Uma boa escovação é essencial para dentes sadios.

O município de Cambé, Norte do Estado, apresenta o menor índice de dentes cariados perdidos ou obturados (CPO-D) do Paraná em crianças com 12 anos de idade. Em 1983, adolescentes dessa faixa etária tinham em média oito dentes com problemas. Hoje, o número caiu para menos de um. A cidade conseguiu atingir o índice graças ao programa Clínica do Bebê, implantado em 1987, que cuida das crianças quando elas ainda estão na barriga da mãe.

Quando a dentista Márcia Leandro Garbelini assumiu o setor de odontologia na cidade, observou que o único serviço realizado era o de extração de dentes. “A gente arrancava baldes de dentes, quando havia anestesia”, disse. Ela teve a idéia de começar um trabalho de prevenção com crianças em escolas. O programa começou a atingir crianças entre 6 e 14 anos.

Márcia, no entanto, explica que as crianças de seis anos já apresentavam problemas em seus dentes permanentes. Começaram então a atender crianças mais novas. Mas havia uma grande dificuldade: elas tinham medo de ir ao dentista e choravam com freqüência, dificultando o tratamento. “Era difícil atender uma criança pequena, com a boca cariada e com dor”, disse.

A solução veio quando a Universidade Estadual de Londrina (UEL) implantou o atendimento odontológico para bebês em 1986. Foi então firmada uma parceria para o repasse de tecnologia e a cidade foi a primeira do País a implantar um trabalho de prevenção e educação odontológica para bebês. “Eles são atendidos desde a barriga da mãe até completar 21 anos”, fala Márcia.

Em média, nascem na cidade 100 bebês por mês e 99,9% são absorvidos pelo programa. Só fica de fora se a mãe da criança não quiser participar. O primeiro passo é assistir palestras, onde as mães são orientadas a cuidar da sua própria dentição e também de outros membros da família. “A cárie é transmissível e pode passar para o bebê”, afirma Márcia.

Depois que o bebê nasce já tem uma consulta marcada com o dentista, que se repete a cada três meses até ele completar 21 anos de idade. Nos primeiros encontros, as mães são orientadas a limpar a boca do bebê sempre que mamar para não desenvolver em seus primeiros dentes a chamada cárie do peito ou cárie da mamadeira. Para realizar a limpeza, pode-se pegar uma frauda molhada com água tratada ou fervida e enrolá-la no dedo, passando por toda a boca, principalmente na parte superior frontal onde costuma ficar mais resíduos. A medida, além de evitar a cárie, também desenvolve na criança o hábito de limpar a boca depois das refeições.

Passando por esse atendimento desde bebê, as crianças perdem o medo do dentista. “É como se estivesse indo passear. Ela sabe que vai lá só para limpar a boca”, fala.

Sucesso

A dentista também destaca que o sucesso do programa se dá em função da adesão das mães que cumprem o compromisso a cada três meses e seguem o que as dentistas recomendam. E, devido à gravidez precoce, a cidade já registra a segunda geração de bebês sem cáries. “São meninas que foram atendidas e agora trazem os filhos”, conta.

Além de prestar um atendimento de qualidade, a cidade também diminuiu os custos com o tratamento odontológico público. “O trabalho preventivo custa três vezes menos que o curativo. Você vai gastar mais com os recursos humanos”, compara Márcia.

Levantamento mostrará situação

Entre as cidades que chegam mais perto do índice de Cambé estão Curitiba, Maringá, Londrina e Paranavaí, com CPO-D abaixo de três. Mas um quadro mais atualizado sobre a situação do Estado e também do Brasil deve sair até o final do ano. Está sendo realizado um levantamento epidemiológico de saúde bucal no País todo. E pela primeira vez contempla a população mais velha.

Até hoje só os escolares entravam para as estatísticas. “Os números vão orientar as políticas públicas para a área”, comenta o coordenador do programa de Saúde Bucal da Secretaria de Estado da Educação, Christian Mendez Alcântara.

Segundo ele, a média geral do estado de CPO-D é de três dentes. O índice paranaense foi alcançado graças a distribuição de flúor na água, atingindo 85% da população, além do bochecho com flúor que era realizado nas escolas – que ainda é mantido em alguns municípios. Mas a Organização Mundial de Saúde quer mais. Ela preconiza que até 2010 os países devem atingir a marca de um dente.

Doença

A cárie dentária é uma doença transmissível. Ela provoca a desmineralização do esmalte do dente, levando à perdas irreversíveis de tecido dentário. Esse processo começa se houver presença de placa bacteriana associada a uma dieta inadequada (açúcares) e constante falta de higiene bucal.

Christian recomenda a escovação com creme dental que contenha flúor após as refeições. A realizada antes de dormir é a mais importante. Um conselho para os pais é colocar na escova de dente da criança a quantidade de creme dental equivalente a uma ervilha, evitando assim que ela engula a pasta. Também deve-se usar fio dental pelo menos uma vez ao dia. O dentista deve ser visitado a cada seis meses.

Outro conselho importante é procurar um consultório odontológico quando for verificado uma ferida por mais de quinze dias na boca. No ano passado, 150 pessoas morreram no Estado, vítimas de câncer de boca. (EW)