Um paciente que busca atendimento médico reclamando de dores insuportáveis em vários locais do corpo, dizendo não aguentar tanto sofrimento, pode estar acometido de uma doença “invisível”.

Provavelmente vai ouvir do médico que a causa dessas dores, muitas vezes incapacitantes, é da fibromialgia. O reumatologista Eduardo Paiva, chefe do Ambulatório de Fibromialgia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, define essa síndrome dolorosa crônica como uma “dor no corpo todo, gerada pelo próprio sistema nervoso central, medula e nervos”.

O médico explica que, além da dor, a doença se caracteriza por fadiga, alteração do sono, intolerância ao exercício e, ainda, por sintomas de depressão. Assim, esse acúmulo de sintomas e sinais justifica a existência de uma síndrome fibromiálgica.

A maioria dos pacientes não faz ideia do que se trata até descobrir que o que sente, na verdade, é mais do que uma simples dor. Pelo menos essa foi a resposta de 70% dos pacientes brasileiros na pesquisa Fibromialgia: além da dor, idealizada pela Pfizer no Brasil, México e Venezuela, com mais de mil participantes, entre médicos e pacientes.

Falta de informação

No Brasil, 98% dos pacientes concordam que a fibromialgia é uma doença que não se conhece bem; enquanto 77% dos clínicos gerais e 84% dos especialistas acreditam que a enfermidade não é muito conhecida inclusive entre os próprios médicos.

“É preciso valorizar este sintoma”, esclarece Eduardo Paiva, recomendando que, por isso, caso o paciente tenha uma dor que não passa durante três meses, deve procurar auxílio médico.

·Mas a falta de informação sobre o tema faz com que os pacientes brasileiros demorem muito mais do que isso para tomar uma atitude e procurar ajuda médica após experimentarem os sintomas da doença.

“Erroneamente, os pacientes se acostumam a conviver com a dor”, explica o médico. Dentre os que esperaram mais de quatro semanas para procurar ajuda profissional, alegam que não o fizeram antes por vários motivos.

Quando se avalia o total de pacientes, independentemente do tempo que levaram para recorrer a uma consulta, a dificuldade na comunicação dos sintomas da fibromialgia é apontada por 76% deles. 

Os outros motivos dessa negligência são pensar que os sintomas desapareceriam sozinhos, imaginar ser capazes de controlá-los sozinhos, não saber que se tratava de uma doença que exige cuidados médicos, não conseguir descrever os sintomas ao médico e, por isso, temer que o médico não os levasse a sério.

Diagnóstico tardio

Por outro lado, os médicos também reconhecem a dificuldade em diagnosticar a fibromialgia e em diferenciar seus sintomas de outras doenças. Os critérios de diagnóstico da fibromialgia foram criados na década de 1990, o que é relativamente recente para a medicina.

“Talvez por isso ainda haja certa dificuldade em diagnosticar essa enfermidade”, explica Paiva. Existe um consenso em relação à necessidade de os médicos dedicarem mais tempo com os pacientes para o diagnóstico da fibromialgia.

Neste caso, conforme o reumatologista, é preciso voltarmos ao antigo hábito das entrevistas minuciosas para entendermos melhor os sintomas. Tantos obstáculos contribuem para o diagnóstico tardio da fibromialgia e a peregrinação de pacientes em busca de respostas para suas queixas.

No Brasil, um portador da doença leva 4,7 anos para ser diagnosticado e consulta, em média, 7,2 médicos. Em relação ao tratamento, a maioria dos clínicos gerais e dos especialistas, concorda que tratar a fibromialgia requer consultas frequentes de pacientes. Os profissionais participantes da pesquisa apontam ainda a enfermidade como difícil de tratar.

Sensibilidade à dor

Em relação ao diagnóstico da doença, ele é totalmente baseado na avaliação clínica do paciente, já que não existem exames laboratoriais que comprovem a existência da enfermidade.

Os médicos costumam utilizar como referência os 18 pontos de dor, estabelecidos na década de 1990 pelo Colégio Americano de Reumatologia. “Depois de desses critérios, houve homogeneização na definição da fibromialgia, além de melhora significativa acerca do conhecimento e pesquisa sobre a doença”, relata Paiva.  

Para os pacientes que sofrem da doença um simples carinho chega a doer, já que a fibromialgia aumenta muito a sensibilidade à dor. Apesar de não se conhecer exatamente as causas da doença, estudos indicam um aumento dos impulsos dolorosos transmitidos pelo sistema nervoso central, o que acaba tornando a dor crônica nos pacientes fibromiálgicos.

Por isso, o tratamento da doença deve envolver medicamentos que atuam no sistema nervoso, como a pregabalina, que atua diminuindo o excesso de mensagens de dor transmitidas dos nervos doentes para o cérebro. Comercializado em diversos países, inclusive no Brasil, foi o primeiro medicamento aprovado para tratar especificamente fibromialgia.