O número de pessoas acima de 60 anos infectadas pelo vírus da aids vêm aumento consideravelmente no Brasil. De 1980 a 1991, 1,8% da população com o vírus HIV era da terceira idade. Hoje são 2,4% do total. Segundo o infectologista Jean Carlo Gorinchteyn, esse crescimento é reflexo da falta de campanhas de prevenção para essa faixa etária.

Vários fatores contribuíram para esse aumento. Um deles é o fato de a sociedade ignorar que os idosos estão mantendo sua vida sexual ativa e, conseqüentemente, não fazem nada para prevenir a disseminação da doença. Uma pesquisa do Ministério da Saúde, realizada em janeiro deste ano, revelou que 67% das pessoas com idade entre 50 e 59 anos mantém relações sexuais com regularidade. Entre as pessoas com mais de 60 anos esse índice é de 39%. Os números estão relacionados principalmente à quantidade de remédios disponíveis para combater distúrbios eréteis.

Além disso, a vida social da terceira idade está cada vez mais ativa. Várias entidades promovem bailes, encontros e viagens. Nesses momentos, eles têm mais oportunidade para encontrar parceiros. A tudo isso pode-se se somar, também, o fato de os idosos não terem o hábito de usar a camisinha. “Durante toda a vida eles não usaram o preservativo e agora têm até a dificuldade de manuseá-la”, fala Jean.

Se usar preservativo é complicado para os homens. O mesmo ocorre com as mulheres. A maioria é viúva e nunca usou camisinha com o marido. Agora, elas estão em busca de outro laço afetivo e o preservativo não entra nos planos. Elas acham que a doença não existe nessa faixa etária.

Além de os idosos terem que mudar seu comportamento, os médicos também precisam estar preparados para a nova realidade. Segundo Gorinchteyn, muitas doenças consideradas normais para a idade podem estar associadas a aids, como a pneumonia e até as demências. “Se um jovem está com uma grave pneumonia, se levanta a hipótese de ser decorrente da doença e pede-se exames para confirmar o diagnóstico. No caso dos idosos isso não acontece”, revela. Muitos entram em óbito e a aids não é descoberta.

Paraná

No Paraná existe hoje 163 homens e 48 mulheres com idade entre 60 e 69 anos infectados pelo vírus HIV. Outros 32 homens e 9 mulheres com idade entre 70 e 79 anos também têm a doença. Segundo a presidente da ONG Valorização e Integração dos Doentes de Aids (Vidda), Clarisse Calo, nos últimos anos aumentou a procura de ajuda na instituição. A maior preocupação dos idosos não está relacionada ao tempo de sobrevida, como ocorre com os mais jovens. Querem informações sobre a doença e como proceder no tratamento. “Eles querem se cuidar e continuar com uma vida saudável”, conta.

Segundo a coordenadora do programa estadual de DST-Aids, Rita Esmanhoto, o governo estadual já começou a realizar campanhas com regularidade. “Todo mundo que mantém relação sexual está exposto a doença. Até agora a sociedade ignorou a vida sexual dos idosos”, afirma. No mundo existem hoje 40 milhões de pessoas infectadas pelo vírus – 600 mil só no Brasil.