No Japão o problema é a
principal causa de suicídios
entre os adolescentes.

Crianças e adolescentes vítimas de chacotas e perseguições por parte de colegas de escola podem vir a apresentar uma série de transtornos psicológicos, como sentimentos de baixa auto-estima e rejeição. O problema é conhecido como bullying, palavra americana cuja tradução mais próxima em português seria “assédio moral”.

Uma pesquisa realizada recentemente por instituições educacionais japonesas revela que bullying é a principal causa de suicídios entre adolescentes no Japão. Naquele país, a rejeição é considerada uma desonra e os jovens se sentem tão mal que chegam a acabar com a própria vida. No Brasil, as conseqüências não chegam a ser tão drásticas, mas também são consideradas bastante sérias.

“No Japão, os adolescentes sentem vergonha de contar aos pais que estão sendo vítimas de perseguições na escola. Quando eles não suportam mais as humilhações, acabam chegando ao extremo de cometer suicídio”, conta o assistente pedagógico da rede marista de educação – responsável pela PUCPR e pelos colégios Paranaense e Santa Maria, em Curitiba – Marcos Meier. “Aqui no Brasil, os jovens inicialmente costumam esconder o problema. Porém, quando chegam ao limite, choram e acabam contando aos pais e professores o que está acontecendo.”

Formas

Segundo Marcos, o bullying é um problema considerado bastante comum – estando presente em grande parte das escolas brasileiras – e que pode acontecer de diversas formas. Geralmente, uma turma de estudantes escolhe um colega como vítima e passa a persegui-lo de maneira gratuita. Uma forma de perseguição é cobrar os chamados “pedágios” nos horários de recreio, intervalos e saídas de aulas. “O grupo ameaça a criança ou o adolescente vítima dizendo que se ele não pagar pedágio (der um lanche, dinheiro, uma caneta ou outro objeto) irá, por exemplo, levar uma surra”, explica o assistente pedagógico.

Outra forma comum de humilhação a outros estudantes se faz através da colocação de apelidos ofensivos. Nos meninos, os colegas geralmente se aproveitam de uma falta de competência. Já nas meninas, os apelidos costumam ser baseados na aparência física. O motivo de chacota acaba sendo a obesidade, um nariz grande, um dente torto ou qualquer outra característica física que fuja um pouco aos padrões estéticos. “Tudo isso faz com que as crianças ou adolescentes se sintam excluídos do grupo, passem a se distanciar dos colegas e mesmo a ter repulsa pela escola, que vira sinônimo de sofrimento.”

Sintomas

Os sintomas do problema costumam ser medo da escola – a vítima passa a manifestar que não gosta do colégio ou que os professores são chatos; dores de cabeça ou de barriga antes de ir para a escola; mudanças de comportamento, como da docilidade para a agressividade; alterações de sono; desatenção em sala de aula; e queda no rendimento escolar. “Outra indicação de que o estudante está sendo vítima de bullying é a perda de objetos pessoais”, diz Marcos. “Eles dizem aos pais que perderam canetas, relógio e outros objetos, mas na verdade essas coisas foram dadas como pagamento dos pedágios.”

As humilhações podem se refletir sobre a vida adulta, gerando pessoas com dificuldades de dizer não, argumentar e discutir determinados assuntos, muitas vezes para não magoar outras. Por isso, o assistente pedagógico aconselha as vítimas a não ficarem caladas. De acordo com ele, primeiro o estudante deve tentar conversar com os colegas, dizendo que as brincadeiras o estão incomodando. Se não der resultado, devem procurar a direção da escola e professores. Se mesmo assim o problema não for resolvido, devem contar o que está acontecendo aos pais e pedir que eles procurem a direção do colégio.

“Na escola, os diretores devem conversar sobre valores com o grupo que está realizando perseguições, mostrando que o comportamento deles está causando grande sofrimento a outra pessoa. Se não adiantar, a direção deve estabelecer punições”, acredita Marcos. “Na maioria das vezes, as crianças e os adolescentes que humilham colegas não possuem noção dos valores reais da vida, têm pouca interação com adultos (não aprendendo limites de boa convivência) ou reproduzem na escola rejeições que estão sofrendo dentro da própria casa.”