A resistência bacteriana causada pelo uso antibióticos inadequados preocupa especialistas do mundo inteiro e mobiliza os grandes fabricantes de medicamentos. Embora a indústria invista cada vez mais em pesquisa e desenvolvimento de antibióticos mais eficazes e menos agressivos, os médicos pedem cautela na prescrição dessa classe de medicamentos. Em recente passagem pelo país, o médico Ron Dagan, professor de Pediatria e Doenças Infecciosas na Universidade de Ben-Gurion e diretor da Unidade de Doenças Infecciosas Pediátricas do Hospital Universitário de Soroka, Israel, ressaltou que o uso de antibióticos ainda é essencial em alguns casos mas que o importante é combater de maneira certeira o tipo de bactéria para que a doença não retorne. O médico possui grande experiência em doenças pediátricas, principalmente em otite média aguda, muito comum entre crianças entre 2 e 7 anos.

Segundo Dagan, países como Brasil e Estados Unidos prescrevem antibióticos em excesso e sem necessidade. Esse uso prolongado pode causar efeitos colaterais graves como a destruição da flora intestinal da criança. Para evitar a resistência bacteriana, o especialista ainda propõe que sejam adotados procedimentos de prescrição de antibióticos no país para que o médico pode escolher o antibiótico que melhor se aplica ao caso.

O uso indiscriminado de antibióticos está impulsionando o surgimento de bactéria resistentes a esses medicamentos? Ron Dagan – Já existem superbactérias em várias comunidades. Com o passar do tempo fica mais fácil transmitir essas bactérias resistentes quando se circula em ambientes fechados, como hospitais, escolas ou até me casa. Isso ocorre principalmente com bactérias do trato respiratório. Não existe nenhuma comunidade que não tenha sido contaminada por essas superbactérias.

Os efeitos dessa resistência podem ser revertidos de alguma forma? Como? Ron Dagan ? O mais importante é conter a resistência que já existe e a única maneira de fazer isso é selecionar melhor os antibióticos utilizados. É consenso entre os médicos internacionais a indicação de um medicamento que mistura dose dobrada de amoxilina e clavulanato de potássio e os resultados têm se mostrado satisfatórios. É um medicamento mais forte, seletivo e por isso eficaz. O uso de medicamentos como esse aumenta o sucesso no tratamento e diminui as chances de ressistência bacteriana e, por conseqüência, reincidência da doença. Dessa forma, conteremos as bactérias e trataremos a doença de maneira apropriada.

Existe alguma forma de se investir mais na prevenção dessas doenças, ao invés do tratamento? Ron Dagan ? É claro que seria muito mais barato e eficaz investir em prevenção mas infelizmente não é possível prevenir tudo. Nos próximos dez anos, não poderemos reduzir tanto o índice de infecções a ponto de não precisarmos mais usar antibióticos. Nos países em desenvolvimento, onde há muitas pessoas morando em um único espaço, se locomovendo em meios de transportes lotados e muitas crianças em uma mesma classe, as infecções bacterianas ainda vão se espalhar facilmente. Os antibióticos são necessários em alguns casos. O importante é usá-los com cautela.