A mensuração da dor como parte integrante de um diagnóstico é tão importante que é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o quinto sinal vital da resposta do organismo a algum distúrbio que lhe acomete.

Os outros sinais são temperatura, pulsação, respiração e pressão arterial. Antes mesmo de “nos conhecermos por gente” já tínhamos a noção do que era dor.

Ao engatinhar pela casa é comum o bebê sofrer acidentes, como prender a mão na porta ou bater com a cabeça em algum móvel no meio do caminho.

Muitas vezes, apenas um assopro, um beijo e um carinho já fazem desaparecer a dor, levando consigo algumas tristes lágrimas.

Dos inevitáveis tropeços às quedas de bicicleta, acompanhados de joelhos roxos e cotovelos ralados, a dor acompanha as pessoas desde pequenas, correspondendo, quase sempre, a muito sofrimento. Não há quem não tenha passado por uma sensação dolorosa e não tenha pensado nas melhores formas de superá-la ou evitá-la a qualquer custo.

Uma pergunta não quer se calar: como medir a dor? Sabe-se que alguns estímulos que suscitam uma dor intolerável em uma pessoa, podem ser facilmente suportados por outra.

A dor é, portanto, uma experiência essencialmente individual, que varia entre os indivíduos e envolve outros fatores, que não o estímulo em si, mas a experiência pessoal, a aprendizagem cultural e o significado atribuído à situação. O que se sabe é que não há ser humano insensível à dor -seja ela física ou emocional – e, por isso, é importante que ela seja sempre sanada.

Morfina sem receio

Ao se submeter a uma cirurgia, um dos maiores medos dos pacientes é o de sentir dor. Não é por menos: procedimentos cirúrgicos de grande porte têm como consequência inevitável uma dor muito intensa.

Apesar de existirem medicações potentes, como a morfina e seus derivados, que aplacam essa dor, alguns pacientes e médicos ainda têm receios em utilizá-las. Segundo o anestesiologista e especialista em dor, Ayrton de Andrade Júnior, do Hospital Santa Cruz, em Curitiba, quando se fala em morfina, o paciente se assusta, pois associa o seu uso a problemas graves.

“Na verdade, trata-se de uma medicação extremamente eficaz, que tem mínimos efeitos colaterais e traz poucos prejuízos ao paciente”, garante o médico, esclarecendo que, ao contrário dos países mais desenvolvidos, ainda é pequeno o uso de morfina nos países em desenvolvimento, como o Brasil. “O objetivo é para que ela seja cada vez mais utilizada, pois seus benefícios são inúmeros, principalmente no combate à dor do paciente em recuperação de uma cirurgia ou durante o tratamento de câncer (dores oncológicas)”, completa Andrade Jr.

Analgésicos adequados

Por entender que é um direito do paciente não sentir dor ou, ao menos, tê-la amenizada, sempre que possível, o Hospital Santa Cruz instituiu o Serviço de Tratamento da Dor Pós-Operatória.

O setor é composto por anestesiologistas e enfermeiros que acompanham diariamente o paciente, cuidando e prescrevendo os analgésicos adequados, para que a dor após a cirurgia seja a mínima possível.

De acordo com o especialista, o paciente que sente menos dor pode respirar melhor, levantar do leito mais precocemente e ter menos complicações pós-operatórias. “Além disso, o alívio da dor proporciona uma recuperação mais rápida, de melhor qualidade e com menos sofrimento”, constata.

No entanto, é comum perceber que alguns médicos preferem não tratar a dor dos pacientes recém operados, levando em conta que ela permanece durante um período limitado de tempo.

Para Andrade Jr, os pacientes não precisam conviver com a dor e, se há meios poderosos para tratá-la, eles devem ser utilizados. “Existe um mito de que a morfina pode viciar, mas está provado que, quando utilizada corretamente, com o auxílio profissional, as chances de vício são ,de 0,03%, ou seja, praticamente nulas”, garante.

O anestesiologista alerta para um dado crítico: quando os pacientes são sub-tratados no pós-operatório, podem sofrer com dores que persistem durante meses.

Tratamento individualizado

Como a dor varia entre os pacientes, é necessária a utilização de novos recursos tecnológicos que tornam o tratamento cada vez mais individualizado. É o caso da Bomba de PCA, que pode ser traduzida por analgesia controlada pelo paciente – um equipamento que permite a auto-administração do medicamento.

Quando a intensidade da dor aumenta, ele aciona o aparelho para receber uma quantidade determinada de analgésico em seu organismo, em doses e intervalos de tempo programados pelo médico.

“Em Curitiba, o Santa Cruz é um dos poucos hospitais que possui este aparelho, que personaliza o tratamento da dor, dando mais conforto e independência ao paciente”, garante Andrade Jr.

Outras formas de aplacar a dor consistem no bloqueio anestésico, que pode ser peridural, com solução analgésica via cateter, inserido próximo à coluna; e endovenosa, com a aplicação intravenosa de morfina e seus derivados.

É muito importante que os pacientes conversem com o cirurgião sobre o tratamento da dor. Ainda que subjetiva e impossível de ser medida, ela precisa ser sempre tratada. A medicina já possui diversos recursos para minimizá-la – bem mais eficazes do que os carinhos e assopros dos tempos de criança.

Cirurgias com indicação para o tratamento da dor

* Cirurgias ginecológicas (histerectomia, laparatomia)
* Cirurgias ortopédicas (ligamento de joelho, joanete bilateral, cirurgias complexas da coluna, cirurgias do quadril)
* Cirurgias do tórax (toracotomia, cirurgia cardíaca)
* Cirurgias no abdome (estômago e intestinos) que não sejam laparoscópicas
* Cirurgias urológicas (prostatectomia radical, nefrectomia)
* Outras cirurgias de acordo com a necessidade e sensibilidade do paciente à dor

Investigação

É preciso investigar e identificar o agente causador, a origem, a intensidade e a influência de fatores psicológicos e sociais sobre a dor, visando encontrar o método mais adequado de tratamento.

O médico precisa descobrir:

* A causa – algum fato que tenha provocado o surgimento do problema
* Sua duração – há quanto tempo o incômodo é sentindo
* A intensidade – se é forte, fraca, moderada
* A extensão – localizada ou generalizada
* Apresentação – uma queimação, uma facada, um latejamento
* Agravantes e atenuantes – o que piora e o que melhora o quadro, os horários de maior e menor intensidade
* Doenças descritas – relato de doenças pré-existentes
* Interação medicamentosa – remédios que o paciente está tomando