O abuso no uso do computador, principalmente, do acesso à internet entre os adolescentes, em que as redes sociais (orkut, facebook, tweeter) se destacam vai se tornando um pesadelo para os pais. Um estudo realizado na Itália revelou que esse uso abusivo está causando insônia e depressão nos usuários. O alerta serve para os pais que mantêm computadores nos quartos dos filhos ou não acompanham o tempo que eles ficam conectados. De acordo com a pesquisa, os menores ficam em média 6,5 horas conectados e a previsão é de que em 10 ou 20 anos, o número de casos de distúrbios do sono se multiplique.

O estudo italiano identificou que o aumento de tempo de conexão gerou períodos de instabilidade, queda no desempenho escolar, depressão e mau humor, segundo informou a Sociedade Italiana de Pediatria, após realizar pesquisa com adolescentes e constatar que 68,6% dos entrevistados utilizam a internet sem o controle de adultos.

Solidão

Um outro estudo, desta vez de uma universidade chinesa , publicado pela revista Archives of Pediatrics & Adolescent levanta o questionamento quanto à adolescentes que passam mais de cinco horas por dia em frente a uma tela de computador. Se o apelo pelo uso incessante das novas tecnologias de que elas se constituem em um instrumento para afastar os jovens do isolamento, na prática vai representando o contrário. O último relatório de uma fundação que estuda a saúde mental americana concluiu que os adultos que se expõem a esse excesso também apresentam patologias, como solidão e incapacidade de construir relacionamentos reais.

No Brasil, a situação não é diferente. Jovens e crianças não estão preparados para utilizar a internet. É o que revelou uma pesquisa feita nos últimos dois anos pelo Laboratório de Estudos em Ética nos Meios Eletrônicos (Leeme), da Universidade Mackenzie, de São Paulo. Os pesquisadores do grupo, coordenados por Solange Palma Barros, foram a campo e, ao entrevistarem 2.039 jovens, entre 11 e 18 anos, descobriram que tanto alunos de escolas privadas, quanto de escolas públicas, apresentaram-se totalmente suscetíveis aos diversos problemas que ocorrem em função do uso indiscriminado da rede mundial de computadores.

Exposição excessiva

A constatação é de que esse universo virtual traz uma falsa sensação de anonimato e impunidade. O uso desmedido por crianças e adolescentes traz à tona não apenas a questão do comportamento, mas também situações mais preocupantes, como exposição à pornografia, divulgação indevida da imagem e de dados pessoais, divulgação de boatos e difamações, bem como pedofilia e incitação à violência.

Com os resultados em mãos, foram propostas alternativas concretas para a formação dos jovens quanto ao uso construtivo dessas ferramentas. Os pesquisadores produziram dois livros voltados para o ensino fundamental e médio, com o objetivo de relacionar os problemas que acontecem na rede com a ética e os valores. “Queremos que os jovens assumam uma postura mais crítica e segura no uso da dessas redes sociais”, afirma Solange Palma Barros, que pretende divulgar as obras nas escolas e, futuramente, lutar pela inserção da disciplina de ética e segurança na Internet no currículo escolar.

Além disso, pesquisadores do Leeme alertam sobre a falta de condições que muitos pais e professores têm para orientar os menores no uso dos computadores. “Nem todos estão preparados para acompanhar os jovens – que parecem estar anos à frente nas questões tecnológicas”, reconhece a coordenadora, que ressalta a responsabilidade da escola em assumir o papel de orientador e formador.

Algo errado

Para os pesquisadores, falta responsabilidade no controle do uso da ferramenta eletrônica. A maior parte dos entrevistados utiliza a internet sem nenhum adulto por perto, sem nenhum controle ou monitoração. Além disso, foi identificado que o uso é feito, em sua maioria, dentro do próprio quarto do jovem. Outro dado colhido pela pesquisa é que 45% dos entrevistados já tiveram medo em algum tipo de acesso que fizeram na rede mundial de com,putadores. “Este é um dos motivos que nos obriga, acima de tudo, a formar o lado virtual dos jovens cidadãos, prevenindo a ocorrência de problemas on-line e minimizando os danos causados pelas diferentes problemáticas associadas à Internet”, alerta Solange Barros.

Um dos objetivos do Leeme é formar uma consciência de uso construtivo da rede mundial de computadores, gerando instrução, conhecimento, entretenimento sadio, exaltam-se os valores éticos e, também, fazer com que pais e educadores se aproximem mais das crianças e adolescentes. Em média as crianças e adolescentes passam 4 horas conectados. A questão que fica é o que eles estão deixando de fazer nessas 4 horas? “Como ficam as atividades escolares, esportivas, familiares e as responsabilidades que todos os jovens devem ter?”, questiona a coordenadora.

Sem dúvida nenhuma, a Internet é uma das maiores invenções da humanidade, mas, como foi percebido pela pesquisa, seu uso está indo contra as boas relações interpessoais. Sinal de que algo está errado.

Responsabilidade dos pais

Para a advogada Juliana Abrusio, que também participa do grupo de estudo, é importante conscientizar pais e escolas sobre as responsabilidades legais a que estão sujeitos ao concederem acesso indiscriminado e sem controle a Internet às crianças e aos adolescentes. “Há decisões judiciais condenando os pais a indenizações por atos ilícitos praticados pelos filhos na internet”. Isto deve ser um alerta à atenção redobrada de todos. “Os pais e professores devem contribuir na educação das crianças e dos jovens, especialmente no ambiente virtual, em que a falta de controle e orientação pode trazer sérios danos, inclusive na esfera judicial”, completa Abrusio.

Alimentando um vício

Num artigo do American Journal of Psychiatry, o pesquisador Jerald Block sugere que o abuso no uso da internet deverá ser adicionado ao seu Manual e Estatísticas de Diagnósticos dos Distúrbios Mentais, uma referência muito usada por médicos e profissionais de saúde. Segundo o especialista, estudos em cidades da Coréia do Sul apontam que quase 170 mil crianças estão fazendo uso de remédios psicotrópicos para tratar efeitos do uso excessivo da Internet. De acordo com Block, os sintomas do vício em internet são os mesmos de qualquer outro vício: irritabilidade, necessidade de estar sempre usando, diminuição da vida social, e todos os outros.