Cresce o número de pessoas que esquecem coisas importantes. Muitos estudantes passam a noite estudando e quando chegam na hora da prova dá aquele “branco”.

E, por mais que se esforcem, que tentem puxar pela memória, nada vem à cabeça.

No trabalho, as pessoas perdem compromissos importantes por absoluto esquecimento. Quem nunca se viu em uma situação parecida? Os médicos dão o alerta: se você anda esquecendo coisas importantes, cuidado, seu hard disk – dispositivo de armazenamento de dados mais usado nos computadores – pode estar cheio.

Isso vale para as pessoas que esquecem o local em que deixaram as chaves do carro ou de casa, aniversários de pessoas importantes ou mesmo os compromissos agendados.

Não importa o quê, tem sempre gente esquecendo alguma coisa. Apesar de muitos ainda acharem que isso pode ser coisa “da idade”, a passagem do tempo nada tem a ver com isso.

A todo instante somos bombardeados por uma infinidade de informações. Visuais, gustativas, auditivas, táteis ou sensitivas, essas informações são processadas em várias partes do nosso cérebro e se transformam em memórias.

O psiquiatra Gabriel Roberto Figueiredo explica que memória é a capacidade do ser humano de reter informações. Ela divide-se em três momentos: a memória imediata, que é o registro do que aconteceu nos últimos minutos; a memória recente, que é o registro dos fatos das últimas 24 horas; e a memória remota ou de longa duração, que é o arquivo de tudo o que nos acontece ao longo da vida.

Funções cognitivas

A dificuldade é saber o porquê de algumas informações não ficarem gravadas no cérebro. Segundo os especialistas, essa sobrecarga de informações tem relação direta com os nossos lapsos de memória.

“Esse nervosismo da sociedade contemporânea nos leva, frequentemente, ao prejuízo de todas as funções cognitivas. Então, é possível que as pessoas, passando por estressores psicossociais intensos, venham ter prejuízo da memória”, avalia Figueiredo.

Estudos sugerem que é preciso esquecer algumas coisas para que exista mais espaço no cérebro para as coisas importantes. Na opinião de Mauro Oliveira, neurologista e professor da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, precisamos aprender a priorizar as informações mais relevantes, de modo que o próprio cérebro consiga diferenciar um dado importante de outros que não trariam problemas se forem esquecidos.

“Caso contrário, vai chegar uma hora em que o seu hard disk vai ficar cheio e ele vai escolher o que apagar e, junto disso, irão coisas que não eram para ser jogadas fora”, comparou o especialista.

De acordo com Oliveira, já que a importância que damos a cada informação que recebemos diariamente está ligada às falhas na memória, é possível entender a razão de lembrarmos daquilo que dissemos ao nosso cérebro ser relevante e esquecermos aquilo que não demos muita atenção.

Estabelecer prioridades

O neurologista registra que quando damos importância a alguma informação, usamos nossos sentidos para gravá-la em diversas partes do cérebro. É a memória sensorial.

Para explicar como ela funciona, Oliveira usa o primeiro encontro como metáfora. “No dia em uma moça vai sair pela primeira com um rapaz, ela se arruma, se maquia e passa perfume, ou seja, manda um monte de dados sensoriais para o cérebro sinalizando a importância daquele momento”, reconhece.

O segredo para não se esquecer, segundo ele, estaria em dar relevância ao que precisa ser lembrado.

Assim, para quem estuda, por exemplo, não adianta pegar o caderno na véspera da prova e pensar: “isso é chato, isso não é legal”.

No entanto, se o estudante pega a matéria e, mesmo que não goste dela, dá um tratamento especial, relaciona o que está lendo com algo do seu dia,-a-dia, ele está empregando sentidos e passando aquela informação para a memória de longa duração.

As dificuldades de memória devem ser mais bem investigadas quando causam impacto negativo no nosso dia-a-dia. Investigar as causas dessas dificuldades inclui avaliações clínicas e neuropsicológicas. Para o psiquiatra Orestes Forlenza, a pessoa deve perceber qual é a rotina que está atrapalhando seu desempenho e tentar modificar isso com bom senso.

“Pode significar desde estabelecer prioridades para as informações que ele vai manipular ou utilizar memórias acessórias, como agendas, ou outras estratégias para que ele não tenha de disputar o mesmo espaço nos arquivos cerebrais que ele tem”, avalia.

Interferências

O psiquiatra Orestes Forlenza explica que para evitar dificuldades de memória, a pessoa deve se perguntar se tem algum hábito nocivo. Por exemplo: o consumo excessivo de álcool, o uso de algum medicamento – como os indutores de sono ou tranqüilizantes – que interferem com a memória.

“Isso pode ser revisto pelo próprio indivíduo e corrigido sem qualquer outra intervenção”, admite. Outra coisa importante, lembra o médico, é verificar como está o sono, pois a consolidação da memória depende de um sono adequado, preservado em qualidade e com tempo suficiente.

Finalmente, se a pessoa tem algum distúrbio metabólico ou psiquiátrico, transtornos depressivos ou de ansiedade, que também interferem com a memória. “Na duvida, é sempre recomendável procurar a opinião de um médico”, finaliza.

Cuidados práticos com a memória

* Estabelecer uma rotina de atividades, com horários fixos para dormir, comer, lazer, etc.
* Torne as tarefas mais simples e organizadas
* Insira no dia-a-dia, atividades manuais e exercícios mentais, como ler, jogar, pintar, sem sobrecarga
* Respeite intervalos entre as atividades
* Realize atividades físicas (caminhadas, hidroginástica)
* Ao realizar atividades que exigem concentração, evite detratores (televisão ligada, conversas paralelas)
* Mantenha os objetos de uso frequente sempre no mesmo lugar
* Tente manter o período da noite calmo, com pouco barulho e poucas visitas