Estudo feito pela Sociedade Brasileira de Cefaléia (SBCe), revela que, no Rio Grande do Sul, aproximadamente 1 milhão e 790 mil adultos sofrem com a enxaqueca, sendo 236 mil casos só na cidade de Porto Alegre, com base na estimativa de população do IBGE para 2009.

Pesquisas publicadas recentemente pela entidade demonstraram que, a região Sul do país ficou na segunda colocação no ranking nacional, apresentando média de 16,4% de indivíduos com enxaqueca. Em relação à cefaleia do tipo tensional, a região está na primeira colocação juntamente com o Sudeste com incidência de 14%. De acordo com os neurologistas Fernando Kowacs e Liselotte Barea, membros da Sociedade Brasileira de Cefaleia e presidentes do XXIV Congresso Brasileiro de Cefaléia, realizado neste final de semana, os jovens adultos entre 30 e 39 anos são os que mais sofrem com a enxaqueca, pois 27,1% das mulheres e 18,1% dos homens dessa faixa etária são afetados.

“Isso em parte ocorre devido à flutuação hormonal durante o ciclo reprodutivo da mulher”, explica Kowacs. Outro estudo revela que crianças e adolescentes de Porto Alegre também sofrem desse mal. Mais de 72% delas se queixaram de dor de cabeça no último ano. “Vale ressaltar que 9,9% dessas crianças e adolescentes se referiam a cefaleia do tipo enxaqueca, havendo igual distribuição entre meninos e meninas na faixa etária de 10 a 18 anos”, conta Liselotte Barea.

Analgésicos

Pedro Kowacs também faz outros alertas à população, caso alguma pessoa tenha crises diferentes às sofridas anteriormente. O especialista adverte que pessoas com mais de 50 anos de idade ou que sofram algum tipo de câncer ou HIV/Aids devem ter cuidados redobrados.

“Mesmo nos outros casos, quando as crises não respondem aos analgésicos comuns ou quando passam a ocorrer em mais que 2 a 4 ocasiões por mês, o auxílio médico deve ser buscado”, recomenda, alertando que o consumo indiscriminado de analgésicos também deve ser evitado.

“Em ocasiões muito raras, crises de enxaqueca podem causar infartos cerebrais”, explica o neurologista. Além disso, estudos epidemiológicos mostraram que indivíduos com enxaqueca apresentam, aproximadamente, o dobro de chances de apresentar infartos cerebrais e cardíacos ao longo da vida, principalmente no caso da migrânea com aura.

Nas mulheres portadoras de migrânea com aura que fumam e utilizam anticoncepcionais combinados, o risco de infarto cerebral é bem mais expressivo que no resto da população jovem.

Até três dias

Os tipos de dores de cabeça mais simples de interpretar, tratar e resolver são aqueles cuja causa é aparente, como nos casos das cefaléias determinadas pelo estresse emocional (dor tensional) ou por um acidente que afete a musculatura do pescoço. Para elas, o uso de medicação ocasional pode resolver.

Com a enxaqueca, a identificação dos fatores desencadeantes da dor é mais complexa. A cefaléia – que tende a diminuir nas primeiras 24 horas, mas pode se estender por até três dias – é apenas um dos sinais da doença.

Alterações visuais, aversão à luz e à comida, vômitos e letargia também são outros sintomas frequentes que ajudam a compor o quadro. Muitas pessoas levam meses até se render à evidência de que deveriam procurar ajuda especializada para tratar de enxaqueca crônica.

Além de tomar os remédios prescritos por um médico para o tratamento agudo (somente nas crises) e preventivo (entre as crises, para induzir o controle da doença) é necessário observar se essas crises estão associadas a algum fator determinante, como alimentação, ingestão de bebidas ou aromas.

Falta ao trabalho

Dormir por muito tempo, passar por emoções fortes e experimentar alterações hormonais e ambientais (como viagens ou mudanças bruscas de temperatura) também podem contribuir para a incidência da doença.

A identificação dos fatores deve ser acompanhada pelo médico a fim de que o paciente não seja prejudicado pela mudança dos hábitos alimentares ou so,ciais. Pedro Kowacs observa que as enxaquecas podem atormentar desde crianças até pessoas maduras.

Na infância, a doença acomete igualmente os dois sexos. Na idade adulta, devido aos fatores hormonais, as mulheres estão mais propensas ao distúrbio. As dores de cabeça em geral são responsáveis por uma média de uma semana anual de inatividade, se transformando na maior causa mundial de faltas e improdutividade no trabalho.

Ansiedade e o distúrbio

Dentre os multifatores que desencadeiam a enxaqueca, a ansiedade está entre eles. De acordo com estudo do neurologista Mário Peres, os sintomas da ansiedade estão muito relacionados com o distúrbio.

“O sintoma de preocupação excessiva e antecipação de problemas esteve presente em 88% dos pacientes com enxaqueca comparados com apenas 40% dos que não tinham dor de cabeça”, confirma o médico. Com efeito, o diagnóstico de ansiedade generalizada (doença da ansiedade excessiva) afetou 50% das pessoas com enxaqueca, comparadas a 15% dos controles sem dor.

Outros sintomas, como irritabilidade, tensão muscular, problemas de sono, cansaço, problemas de concentração e tensão excessiva também foram muito frequentes nos sofredores de enxaqueca. Em média 85% comparados a 30% das pessoas sem dor.

Pessoas com transtorno de ansiedade sofrem constantemente por reviverem fatos passados carregados de carga de tensão ou sofrimento. Também costumam visualizar o futuro e imaginar situações nas quais depositam esperanças e que, dificilmente, se concretizarão – atitude essa conhecida como antecipação. Para Mario Peres, a ansiedade é um elemento importante na gênese da enxaqueca e bastante frequente em sintomas experimentados pelos pacientes.

A migrânea

A migrânea é uma dor que vem sendo descrita há milhares de anos. É popularmente conhecida no Brasil e nos países de língua espanhola como enxaqueca, que significa “partido ao meio”.

Erroneamente, porém, muitas vezes a palavra enxaqueca é utilizada com sinônimo de dor de cabeça, enquanto, na verdade, ela é uma das condições que a causa. Com o intuito de padronizar a denominação dessa patologia nos meios científicos, atualmente é usado o termo migrânea.

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A dor de cabeça é o alarme que toca quando algo está errado no organismo, fazendo com que essa “falha” seja percebida, entendida e tratada.