Foto: Daniel Derevecki
Medicamento deve ser apenas um ?coadjuvante? no tratamento para reduzir o peso.

Ter o corpo perfeito sem qualquer tipo de esforço. Quem não quer? Muitas pessoas tentam encontrar esta fórmula perfeita nos remédios inibidores de apetite. O Brasil é o líder mundial no consumo deste tipo de medicamento desde 2005, segundo a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Os remédios para emagrecer podem ser utilizados em um tratamento para redução de peso, mas devem ser apenas um ?coadjuvante? neste processo. O uso incorreto e prolongado dos inibidores pode causar dependência.

O Brasil tem um dos maiores índices de obesidade e sobrepeso, com 46% da população acima do peso normal. Tomar os inibidores de apetite faz com que a pessoa perca peso rapidamente. Assim que deixa de tomar, os quilos perdidos voltam. E pode-se engordar mais do que perdeu com o inibidor de apetite. Isto cria um ciclo vicioso, pois a pessoa procura novamente os remédios para emagrecer. Quando acha que está bem, pára. Mas engorda novamente. ?A grande preocupação é a dependência que os inibidores podem causar. Porque toma e perde peso; não toma, volta o peso. E o paciente acaba tomando cronicamente?, afirma o médico endocrinologista Henrique de Lacerda Suplicy, professor de Endocrinologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

De acordo com ele, os inibidores podem ser prescritos para pessoas que já tentaram emagrecer por meio de um programa de dieta e exercícios, mas não obtiveram sucesso. Mas não é tão simples assim, pois qualquer um se aplicaria na condição de tomar o inibidor. Os pacientes precisam ser obesos ou estar com sobrepeso e ter doenças decorrentes da obesidade, como hipertensão e diabetes. ?É errado receitar inibidor de apetite para uma menina de 18 anos e que quer perder 2 quilos?, exemplifica Suplicy.

O endocrinologista Amélio Godoy Matos, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que existem dois tipos de inibidores de apetite: o anfetramona e o femproporex. Estes remédios têm a mesma raiz das anfetaminas, mas não são. ?Os inibidores podem causar dependência, irritabilidade, alterações do humor, entre outros. Entretanto, se vê poucos pacientes utilizando os inibidores sob a forma recomendada. Os medicamentos têm efeitos colaterais. Mas, desde que utilizados adequadamente, os riscos são pequenos?, esclarece. ?As pessoas devem entender que os remédios não vão torná-las magras. Isto só vai acontecer se houver uma mudança radical nos hábitos alimentares e de exercícios?, alerta.

Anvisa adota medidas para coibir abusos

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Sozinho, inibidor não faz milagre. Exercícios e uma alimentação saudável são essenciais para
manter a forma.

Os inibidores de apetites são produzidos industrialmente ou podem ser manipulados. Os remédios comprados nas farmácias convencionais não são considerados problemas pelos médicos. No entanto, o contrário acontece com os manipulados. Normalmente, as fórmulas contém outros remédios além dos inibidores de apetite. ?A grande preocupação é com a fórmula magistral. Os médicos passam doses além das permitidas dos inibidores, junto com laxantes, diuréticos e tranqüilizantes. Existe um abuso disso?, conta o endocrinologista Henrique de Lacerda Suplicy. Alguns médicos acabam receitando uma cápsula apenas com o inibidor e outra com o restante dos medicamentos. O paciente toma as duas cápsulas juntas. ?O que continua dando na mesma?, garante.

Desde janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está adotando medidas para coibir os abusos sobre os inibidores. Foi criado um receituário exclusivo – o B2 – para estas substâncias, com o intuito de ter um controle maior sobre a comercialização. Antes, bastava apenas o receituário azul B1.

?Este é um grupo mínimo de médicos que geram estes abusos, e que prescrevem as fórmulas visando o lucro?, opina Suplicy.

A crítica contra as fórmulas também vem do endocrinologista Amélio Godoy Matos. Sobre os inibidores de apetite, ele acredita que podem ajudar diversos pacientes e que há receios de muitos médicos em receitá-los. ?Há uma hipocrisia na medicina. Muitos médicos preferem dar remédios para controlar cada uma das doenças relacionadas à obesidade do que um inibidor de apetite que pode ajudar no emagrecimento. Controlando o peso, a hipertensão, o colesterol, a diabetes também podem ser controlados?, diz. (JC)