A partir da Pedra Bonita, avista-se o ?rosto? da Gávea.

Poucas vezes na minha vida de repórter pensei em desistir no meio de uma matéria. Uma dessas aconteceu agora, em janeiro, na minha subida ao topo da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. A aventura me deixou na expectativa antes de viajar. Você não sabe se vai chover no Rio, pois se isso ocorrer, perde a viagem. Cheguei ao Rio no sábado, dia 14. Sol forte. Céu azul. Achei que estava tudo bem. O combinado com o guia que iria me levar até o topo da Gávea era iniciar a caminhada no máximo às seis da manhã. Mais tarde, o calor aumenta.

Acordei às 5h30. A Eneida, minha guia no Rio, veio avisar: ?Hoje não dá, um balão provocou incêndio na Pedra da Gávea. O alpinista que vai nos levar lá desaconselhou a subida. Segundo ele, é perigoso porque o fogo pode tomar várias direções com o vento?. Ansioso, tive de esperar o dia seguinte. Dois amigos de Apucarana que foram comigo desistiram da subida. Sobraram eu e a guia Eneida. Saímos às 6h, fomos de ônibus até o pé da Pedra Bonita, onde há uma rampa de asa-delta. O guia Joãozinho nos esperava.

Cumprimentamo-nos e ele nos explicou que levaríamos cerca de quatro horas para chegar ao topo da Gávea. Pediu-nos calma e ânimo. ?Não é tão difícil, não. Só não pode dar mole, desistir, tem de ter vontade, que chega lá?, aconselhou.

Começamos a descer a Pedra Bonita, que fica à frente da Gávea. No começo, tudo bem. Joãozinho explica detalhes da floresta, mostra árvores que plantou. Fala dos macacos-pregos, dos pés de jaca que se espalham pela Mata Atlântica. ?Cuidado com os espinhos dos arranha-gatos?, alerta ele.

Andamos, andamos… Uma hora de caminhada e pergunto se já estávamos na Gávea. Joãozinho diz que não. ?Mas é logo ali?, ameniza ele. Mais meia hora de trilha e chegamos ao ?pé? da Gávea. Uma subida leve que vai se inclinando. Aí, me dei conta de que a água havia acabado.

De acordo com Joãozinho, não se pode levar muitas vasilhas por causa do peso. Paramos perto de uma rocha úmida. Ele tirou um canivete do bolso e começou a cutucar uma fenda. A água pingou. O guia improvisou uma bica com uma folha e, a conta-gotas, encheu a garrafa.

Escalada é difícil e a descida, nem todo santo ajuda, porém, muitos se propõem à aventura.

?Essa água é limpa, pode ter algum ratinho que passa por aí, algum bichinho, mas isso é da natureza, pode beber?, garante Joãozinho. Seguimos em frente e deparamos com uma íngreme subida, cheia de buracos. Parei, tirei a camisa e espremi. A boca estava seca. Pensei em desistir, mas me animei com o incentivo do guia.

A subida se tornava cada vez mais difícil. Passamos por uma clareira. Quem sobe à pedra pára ali para descansar. Estamos sem água de novo. Não, Joãozinho tem um pouco na garrafa. Eu a pego e viro tudo, ele me repreende: ?Nada de golão, meu. É só pra molhar a boca!?.

Seguimos rumo à Carrasqueira, um dos pontos mais difíceis da aventura. A subida pelo trecho de vinte metros é de rapel. Joãozinho prepara o equipamento, prende o cinto em mim, checa. Lá vou eu. No meio, vejo os minúsculos prédios da Barra da Tijuca. Frio na barriga. A perna treme. ?Confie na corda, sem olhar pra baixo, vamos!?, ordena o guia.

Vencemos a Carrasqueira, passamos pela ?geladeira?, onde tem uma mina. Não podemos matar a sede porque a água estava cheia de fuligem do incêndio do dia anterior. Deu pra molhar a cabeça e lavar as mãos. Em frente, mais uma subida de areia solta. Eneida escorrega e cai. O primeiro dos três tombos. Nada grave. Só susto.

Chegamos à ?mesa?, topo da montanha. É fascinante. Lagartixas fogem assustadas. Mais dez metros de rapel e descemos no ouvido do ?gigante?. Voltamos e fomos curtir a montanha. Subi numa pedra solta, o local mais alto. Dali até lá embaixo são 842 metros. Estava exausto, mas feliz por cumprir meu objetivo. Até o topo foram 4h20 de caminhada. Ficamos lá por duas horas curtindo a bela vista do Rio de Janeiro.

