Há 21 anos, quando Dr. Gilberto da Costa Freitas, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), iniciava as primeiras fertilizações artificiais, o assunto era tratado no consultório, praticamente, como um segredo de estado. Para evitar constrangimentos dos pacientes, ele marcava consultas com horários distantes. Afinal, ninguém queria ter que falar com estranhos. Muito menos, ser visto como estéril.

Enquanto isso, na TV, a autora Gloria Perez tentava popularizar o tema em Barriga de Aluguel (1990), com o caso da personagem Ana (Cássia Kis Magro), que após vários tratamentos sem conseguir engravidar, recorreu à barriga-de-aluguel Clara (Cláudia Abreu). Timidamente, a infertilidade ganhava espaço na dramaturgia e, assim, repercutia na esfera pública.

Médicos, psicólogos e até padres entraram na discussão. Hoje, o debate sobre reprodução humana não causa o mesmo burburinho, mas prova que as novelas aprenderam a explorar temas ligados à saúde. Não por acaso, só na Globo, três personagens são estéreis – Suzana (Daniela Escobar) e Lúcio (Thiago Lacerda), da novela das 6 A Vida da Gente, e Paulo (Dan Stulbach), de Fina Estampa. “Discutir temas sérios agregam credibilidade às novelas e geram audiência”, justifica o estudioso Julio Weiner, diretor da TV PUC.

A explicação ecoa nas tramas que estão no ar atualmente, já que entre SBT, Record e Globo, são nove os personagens com algum drama clínico. Entre as doenças, estão loucura crônica, de Thiago Paixão (Mário Cardoso) em Amor e Revolução (SBT); a bulimia de Carla (Mel Fronckowiak) de Rebelde (Record); três casos de HIV em Vidas em Jogo (Record); os três já citados personagens inférteis da Globo e ainda a recém-saída do coma Ana (Fernanda Vasconcellos), de A Vida da Gente.

O problema da abundância de doentes, segundo o clínico geral Antonio José Sproesser, que apresenta o E aí, Doutor?, na Record, é o excesso de informação jogada ao público. “O brasileiro já gosta de chegar no médico com um diagnóstico. Então, quando é chamada a atenção para um assunto de forma desnecessária, isso pode se tornar torna-se perigoso”, diz. Adriano Segal, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, concorda. “O efeito colateral de se falar de bulimia, por exemplo, é dar um mau exemplo. A pessoa pensa: ‘preciso perder dois quilos. A personagem vomita, vou fazer'”. As informações são do Jornal da Tarde.

AE