Desde os dois anos de idade, o quadro de saúde respiratória da menina C. F., hoje com seis, era de constantes processos inflamatórios do nariz e da garganta, sempre acompanhados de muito catarro, dificuldade na respiração e, às vezes, chiado no peito.

A menina tomou por anos e quase que mensalmente muitos antibióticos, inalações e chegou a ficar internada por doze dias quando passava por seu pior momento.

Nos sete meses de uso do corticóide inalatório a melhora foi bastante significativa, tendo poucas vezes ficado doente e nessas ocasiões a resposta foi mais rápida. “O uso desse medicamento está sendo de grande valia e tem ajudado muito minha filha”, declara sua mãe Agatha.

O pneumopediatra Orlei Kantor Junior, especialista no trato de pacientes com doenças respiratórias crônicas, entre elas, as alergias, diz que causa satisfação ver a melhora a qualidade de vida e o desenvolvimento de crianças portadoras de doenças respiratórias, apesar de muitos insistirem que o uso dos corticóides faz mal à saúde.

“Essa criança padeceu por cinco anos, tomando antibióticos inutilmente, inclusive com internamento sem necessidade. Também, foi exposta excessivamente às radiografias do tórax e da face”, ressalta o médico, salientando que, além disso, seus pais gastaram dinheiro e tempo correndo para farmácias e pronto-socorros.

Uso correto

Outro desgaste notado vem do aspecto emocional da família e da criança. Para o especialista, o pouco conhecimento de leigos e principalmente de profissionais de saúde sobre o manejo correto da medicação atrasa os tratamentos e deixa muitas sequelas nos pacientes.

“O que faz mal à saúde, de verdade, é ver tantas famílias sofrendo por má orientação e a ignorância de algumas pessoas que discutem o que não conhecem”, desabafa Kantor Júnior.

O pneumologista infantil conta que, diariamente, ouve falar que as “bombinhas” fazem mal à saúde, e que há, pelo menos, 25 anos vê crianças e adultos com asma ou rinite alérgica sofrerem anos a fio.

São pacientes que têm má respiração, alterações do sono, cansaço excessivo durante o trabalho, falta de concentração na escola, infecções respiratórias repetidas, refluxo esofagiano e outros problemas de saúde.

“Esses pacientes, quando utilizam corretamente as suas ‘bombinhas’, convivem com melhor qualidade de vida, diminuem seus riscos de infecções e melhoram sensivelmente a sua produtividade diária”, reconhece o médico.

No entanto, depois da melhora, o questionamento é se esse tipo de medicamento vai fazer mal e, mesmo recebendo as devidas orientações, cerca de 40% desistem do tratamento, voltando a sofrer os mesmos sintomas anteriores.

Passeio pelo organismo

Para Kantor essa preocupação tem uma explicação bastante simples. Ele explica que o primeiro corticóide, a “cortisona”, foi sintetizado na década de 1950 e valeu a dois americanos e um polonês o prêmio Nobel de Medicina.

Nesses cinquenta anos, com os avanços tecnológicos, o medicamento foi aprimorado, se tornando nos dias de hoje, indispensável para portadores de tumores, reumatismos, asma, rinite e, até, para transplantados.

Por ser diretamente inalada, a medicação não “passeia” pelo organismo, necessitando de uma dose bem menor e menos tempo para agir. Por exemplo, a dose oral do corticóide em uma crise de asma é, em média, 60.000 microgramas (60 mg) enquanto a dose preventiva é de 800 microgramas (0,8 mg), ou seja, 7 mil vezes menor. Além do inalador, as medicações evoluíram tornando-se muito mais seguras e sem os efeitos colaterais, importantes.

Aprimoramento

O corticóide é um medicamento imunossupressor e imunomodulador. O que significa isso? Imagine uma doença que produz anticorpos contra partes do organismo.

Isso acontece na artrite, na tiroidite, na asma, na rinite, etc. Esses anticorpos vão destruindo o local afetado e impedem sua funcionalidade. O medicamento, quando bem aplicado, impede a ação desses anticorpos, ou seja, impede a destruição progressiva daquela parte do seu organismo.

O corticóide é um produto sintético semelhante e que estimula a produção do cortisol. “Essa substância existe no organismo de todos os mamíferos, inclusive no homem, então, como pode fazer mal se ele existe normalmente no organismo?”, questiona Kantor Júnior, explicando que a utilização do medicamento ajuda a produzir mais cortisol no organismo e isso vai regular a inflamação excessiva.

A cortisona foi desenvolvida em 1950 e, passados mais de cinquenta anos, a indústria farmacêutica aprimorou e desenvolveu substâncias muito mais seguras. O especialista reconhece que, graças a esse esforço, milhões de pessoas conseguem sobreviver a um transplante, controlar uma doença auto-imune ou tratar determinados tipos de câncer. Kantor conclui que os pacientes devem ser orientados sem perda de tempo, lamentando a escassa quantidade de profissionais

Os corticóides trazem inúmeros benefícios para diversos tipos de tratamento, mas continuam incompreendidos.

Imprescindível nos transplantes

O primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi tecnicamente bem sucedido. João Boiadeiro, que recebeu o coração, em 1968, sobreviveu apenas três meses.

O autor do transplante pioneiro foi o cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini. O transplantado teve uma sobrevida de três meses graças às aplicações de elevadas doses da antiga cortisona.

Agora, os pacientes que passam por transplantes têm uma vida nova e não mais uma sobrevida de alguns meses. Descobriu-se que a rejeição seria menos severa se os transplantes fossem realizados entre pessoas (doador e receptor) do mesmo grupo sanguíneo.

Assim, com uma rejeição considerada moderada, o corticóide, a ciclosporina e a azatioprina, juntamente com sofisticadas técnicas cirúrgicas, elevaram a expectativa de vida do transplantado.

No Brasil, pacientes vivem há mais de 20 anos com um novo coração. Esse é hoje o principal benefício do corticóide para transplante de órgãos. Há efeitos colaterais nocivos, é claro, mas a relação custo-benefício é extremamente positiva para quem passa por essa experiência.

O surgimento da “bombinha”

Em 1956, a filha portadora de asma do empresário George L. Maison, presidente da “Riker Laboratory” (hoje a gigante 3M), deu a idéia de um aparelho que inalasse os medicamentos ao invés de tomá-los. Surgiu então o “Medihaler”, uma lata pressurizada com medicação em solução, o precursor das modernas bombinhas inalatórias.