O estudo brasileiro “Percepção do sangramento mensal entre usuárias de pílulas anticoncepcionais”, divulgado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (São Paulo), revelou que o conhecimento sobre a ação hormonal dos contraceptivos é preponderante na decisão de suspender a menstruação. Cerca de 70% das médicas que foram entrevistadas acharam desnecessário o sangramento mensal, enquanto entre as pacientes leigas apenas 30% tiveram a mesma opinião.

Segundo o médico ginecologista Dr. Hugo Maia, professor do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), “não há razões terapêuticas para o sangramento durante a pausa da pílula anticoncepcional. Pelo contrário: há benefícios em não haver sangramento. Além de evitar a gravidez, a adoção da pílula anticoncepcional de uso contínuo(*) minimiza os incômodos da menstruação, diminui os riscos de doenças como endometriose e câncer de ovário e evita o aparecimento de miomas”.

Algumas mulheres já perceberam as vantagens de não ter o sangramento. De acordo com o estudo da Faculdade de Jundiaí, organizado pelo médico ginecologista Dr. Rogério Bonassi, 1/3 das mulheres utilizam pílulas sem pausa na tentativa de suprimir o sangramento mensal. “Essa é uma tendência da mulher moderna que trabalha fora o dia inteiro, tem atividade física e ainda cuida da casa, marido e filhos”, explica Dr. Achilles Machado Cruz, ginecologista e cirurgião do Hospital Alvorada.

Segundo ele, as doenças que se manifestam durante a menstruação e desaparecem quando o sangramento acaba (chamadas doenças ou sintomas catameniais) atingem mais de 50% das mulheres em idade fértil no Brasil. A síndrome pré-menstrual (mais conhecida como tensão pré-menstrual ou TPM apenas), que também pode ser evitada com a contracepção contínua, incomoda cerca de 75% do público feminino fértil.

Muitas mulheres, porém, ainda têm dúvidas sobre a necessidade da menstruação. O estudo organizado pelo Dr. Rogério Bonassi, professor do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí, mostrou as justificativas mais comuns entre as mulheres que acham necessário o sangramento mensal: tentar aproximar ao ciclo menstrual natural, “limpar” o organismo dos hormônios, certificar que não engravidou e prevenir o sangramento inesperado. Segundo o organizador do estudo, porém, “nenhuma dessas razões têm comprovação científica”. Por isso o conhecimento sobre ação hormonal dos contraceptivos é primordial para a mulher decidir se irá suspender a menstruação.


Dr. Hugo Maia, que também é diretor do Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana, em Salvador, explica que “para haver maior aceitação entre as pacientes, a pausa do uso do anticoncepcional foi criada no lançamento da pílula há 40 anos a fim de a paciente ter sangramento mensal e simular um ciclo parecido com ciclo menstrual natural”. Ou seja, por razões culturais, foi incluída a pausa no uso da pílula anticoncepcional. Dr. Maia ressalta ainda que “tomando a pílula continuamente, aumenta a eficácia do tratamento contra a gravidez não planejada”.

Diferentemente da menstruação natural, o sangramento mensal de quem usa a pílula anticoncepcional é resultante da pausa do consumo do medicamento e não da flutuação hormonal que ocorre no ciclo menstrual natural. A usuária de pílula recebe diariamente a mesma quantidade de hormônio que impede a ovulação e, por conseqüência inibe a proliferação do endométrio (parede interna do útero). Quando a mulher pára de tomar a pílula, ocorre um pequeno sangramento proveniente da descamação do endométrio, mas que não pode ser considerado menstruação, pois não houve ovulação nem preparação do útero para receber o óvulo fecundado. Com isso, o sangramento é bem menor, porém, para algumas mulheres, com os mesmos efeitos colaterais de uma menstruação natural.

Segundo estudo norte-americano Sulak de 1997, realizado com usuárias de pílulas anticoncepcionais, durante a pausa do uso do anticoncepcional, cerca de 76% das entrevistadas apresentou cefaléia, 78% cólicas e 32% tensão pré-menstrual. Tais sintomas podem interferir negativamente na vida pessoal e profissional da mulher, alterando sua qualidade de vida. “A suspensão da menstruação é uma opção terapêutica para tratar os sintomas catameniais. Dependendo do caso, o médico pode indicar medicamentos que tratam especificamente cada sintoma, como antiinflamatórios para cólicas e antidepressivos para TPM, por exemplo”, explica Dr. Achilles.

(*) A Libbs Farmacêutica fabrica o Gestionol 28, um medicamento para contracepção contínua de baixa dose, que, além de evitar a gravidez e as doenças catameniais, proporciona uma série de outros benefícios não contraceptivos relacionados às pílulas anticoncepcionais.