Além de transferirem gens aos filhos, os pais repassam, também, o seu próprio estilo de vida.

As crianças observam atentamente e repetem suas ações. Muitas se negam a absorver um comportamento diferente do que o que foi ensinado pela família.

Assim, não há como fazê-los mais ativos, se os familiares se tornam sedentários.

Por exemplo: não há como obrigá-los a tomar café da manhã, se os familiares saem em jejum para trabalhar.

“As crianças não fazem compra no supermercado”, lembra a endocrinologista Ellen Paiva, lembrando que o alimento colocado à mesa é aquele que os pais trazem para casa. São eles os responsáveis pelo cardápio da família e é tarefa deles oferecer opções saborosas e saudáveis de alimentos às crianças.

“Quando não há organização por parte dos pais, as crianças ficam à mercê da propaganda de alimentos, comem guloseimas e beliscam fora de hora”, observa. A especialista comenta que, quando se investiga o preparo dos alimentos nas residências das crianças obesas, essas questões tornam-se bem claras.

Em muitos casos, os erros não estão na forma de preparo dos alimentos, mas na escolha deles. Na maioria das vezes, segundo a endocrinologista, a família consome alimentos industrializados em excesso.

Falta de tempo

São “sopões”, macarrão instantâneo, lanches monótonos e pouco nutritivos. A principal alegação dos pais é de que não têm tempo para cozinhar ou não sabem preparar uma refeição.

“Certamente, a criança não terá hábitos saudáveis, pois desde pouca idade não se acostumou os alimentos mais nutritivos”, reconhece a endocrinologista.

As importantes mudanças que ocorreram no comportamento alimentar infantil nos últimos anos têm aumentado a incidência de fatores de risco cardiovascular em crianças.

Dentre os principais fatores de risco, a obesidade e o sobrepeso na infância atualmente aparecem em proporções epidêmicas.

A endocrinologista e nutricionista Ana Maria Lottemberg reconhece que o padrão alimentar praticado na infância causa efeito em longo prazo sobre a saúde, já que podem ser desenvolvidas mesmo depois da adolescência, determinando o aparecimento de complicações na vida adulta.

“Atualmente, a maior parte das crianças não se alimenta adequadamente e algumas estratégicas e recomendações alimentares precisam ser estabelecidas”, alerta a especialista.

No seu entender, durante a infância é importante que os pequenos entendam a necessidade de modificar seus hábitos alimentares. Além disso, a noção da importância de hábitos saudáveis só ocorrerá se forem criados meios práticos para isso, que dependem da atitude dos pais, como, por exemplo, não cederem às vontades dos filhos, estimularem o bom hábito alimentar e estarem igualmente conscientes sobre os riscos e a necessidade de mudar.

Erro alimentar

Cerca de 20% das crianças brasileiras sofrem de obesidade. O mal atinge as crianças de todas as classes sociais, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Além das possíveis complicações com a auto-estima, que o apelo estético de um padrão sempre magro impõe, a doença traz inúmeras consequências clínicas. A obesidade deve ser prevenida tão logo a criança nasça, evitando assim, o surgimento de obesos no futuro, com sérios riscos de doenças como a hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, transtornos coronarianos e problemas ortopédicos.

Para a endocrinologista Margaret Boguszewski é muito importante os pais terem em mente que a maioria das crianças gordinhas não apresentam nenhum distúrbio hormonal.

“Apesar de o fator genético trazer uma importância significativa, em geral a maior causa da obesidade infantil ainda é o erro alimentar. O crescente hábito da ingestão excessiva de alimentos nocivos, à saúde, como sanduíches, frituras e doces”, alerta.

Outro fator que contribui para a proliferação da doença é a falta de atividade física. Pesquisas revelam que cerca de 30% das crianças, entre 8 e 16 anos, passam 4 ou mais horas em frente à televisão diariamente.

Com isso, deixam de correr nas praças, andar de bicicleta e participar de outras brincadeiras de boa atividade física. Esses estudos procuram relacionar o hábito de ver TV, jogar videogame e navegar na internet com a obesidade infantil.

Cardápio específico

De acordo com a médica, crianças em idade pré-escolar (até 6 anos) que apresentam apetite exagerado ou uma preocupação acentuada com alimentos merecem atenção especial.

“Nesta idade, normalmente, as crianças não dão muita importância à comida”, observa Margaret.

Para elas, a médica sugere uma educação nutricional, nunca uma dieta. Detectado o problema, deve ser recomendado um tratamento completo para a obesidade, que inclui um cardápio específico, atividades físicas e, também, um eventual tratamento emocional, recomendam os especialistas.

Atualmente, poucas famílias conseguem preservar o hábito de realizar as refeições em casa, junto à família. Crianças que ainda têm essa oportunidade apresentam alimentação de melhor qualidade, “pois ingerem maior quantidade de frutas, vegetais, fibras, cálcio, ferro e vitaminas do complexo B e E.”, atesta Ana Maria Lottemberg.

Outras alterações do comportamento alimentar em crianças foram observadas na freqüência e na composição das refeições e lanches. Poucos jovens tomam café da manhã, abusando cada vez mais lanches.

“Aproximadamente 98% dos pequenos se alimentam de três ou mais lanches por dia, e destes, mais da metade o fazem por cinco ou mais vezes”, completa a nutricionista.

Mudança de hábito

* Deve existir um equilíbrio na ingestão energética
* A prática de atividades físicas e de jogos esportivos deve ser diária
* Limitar o sedentarismo, deixando a criança não mais do que duas horas por dia em frente à TV, videogame e/ou computador
* Acostumar a oferecer legumes, frutas e verduras durantes as refeições
* Leite e derivados devem ser consumidos diariamente
* Crianças e adolescentes que apresentam hábitos alimentares inadequados devem contar com a intervenção da família.
* Os pais precisam controlar o que os seus filhos comem e quais são os momentos adequados para o consumo de cada tipo de alimento
* É fundamental que os pais adotem o modelo “coma o que eu como” e não “coma o que eu mando”.

Por onde começa a mudança

* Na introdução de cardápios mais saudáveis nas escolas
* No maior incentivo à prática de atividades físicas
* Na restrição e na adoção de normas mais severas para a propaganda de alimentos
* Na disseminação das boas práticas de educação nutricional
* Na alocação de mais recursos para o tratamento da obesidade