maissaude3.jpgEles reclamam de uma súbita indiferença em relação ao sexo. Elas se sentem deprimidas por não compartilhar do entusiasmo sexual do seu parceiro. Nunca na história da humanidade se falou tanto sobre sexo quanto hoje. As relações afetivas e sexuais passam por uma exposição diária de corpos, fetiches e atitudes que remetem à sexualidade. Ao contrário de todos esses apelos e insinuações, uma constatação fica evidente: os consultórios de médicos e psicólogos especializados no assunto estão sempre lotados. São homens e mulheres angustiados procurando tratamentos que indiquem o caminho para ativar ou reativar a chama desaparecida.

Mas por que isso acontece? Diferentemente do que muitos imaginam, a falta de desejo ou de prazer raramente tem ligação com qualquer tipo de incapacidade física. Poucos casos também se devem às causas orgânicas ou por efeitos colaterais de algum medicamento. ?Geralmente são ocasionados por pressões psicológicas, entre elas, estresse, medo, culpa e vergonha do corpo, que não permitem que o casal ou um dos parceiros desfrutem de uma vida sexual saudável?, avalia o psiquiatra André Astete. Além deles, o ato sexual pode estar prejudicado por algum tipo de disfunção, como dor na penetração ou pouca lubrificação, por exemplo. ?Existem alguns tipos de vaginoses que aumentam o corrimento ou ardência e tornam a relação dolorosa para a mulher?, relata o ginecologista Márcio José de Souza Almeida, do Hospital Vita.

Terapia sexual

Para os homens, até a chegada do Viagra, a principal queixa sempre foram os problemas de ereção. Já, elas, sempre reclamaram da dificuldade de chegar ao orgasmo e da falta de desejo. Cheios de sentimentos de culpa, ambos buscam modelos de comportamento que possam ser adaptados para o seu próprio prazer. A chegada da pílula anticoncepcional, na década de 60, parecia ser a chave para abrir as portas do prazer, muitas vezes, inatingível para a maioria das mulheres. Contudo, quase meio século depois, se percebe que elas ainda não estão tão conectadas assim. No Brasil, por exemplo, conforme um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP), 33% das mulheres pesquisadas se queixam por não atingir o orgasmo e 34,6% reclamam da falta de desejo.

É para isso que existe a terapia sexual. Ela se propõe a tentar restituir a função sexual. ?O primeiro passo para tratar dessa disfunção é buscar auxílio médico para identificar o problema?, ressalta o especialista em sexologia Carlos Scheidemantel, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele explica que, em muitos casos, as disfunções sexuais podem ter suas raízes em causas superficiais mais imediatas e simples, do nosso dia-a-dia. Situações que podem alterar a resposta sexual e que devem ser combatidas. Muitas são ligadas ao ato em si, como o estímulo inadequado, o desconforto e o desconhecimento. ?Nesses casos temos que atuar direto no alvo, eliminando essas barreiras?, frisa.

Buscar o desejo perdido

De acordo com o especialista, muitos pacientes respondem rápida e favoravelmente aos métodos de tratamento planejados, eliminando os obstáculos ao funcionamento sexual normal e prazeroso. Os casos identificados como intermediários, ligados ao relacionamento do casal, no entender de Scheidemantel, têm na terapia a sua principal escolha. ?São bloqueios causados por discussões, mágoas ou hostilidades que necessitam da participação do casal para ser transpostos?, enfatiza.

As situações mais complicadas são ligadas à educação sexual, questões traumáticas, como violência ou abuso sexual, necessitando de tratamento mais demorado, mas passível de ser revertido. Conhecer-se bem, conversar abertamente com o parceiro sobre sexo e consultar um especialista são atitudes que ajudam a garantir uma vida sexual plena. O importante é não se deixar levar por preconceitos e buscar a satisfação com o próprio corpo.

QUEM É O TERAPEUTA

O terapeuta sexual é um profissional com treinamento específico para a abordagem de dificuldades sexuais. Para tanto, é necessário que o médico ou psicólogo faça uma especialização (pós-graduação) para se habilitar. Deve ser levado em conta na escolha do curso o credenciamento do mesmo pelo MEC e estar vinculado a uma universidade. Nos primeiros dois semestres do curso, são abordadas as bases anatômicas e funcionais da sexualidade, os aspectos orgânicos e psicossociais do exercício da sexualidade nas diferentes fases da vida, as doenças sexualmente transmissíveis, por meio de aulas formais, dinâmicas de grupo, seminários e discussão de casos. No terceiro e quarto semestres, são estudados os diagnósticos e tratamentos das disfunções sexuais, propiciando treinamento prático, em consultas simuladas, discussões de casos, vivências e acompanhamento do tratamento de pacientes.

No orgasmo, a plena realização

A musculatura se contrai, o coração acelera, a respiração é intensa. Uma explosão de prazer toma conta do corpo e da mente. Cercado de mitos e idealizações, o orgasmo é um reflexo, mecanismo físico tal como tossir ou espirrar. Ele não depende do simples querer, mas de uma conjunção de fatores adequados, que inclui desejo, excitação e prazer. É o ponto máximo do estímulo sexual, que pode começar com um beijo, uma carícia ou até uma lembrança. Depende ainda da capacidade de se deixar entregar às sensações.

”Na escala dos prazeres, é tido como o maior que o ser humano pode experimentar. Não é satisfação, nem realização”, distingue a terapeuta sexual e ginecologista Margareth Fichera. São liberadas endorfinas no cérebro, substâncias que proporcionam bem-estar físico e mental. Se acontece o orgasmo, a fase seguinte, quando o corpo volta ao repouso, é rápida. Profundo relaxamento, alívio das tensões, liberação do sangue na região genital, que volta ao volume normal. Se o corpo não atinge o prazer máximo, a fase de resolução pode levar muitas horas. ”O natural seria o orgasmo. O corpo se prepara para ele no momento do sexo”, observa a terapeuta sexual.

Múltiplos fatores estão ligados à falta de orgasmo pela mulher. Uso de medicamentos, alterações hormonais e outras disfunções fisiológicas que podem dificultar essa experiência. Mas no topo da lista aparecem as barreiras psicológicas e a falta de intimidade da mulher com a própria sexualidade. O manuseio que os homens têm com o pênis desde cedo favorece o autoconhecimento e os leva a lidar melhor com o prazer. ?Já a menina é cercada de cuidados desde a infância, para que ela não se toque, não se expresse”, compara a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora de um estudo realizado em todo o país, que indica que 30% das brasileiras não conseguem ter orgasmo, contra 10% dos homens. No entanto, todos são unânimes em afirmar que alcançar o orgasmo fortalece os vínculos em uma relação afetiva.