Quem tem úlcera gástrica, gastrite e doença do refluxo, nem sempre trata da maneira mais adequada, muitas vezes se automedica e acaba por disfarçar uma doença mais séria: um câncer de estômago.

Por isso, é fundamental tratar qualquer problema gástrico com a importância devida. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2008 ocorreram mais de 12,7 mil óbitos devido ao câncer gástrico no Brasil, sendo 8.223 homens e 4.483 mulheres. Para 2010, estima-se 21.500 novos casos da doença.

No mundo, são entre 500 mil a 650 mil mortes a cada ano, números que o colocam na segunda principal causa de morte por câncer, perdendo apenas para o câncer do pulmão.

Para diminuir esses números, só existe uma saída: a prevenção. De acordo com o gastroenterologista Ricardo Guzela, o cuidado está baseado fundamentalmente em modificações do estilo de vida.

Par ele, deve-se, primeiramente, combater agentes nocivos à saúde, como o tabagismo, o álcool e o uso de drogas ilícitas.

“Outro pilar importante da prevenção – talvez o mais importante deles – é a adoção de uma dieta balanceada composta por vegetais crus, frutas cítricas e alimentos ricos em fibras”, recomenda.

O câncer do estômago passa a apresentar sintomas intensos quando a doença já está em fase avançada, ou então, quando já ocorreu a disseminação para outros órgãos.

Os sintomas mais comumente relatados são a perda de peso, desconforto abdominal insidioso, sensação de empachamento, dor na parte abdominal alta, falta de apetite e náuseas.

Alguns sintomas são menos comuns e ocorrem devido à localização do tumor dentro do estômago, como vômitos, dor ou dificuldade para engolir e sangramento. Nesses casos, a pessoa deve procurar imediatamente o médico.

Endoscopia digestiva

O médico comenta que não há relação direta do sedentarismo com o desenvolvimento da doença, porém a modificação do estilo de vida, ao qual também se insere a atividade física regular, tem o intuito de diminuir o aparecimento de outras doenças malignas, como também a ocorrência de eventos cardiovasculares, da obesidade e de doenças crônicas.

Por isso é importante a realização de exames regulares, já que os sintomas apresentados pelos pacientes com a neoplasia precoce são inespecíficos e, na maioria das vezes, brandos.

No Japão, por exemplo, que é um dos países com maior incidência de câncer gástrico, há políticas públicas de saúde que orientem a realização de estudo radiológico contrastado, como básico para a investigação da doença.

No entender de Guzela, no entanto, a endoscopia digestiva alta (EDA) é a ferramenta mais útil na detecção do câncer precoce do estômago, pois é considerada exame “padrão-ouro” para o diagnóstico da doença.

“Ela permite a observação direta da lesão, além da tomada de biópsias, para a confirmação do tipo histológico”, explica, salientando que por meio da endoscopia também é possível retirar lesões que acometem apenas a camada mucosa (primeira camada de revestimento interno do estômago).

O gastroenterologista esclarece que pacientes com sintomas ulcerosos devem ser submetidos à endoscopia alta ao menos uma vez após recidiva dos sintomas, depois do primeiro tratamento.

“A progressão do câncer gástrico precoce para avançado demora em média 37 meses, sendo então, com essa estratégia, detectado ainda em fase precoce”, avalia.

Tratamento cirúrgico

A boa notícia é de que a taxa de sobrevida em cinco anos é maior que 90% quando o câncer é diagnosticado em fase precoce. A recorrência é observada entre 2% a 13% dos casos.

Após cinco anos é incomum a recorrência da doença. O médico explica que para pacientes sem acometimento de linfonodos (gânglios linfáticos), uma visita, anual ao médico é recomendada.

Já para paciente com alto risco de recorrência, são recomendadas visitas semestrais com realização de tomografia computadorizada de abdome ou ecografia de abdome para descartar acometimento do fígado.

O tratamento dos tumores do estômago é essencialmente cirúrgico, com retirada de todo ou parte do estômago, associado à retirada de linfonodos. “Nos casos em que o estágio na doença não estiver avançado há reais chances de cura”, garante Ricardo Guzela.

A técnica cirúrgica a ser escolhida depende de uma série de fatores, entre eles, o tamanho, localização, extensão local e a distância da lesão, além do seu tipo histológico. Tais fatores também indicam o prognóstico da doença, ou seja, a chance de sucesso do tratamento.

“Nos casos avançados a radioterapia e a quimioterapia, podem ser considerados, associados ou não à cirurgia, para determinar melhor resposta ao tratamento”, complementa o médico.

Risco

* Consanguinidade – casamento entre pessoas da mesma família
* História de câncer gástrico na família
* Dieta rica em alimentos conservados em salmoura, defumados, embutidos, e pobre em vitaminas A e C (carnes e peixes)
* Tabagismo
* Uso de drogas ilícitas
* Uso nocivo de bebidas alcoólicas
* Nível socioeconômico baixo
* Infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori)
* Anemias, gastrites e cirurgias gástricas prévias (úlcera perfurada)
* Alguns estudos constatam que o grupo sanguíneo A é mais propenso a adquirir câncer gástrico (risco aumentado em 10 – 20%)

Incidência

Também denominado câncer gástrico, os tumores do estômago se apresentam, predominantemente, na forma de três tipos histológicos: adenocarcinoma (responsável por 95% dos tumores), linfoma – diagnosticado em cerca de 3% dos casos – e leiomiossarcoma, iniciado em tecidos que dão origem aos músculos e aos ossos.

O pico de incidência se dá em sua maioria em homens, por volta dos 70 anos. Cerca de 65% dos pacientes diagnosticados com câncer de estômago têm mais de 50 anos. No Brasil, esses tumores aparecem em terceiro lugar na incidência entre homens e em quinto, entre as mulheres.

A alta mortalidade é registrada atualmente na América Latina, principalmente na Costa Rica, Chile e Colômbia. Porém, o maior número de casos ocorre no Japão, onde são encontrados 780 doentes em cada 100 mil habitantes.