O senso comum reza que mulher não gosta de mulher, que fala mal de outras mulheres pelas costas. Segundo um estudo que está causando forte polêmica nos meios universitários americanos, o senso comum está certo. A fraternidade apregoada pelas gerações feministas é um mito. Quanto maior o sucesso profissional da mulher que segue o estilo masculino de liderança – um estilo de confronto abertamente agressivo – mais atacada pelas mulheres ela tenderá a ser.

A conclusão é da feminista Phyllis Chesler, com PhD em psicologia e 20 anos de pesquisas. No livro A desumanidade, de mulher para mulher (Thunder’s Mouth Press/Nation Books, 552 páginas, US$ 22,95). Phyllis reúne dezenas de fontes – de estudos sobre primatas até pesquisas antropológicas em sociedades de todos os continentes – para provar que, por razões primitivas e culturais, a mulher evita o confronto direto com outra mulher, e reproduz inconscientemente os padrões sociais que exigem da mulher submissão e humildade. A origem disso estaria na ligação mãe-filha. A maioria das mulheres, segundo ela, se sente como filha por toda vida e tende a olhar outras mulheres como criaturas que revivem as imagens benevolente, ausente ou ameaçadora da mãe. Benevolente, porque é a provedora inesgotável; ausente, porque na verdade não é infalível; e ameaçadora, porque se sente culpada pelo desejo infantil de se apropriar violentamente da mãe e porque a mãe tem outros interesses, o principal deles um homem.

– A mulher comum quer a aprovação, o amor da vencedora, mas não se sente capaz de alcançá-los. Não é à toa que os contos de fada empregam as figuras da fada-madrinha e da madrasta má, fontes inesgotáveis de esclarecimentos sobre essas imagens na relação mãe-filha.

Phyllis se vale de estudos da agressividade feminina como o da antropóloga Victoria Burbank, que diz que as mulheres miram sobretudo outras mulheres para agressão. “Fizeram-no em 91% das 137 sociedades que pesquisei”, diz Victoria no livro Agressão feminina numa perspectiva intercultural. No Oriente, o padrão se repete. Pesquisa da Saúde Nacional da Família com 90 mil mulheres na Índia, feita em 2000, descobriu que mais de 50% delas acreditavam que “o ato de espancar a esposa é justificado, se a mulher negligencia a casa ou os filhos e enerva o marido”.

Phyllis mostra que tal dinâmica se reproduz à luz do patriarcalismo inclusive em meios feministas. Mas não acha que o feminismo morreu. Ou as mulheres não estariam se saindo vencedoras em processos de assédio sexual no trabalho, entre outros. A desumanidade, de mulher para mulher já recebeu a aprovação de feministas de primeiro escalão, como Erica Jong, que qualificou o livro de “importante e brilhante”.

– Quero que seja reconhecido que temos um lado sombrio – diz Phyllis. – Gostaria que as mulheres olhassem para as que são bem-sucedidas na política, no trabalho e no amor e parassem de esperar que elas sejam fadas-madrinhas. Se elas falham na satisfação de algum dos nossos desejos, isto não significa que sejam madrastas más.

A escritora Rose Marie Muraro rejeita a idéia da crueldade naturalmente feminina:

– É ridículo falar sobre competição ou perversidade feminina num mundo que assiste perplexo às atrocidades comandadas por homens. Vejam o que foi a Inquisição, a tortura na guerra da Palestina. Se o mundo está uma desgraça é culpa do macho.

Para a ensaísta Heloisa Buarque de Holanda, a maldade feminina não passa de fantasia machista:

– As mulheres da geração pós-feminista chegavam ao mercado de trabalho com o jogo de sedução nas relações de poder. Era, por exemplo, a secretária que seduzia o patrão. Hoje, há mais mulheres em cargos de chefia e o decote ousado já não faz efeito. Aí entra em cena a fantasia machista da maldade, que está na cabeça das mulheres e dos homens. Elas acham que suas colegas precisam se valer da maldade para atingir seus objetivos, mas isto é pura competição.

Phyllis critica a política de cotas para garantir lugares para mulheres nas universidades: mostra que as mulheres economistas rejeitavam candidaturas femininas para a Fundação Nacional da Ciência com mais freqüência que os homens. O motivo? Queriam manter pequeno o número de acadêmicas em economia…

Subsecretária de Segurança da Mulher, a antropóloga Bárbara Soares discorda e defende a política da governadora Benedita da Silva de dar preferência a mulheres em cargos de confiança do governo.

– A agressividade ou a maldade não são características masculinas ou femininas. Antes da revolução do século XX, os críticos do feminismo diziam que elas iam cometer tantos crimes quanto os homens no poder. Um século depois, há mulheres em cargos de chefia e nem por isso a população carcerária feminina aumentou. Elas ainda são, como há um século, 7% desta população.

Maldade feminina viria do berço

Para a psicanalista Marcia Wanderley, a relação entre duas mulheres – seja ela perversa ou afetuosa – terá sempre como origem sentimentos vividos na infância com suas mães:

– Quando a menina não consegue superar as vivências com uma mãe ameaçadora, que não lhe deu o afeto, a atenção ou algo mais devidos, carregará esse ressentimento para a vida adulta e o relacionamento com outras mulheres será marcado por ódio e rivalidade – diz Marcia.

Para o psicanalista José Renato Avzaradel, a perversidade não é uma qualidade exclusivamente feminina, mas pertence ao gênero humano:

– O grau dessa agressividade dependerá do grau da frustração. Essas mulheres agressivas sempre existiram entre quatro paredes. Agora que elas chegaram ao mercado de trabalho, tornaram-se públicas.

Já a psicóloga Margareth de Mello Ferreira dos Reis, autora do livro “Mulher: produto com data de validade”, diz que a mulher não alcançou os objetivos do feminismo, de estar lado a lado com o homem, dividindo postos de comando e até na divisão equalitária de tarefas domésticas.

– As mulheres ainda não levaram em conta que o feminismo não é uma batalha, mas sim de um esforço conjunto para harmonizar a ação entre homens e mulheres.