Muitas pessoas ficam alarmadas ao saber que seu médico sucumbiu a uma doença. Parece que médicos existem para tratar das pessoas doentes e, portanto, estão simplesmente proibidos de ficarem doentes. É comum o médico, diante de alguns sintomas, fazer consultas com amigos especialistas, pessoalmente ou por telefone, muitas vezes, sem mencionar que o paciente dos sintomas descritos é ele mesmo. Assim, medica-se por orientações ou sugestões de colegas que desconhecem estar diante do próprio paciente. O mesmo acontece com alunos do curso de Medicina que indagam a seus professores sobre informações de determinadas doenças no ?tio ou vizinho? e que, na verdade, são para ele mesmo. A pessoa (médico e ou aluno) começa o discurso na terceira pessoa e gradativamente passa a utilizar a primeira pessoa, mas não se coloca na posição de necessitar de ajuda, pois isso ?parece? denegrir sua imagem.

?Não gosto de ir ao médico?

Para se ter uma idéia do quanto é difícil tratar pacientes médicos, valem os exemplos de Luiz (nome fictício) que já tentou fugir de um hospital. Sua colega, M. H. morre de medo de ir ao médico. Até aí, nada demais, não fosse um pequeno detalhe: os dois são médicos. Profissionais dedicados e experientes em suas áreas de atuação. Cada um tem na ponta da língua as razões para agir com tanto receio. Ela, por exemplo, prega para seus pacientes a necessidade e a importância da prevenção e do acompanhamento médico, mas quando se torna paciente a história é diferente. ?Não gosto de ir a médico. Tenho a mania de pensar sempre no pior. Se sinto uma dor no peito, logo espero um infarto?, brinca. Por causa desse temor, costuma avaliar seus exames sozinha, além de ter o hábito, condenado pela maioria dos médicos, de se automedicar. Ela só procura ajuda de um colega quando não tem sucesso. Foi o que aconteceu em junho, ao tentar se curar sozinha de uma gastrite.

O mesmo ocorre com seu ginecologista. ?Sei que preciso visitá-lo a cada seis meses, mas acabo prolongando este período. Se me pedem um exame, só volto com o resultado meses depois.? Esta postura faz com que ela sempre tome bronca de seus médicos. M. H. tem argumentos para se defender: ?O conhecimento que tenho sobre saúde me bloqueia e não me deixa agir tão livremente como um paciente comum?, comenta.

Para Luiz, é natural a dificuldade de procurar outro médico. ?Uma vez já me aconteceu de questionar a prescrição de certo medicamento.? No entanto, ele discorda de que essa categoria seja formada por maus pacientes. Para ele, o grande problema é o atendimento oferecido pelos colegas. No seu entender é preciso criar serviços específicos para a comunidade médica. Luiz constata que, geralmente, o colega não conversa muito com seu paciente médico, acreditando que ele conheça todos os pormenores da doença que motivou a consulta. ?Enfim, não o trata como um paciente comum", reconhece.