Na Pedra da Gávea não vale a máxima de que ?para descer todo santo ajuda?. Joãozinho diz que vamos voltar por uma trilha desativada e passar pela ?chaminé? para cortar caminho. O atalho é pesado. A tal da ?chaminé? é uma descida quase vertical, escura e cheia de pedras soltas.

Vista de longe, nem se imagina os mistérios que rondam a montanha.

Depois de três horas com a boca seca, mãos ardendo e dor de cabeça em função do sol, chegamos ao ponto de partida. Que alívio! Tomei cinco cocos gelados na barraquinha que atende os praticantes de vôo livre.

No caminho da Gávea, me encantei com o canto dos pássaros. Só vi uma cobra, mas é preciso cuidado com as jararacas escondidas nas folhas secas. Coral (verdadeira), caninana e jararacuçu bico-de-jaca também são comuns.

Angico vermelho, açoita-cavalo, baguaçu, cabreúna, cedro, imbuía, ingá-feijão, canafístula são algumas espécies da Mata Atlântica que vimos durante a subida. Canto de pássaro, então! É difícil saber de onde vem. Parece um festival.

Não sei se retorno à Pedra da Gávea. A subida é muito difícil, mas vale a pena. Quem quiser se aventurar fale com o Joãozinho. Excelente guia. Além de alpinista, conhece a floresta como ninguém.

Seria a Gávea um túmulo fenício?

Mistério não falta à Pedra da Gávea. Localizada entre os bairros Barra da Tijuca e São Conrado, é conhecida como a lendária montanha com a face de um gigante desconhecido que encanta as pessoas que a vêem, mesmo que de longe. Seu nome Gávea vem da época do descobrimento. Quando os portugueses chegaram ao Brasil notaram que a pedra era um observatório perfeito das caravelas que chegavam.

A face da pedra se assemelha a uma figura esculpida com inscrições antigas em seus lados. Sua origem é objeto de discussão há anos, mas não há concordância entre os estudiosos de quem as fez, e por quê? Uma teoria bastante difundida é de que a Pedra da Gávea seria a tumba de um rei fenício.

Diversos especialistas em arqueologia emitiram opinião sobre os caracteres da Pedra da Gávea. Em 1963, o arqueólogo e professor Bernardo Silva Ramos traduziu-os como: ?Tiro, Fenícia, Badezir Primogênito de Jethbaal?. As inscrições estão na face direita da esfinge.

Hoje, já se sabe que em 856 a. C., Badezir tomou o lugar de seu pai no trono real de Tiro (capital da antiga Fenícia). Será a Pedra da Gávea o túmulo deste rei? O mistério permanece e desafia os estudiosos. (Donizete Oliveira)

Joãozinho, o guia que nasceu na mata

Rosto atribuído à escultura fenícia: lenda persiste.

A maneira mais fácil de escalar a Pedra da Gávea é se hospedar no Favela Hostel. Trata-se de um projeto que abriga hóspedes nas casas da tranqüila Vila das Canoas, em São Conrado. São nove famílias que recebem gente do Brasil e exterior. A coordenação é da guia de turismo Eneida Maria Pires dos Santos. Segundo ela, o objetivo, além de fonte de renda, é melhorar a auto-estima dos moradores.

Eneida se encarrega do contato com o alpinista e guia ecológico, João Armando da Costa, o Joãozinho, que nasceu na Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Durante a trilha ele, que é um apaixonado pela natureza, ensina macetes da floresta aos visitantes. Por exemplo, se estiver com sede e não dispor de água, mastigue um pedaço de casca de Pau Pereira. ?Aumenta a salivação e evita o desgaste físico?, informa.

De acordo com Joãozinho, não de pode aprender os segredos da floresta em escola. É algo que vem de geração. ?Meu pai me ensinou e eu conto pros meus filhos?, diz ele, apontando para as árvores que plantou na mata da Tijuca. Joãozinho afirma que, por enquanto, não são muitas as pessoas que o procuram para subir a Pedra da Gávea, mas sempre aparece alguém que quer ?ficar de frente com o gigante?, se referindo à figura de pedra. ?Aí, a gente leva com prazer?, declara o guia.

Serviço – Informações sobre a escalada na Gávea podem ser obtidas pelos telefones (21) 2422-2251 e 9848-6737, site www.tourisminrio.com ou pelo e-mail interrogation- 7@yahoo.com.br. (DO)