Menina brinca com labrador de fonoaudiólogo.

A convivência entre animais e crianças só traz benefícios, segundo psicólogos e pedagogos. A presença de um bichinho em casa estimula a responsabilidade, a fidelidade e os laços afetivos dos pequenos. Além disso, as crianças também conseguem acompanhar o ciclo da vida com o nascimento, o crescimento, o aparecimento de doenças e a morte do animal.

A psicóloga Ana Paola Lopes Lubi afirma que não há qualquer conseqüência negativa no convívio com animais domésticos. Ela acredita que o vínculo proporciona amadurecimento à criança. “Os pais devem deixar a criança participar dos cuidados e responsabilidades de ter um animal em casa”, orienta. Ela explica que meninos e meninas acabam levando esses novos sentimentos para outras áreas de suas vidas, como na rotina da escola.

“Esse fenômeno chama-se generalização. À medida que o relacionamento entre a criança e o animal se consolida, ela passa a aplicar isso em outros relacionamentos. No caso da fidelidade, a criança tenta construir seus contatos com essa base fora de casa”, comenta Ana Paola. De acordo com ela, os benefícios seguem durante toda a vida, o que resulta em um adulto mais responsável e consciente.

A psicóloga chama a atenção quanto ao convívio com animais exóticos. Para ela, os pais não devem ceder quando os filhos pedem para ter lagartos, iguanas, cobras e outros animais do gênero. “Os pais precisam dizer não e explicar por que o filho não pode ter um bicho desses em casa. Os veterinários também falam sobre isso, pois não se conhece a fundo o comportamento deles ao serem domesticados, e em contato com humanos”, adverte.

Doenças

O alerta também é feito pela organização não governamental (ONG) Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS). Os pesquisadores afirmam que boa parte dos animais silvestres encontrados em lojas carregam vírus e parasitas que podem provocar doenças em humanos. Se o tráfico de animais não for controlado com mais rigidez, novas doenças como a superpneumonia e a gripe do frango podem se tornar cada vez mais comuns. Estima-se que, somente nos Estados Unidos, existam mais de sete milhões de animais exóticos criados dentro das casas. O país registra anualmente 90 mil casos de infecção intestinal contraída por répteis de estimação.

Ana Paola conta que há casos em que os pais simplesmente isentam a família da responsabilidade de cuidar de um animal como esse. “Não adianta abandonar o bicho depois que ele cresce e já não é tão bonitinho como antes. Isso elimina todos os benefícios que o relacionamento com animais pode trazer. Os pais que largam os animais estão dando maus exemplos”, destaca.

Animais podem ser úteis na aula

A presença de animais na escola, dentro das salas de aula, também gera bons resultados. Jussara Riva Finatti, professora de pedagogia da UnicenP e coordenadora pedagógica da Escola Municipal São Luiz, em Curitiba, relata que as professoras sempre levam animais para os alunos conhecerem e conviverem um pouco com os bichos, observando seus comportamentos e estimulando as noções de cuidados.

Mas a visita de um coelho, batizado de Dentinho, acabou sendo especial, há dois anos. A professora Rosane Kuchnir, da 2.ª série do ensino fundamental, gostou do animal e o deixou na sala de aula por mais de um mês. “Ela resolveu abrir a gaiola para ver o que acontecia. As crianças se encantaram pelo movimento do coelho”, afirma Jussara. Com o animal solto, foram criadas regras para o convívio com os alunos, como não levantar rápido ou fazer muito barulho, o que assustava o bichinho. “Na presença do coelho, outras regras surgiram. Uma delas era não deixar cair lixo no chão, pois o coelho poderia comer. As crianças respeitavam porque gostavam de cuidar do bicho”, comenta. Para Jussara, a experiência foi muito interessante. As crianças eram bem agitadas e passaram a ter um comportamento muito mais calmo com a movimentação do coelho, mesmo depois de ele ter ido embora.

Cão estimula crianças especiais em tratamento

A professora doutora Cleybe Vieira, diretora do curso de fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), atende em sua clínica crianças em geral e também especiais. Há dois anos, ela tinha um paciente com lesão cerebral severa, com dificuldades de contato com o ambiente, olhar perdido e corpo sem sustentação.

Em uma das consultas, a criança mudou totalmente seu comportamento ao ver Thor, filhote de labrador, cão de companhia de Cleybe. “O menino era apático e sem disposição para brincar. Quando viu Thor, os olhos ficaram brilhantes e o corpo endireitado”, lembra. “Com autorização da mãe, fomos para o jardim e brincamos com o cachorro, que se aproximava da criança com delicadeza e fazendo brincadeiras. Aos poucos, ela dava comida e escovava o pêlo do Thor.”

Depois disso, a professora resolveu adestrar o cão para que ele pudesse participar da parte lúdica do tratamento. “A brincadeira é a forma de descobrir o mundo e estimular habilidades e sentidos. A criança está bem se souber brincar. O cachorro não participa necessariamente de todos os tratamentos. É uma possibilidade entre tantas outras”, comenta Cleybe. De acordo com ela, o labrador é dócil, gosta de brincar e convoca a criança a participar das atividades.

Vínculo

A professora revela que a terapia com animais favorece o estabelecimento de vínculo da criança, estimula a interação lúdica, faz com que ela se submeta às regras das brincadeiras, aumenta a auto-estima e a confiança em si própria e ainda desenvolve a confiança no poder das palavras, pelo uso dos comandos verbais. “O Thor foi adestrado para responder por palavras e por gestos. Quando a criança ainda não consegue articular e falar direito, faço o gesto acompanhando. À medida que a fala é desenvolvida, deixo de fazer o gesto e o cachorro obedece somente ao comando verbal da criança”, explica. “Como o Thor é enorme e as crianças são pequenas, elas sentem-se poderosas quando conseguem dominá-lo sozinhas.” (JC)