O gigantesco boi preto é o símbolo do Caprichoso.

Uma festa de cultura, religiosidade e fantasia em uma arena com quatro mil pessoas que dançam e cantam ao som de quinhentos tambores com o objetivo de contar a história dos povos da floresta. São índios, caciques, iaras, botos, ladeados por gigantescas estruturas coloridas que representam seres mitológicos, onças e outros animais da floresta, além de igrejas, nossas senhoras e outros ícones religiosos. Assim é o Festival de Parintins, que acontece todos os anos nos dias 28, 29 e 30 de junho, na cidade de Parintins, na Amazônia.

Este ano, a festa está em sua oitava edição e promete, mais uma vez, atrair turistas do mundo inteiro, dobrando sua população de cem mil habitantes. Todos os anos, visitantes brasileiros e de diversos países entram no clima do festival exibindo cocares, colares e outros balangandãs feitos pelos índios da região.

Durante seis horas, ao som dos tambores e da toada, os brincantes dos dois bumbás da Amazônia – o boi azul, Caprichoso, e o boi vermelho, Garantido – vão se revezar para defender as suas cores. Este ano, cada um dos bumbás recebeu da Coca-Cola (Guaraná Kuat), patrocinador oficial do festival, R$ 787.500 para ajudar na confecção de fantasias e alegorias. Até hoje, a Coca-Cola já investiu R$ 23 milhões no festival.

O festival é responsável pela geração de parte dos empregos na cidade. O trabalho é iniciado oito meses antes e, nos currais das duas agremiações, há cerca de mil pessoas contratadas para montagem de fantasias e alegorias. A Coca-Cola contrata, três meses antes do evento, setecentas pessoas da população local para serviços ligados à operação e infra-estrutura no recebimento dos visitantes.

Rivalidade

Para se ter noção do que significa a rivalidade entre os dois bumbás, Caprichoso e Garantido, é preciso ir até lá. A cidade se divide completamente nas cores azul e vermelho. O torcedor de um boi nunca cita o nome do concorrente. Referem-se uns aos outros como o “contrário”. Essa rivalidade acaba envolvendo o turista, que entra no clima da cidade.

Nas casas, fachadas, lojas e até orelhões, a cor revela a preferência de quem vive ali. O que em qualquer outro lugar pode parecer caricatura, em Parintins é absolutamente normal. Como a casa de dona Maria Ângela, torcedora-símbolo do Garantido. Lá tudo tem a cor encarnada do seu “boi”, inclusive a piscina, que nunca recebe água para não revelar o azul do Caprichoso.

O festival

Os quatro mil brincantes de cada um dos grupos cantam e contam na arena do Bumbódromo – especialmente construído para essa ocasião – a lenda do boi-bumbá. As fantasias e as alegorias – que podem chegar a 30 metros de altura – revelam a criatividade do povo local, que faz um espetáculo apoteótico nos três dias de apresentações.

Cada bumbá tem três horas para se apresentar a cada dia. O ritual conta a lenda de Pai Francisco e Mãe Catirina que conseguem, com a ajuda do pajé, fazer renascer o boi do patrão. Conta a lenda que Mãe Catirina, grávida, deseja comer a língua do boi mais bonito da fazenda. Para satisfazer o desejo da mulher, Pai Francisco manda matar o boi de estimação do patrão. Pai Francisco é descoberto, tenta fugir, mas é preso. Para salvar o boi, um padre e um médico são chamados (o pajé, na tradição indígena) e o boi ressuscita. Pai Francisco e Mãe Catirina são perdoados e há uma grande comemoração.

O júri é composto de pessoas de fora da região, ligadas ao estudo do folclore e outras manifestações culturais, artistas, cenógrafos, historiadores, antropólogos. Fato curioso que consta do regulamento é que não pode haver no júri participante do Rio Grande do Sul. Explica-se: considera-se que gaúchos poderiam ser influenciados pelas cores dos times rivais Internacional (representado pelo vermelho) e Grêmio (representado pelo azul), na hora de julgar.

O Bumbódromo é dividido meio a meio em azul e vermelho. As torcidas jamais se misturam e, durante a apresentação de um grupo, a torcida do outro não pode se manifestar. Vaias, palmas, gritos e outras formas de expressão são proibidos quando o “contrário” se apresenta. Existe no regulamento um quesito para “torcida” (ou galera).

O Bumbódromo foi construído em 1988 e tem 35 mil lugares, entre camarotes, arquibancadas especiais e arquibancadas gratuitas. Essas representam 95% dos lugares e são divididas em duas partes rigorosamente iguais para as duas torcidas. Cada um dos lados da arquibancada é pintado com a cor de um boi.

Os bois-bumbás de Parintins existem desde 1913, mas o festival foi oficializado em 1966. O Garantido – considerado o “boi do povão” – acumula 21 vitórias contra 15 do Caprichoso, “o boi da elite”. Pela primeira vez em toda a história dos bois, em 2000, Caprichoso e Garantido empataram e dividiram a vitória.

Acesso à cidade

O município de Parintins fica a 420 quilômetros de Manaus, na ilha fluvial de Tupinambara, e está localizado no Baixo Amazonas, quase na fronteira com o Estado do Pará. Pode-se chegar à cidade por vias aérea e fluvial. As agências de viagens costumam organizar pacotes que incluem transporte (de avião ou barco), hospedagem, ingressos para os três dias do festival e passeios pelo Rio Amazonas.

Quem quiser ir por conta própria, dispõe de várias companhias que fazem vôos diários para a ilha. Os vôos saem de Manaus, no Amazonas, ou de Santarém, no Estado do Pará, e têm duração de aproximadamente uma hora até Parintins.

De barco, a viagem até Parintins dura, em média, de 18 a 24 horas, dependendo do tipo de embarcação e do percurso escolhido. O trecho Manaus-Parintins, que desce o rio, é normalmente feito em 18 horas. O retorno leva cerca de 24 horas, pois navega-se contra as águas do rio. A maioria desses barcos funciona como hotel, pois eles permanecem ancorados em Parintins.