaahh, as trufas!!!!), dos champignons e, claro, dos deliciosos crepes.

Podemos comer bem e a bom preço nos bulevares que há do lado esquerdo de Notre Dame, ou ir a La Petite Chaise, restaurante fundado em 1680, durante o reinado de Luis XIV, a saborear um menu sofisticado e caro. Digam o que quiserem, a França tem nomes de fazer água na boca.

Paul Bocouse, Alain Ducasse, Olivier Roellinge, Pierre Gagnaire, enfim, tantos que aquele comentário que aqui em Paris vai comer mal porque não há rodízio ou feijoada é inveja pura.

Uma vodca pela Praça Madeleine, vendo aqueles locais onde se vende caviar, trufas e outras “épiceries”, como Fauchon ou Hediard, pode aclarar qualquer dúvida que você tenha ao respeito da fama que têm os franceses em matéria de produtos para a boa mesa.

Um dado para os amantes do vinho: visitem o L’Ecluse, um verdadeiro bar a vin, com o melhor que se produz em Bordeaux. Saúde! (15, rue de la Madeleine -site www.leclusebaravin.com).

Paris é uma festa sem fim

O espaço fica pequeno para escrever sobre Paris, tem tanto para comentar e indicar, como os bistrôs de Montparnasse, os shows ao vivo que se dão nas escadarias da Igreja Sacré-Coeur, os tours inspirados no filme O Código Da Vinci, as nostalgias do Quartier Latin, os belos e simétricos jardins de Luxemburgo ou os pornô-locais de Pigalle.

Paris é uma festa, como bem disse Hemingway, que era um renomado e inveterado festeiro. Paris é uma festa para os sentidos, todos eles. Basta um passeio de Bateau Mouche para ver as maravilhas da cidade, escutando música típica, essa de gaita de fole, sentindo o cheiro característico do Sena, saboreando um beaujolais ou tocando as paredes de pedra cheias de história da Point Neuf ou as do cárcere onde Maria Antonieta passou seus últimos dias, na Concergerie.

Paris é uma festa que não acaba nunca, uma cidade de eterna luz, com todos seus mitos, lendas e cruas realidades e na qual Edit Piaf ou Maurice Chevalier continuam cantando, cada dia melhor…