A ciência brasileira cresceu rapidamente e amadureceu, nos últimos vinte anos, e agora prepara-se para colocar o conhecimento científico acumulado nesse período a serviço do desenvolvimento tecnológico. ?Hoje, o grande desafio é unir a universidade à indústria?, disse o professor Afrânio Aragão Craveiro, da Universidade Federal do Ceará.

Um dos muitos nomes que vêm se destacando nessa nova fase da ciência brasileira, Craveiro é reconhecido no Brasil e no exterior por suas pesquisas com a quitosona ? uma fibra retirada da cabeça do camarão e da lagosta. Seu trabalho de Craveiro mostra que a pesquisa brasileira quase sempre se destaca quando busca inspiração na realidade do País.

Segundo ele, o Brasil chegou à sua boa forma atual graças às ações governamentais que aceleraram a formação de pesquisadores de alto nível, nos anos recentes. ?O País já tem uma massa crítica de pesquisadores que estão produzindo em várias áreas do conhecimento, e com relevância internacional?, diz Craveiro. ?Tem aí o pessoal do genoma da soja, tem a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) desenvolvendo sempre novos produtos. Essa massa crítica de pesquisadores foi criada nos últimos anos pelos programas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)?.

Unir a universidade à indústria, para Craveiro, significa ?desenvolver o país utilizando a nossa capacidade tecnológica científica, como todos os outros países fazem?. Craveiro explica que o conhecimento, atualmente, tem um elevado valor econômico e é uma das bases da economia. ?Nós estamos na era do conhecimento e, sem dúvida nenhuma, um país que detém uma massa de conhecimento científico, como o Brasil já detém, pode perfeitamente utilizar isso em benefício da sociedade?, afirma ele.

Craveiro coloca o seu conhecimento no centro dessa nova tendência, no Brasil. Umas das áreas em que atua, por exemplo, tem a ver com a necessidade de minimizar os danos ambientais que podem ser causados pela extração e pelo transporte de petrróleo. Sua equipe, na Universidade Federal do Ceará, faz parte de uma grande rede de pesquisas, a Recupetro (Rede Cooperativa de Recuperação de Áreas Contaminadas por Atividades Petrolíferas).

Com cerca de 120 pesquisas científicas e artigos publicados, Craveiro acha difícil apontar um único trabalho como o mais importante. ?Algumas pesquisas que nós consideramos relevantes, por exemplo, são as que nós realizamos com a quitosana que é uma fibra retirada da cabeça do camarão e da lagosta, aqui no Ceará. Essa é uma pesquisa extremamente importante porque é regional e contribui para o desenvolvimento regional. É uma pesquisa que agrega valor a um subproduto da caatinicultura. Com ela, o grupo do Ceará se destaca no mundo, como um dos pioneiros nesse campo?.

A quitosana é um grande achado: pode ser utilizadas em um número muito grande de aplicações, uma delas é o controle da obesidade. No Brasil ela é comercializada para as pessoas que querem perder peso. ?Utiliza-se a quitosana pelo fato de ela ter afinidade com a gordura, e elimina essa gordura armazenada no organismo?, explica o cientista.

Fora do Brasil, a quitosana é extremamente utilizada na Ásia, no Japão, na China, na Coréia e nos Estados Unidos. Craveiro conta que, além de eliminar gordura, ela tem propriedades impressionantes, algumas delas pesquisadas no Brasil, diz ele. ?Fabricamos células foto-voltaicas nas quais a quitosana entra como suporte. Também estamos utilizando bandagens anti-hemorrágicas com a quitosana. Nós podemos fazer a purificação, em mares contaminados com o petróleo, utilizando a quitosana. Ela tem uma centenas de aplicações?.

O maior estímulo que o pesquisador brasileiro encontra no meio universitário, do ponto de vista de Craveiro, é a busca pelo desconhecido. ?Principalmente os jovens que estão começando. É a busca do desconhecido e a necessidade de você contribuir efetivamente para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Isso é a grande motivação dos cientistas na área de pesquisa básica?.

Ele mesmo está agora tentando decifrar os segredos da casca da soja. ?Nós temos vários projetos em vista, e um deles, que eu consideraria muito importante, seria a produção do penitol ou dequiro inositol, que é uma substância abundante na casca da soja e também existente em uma planta aqui do Nordeste, chamada algaroba?. O penitol vem sendo utilizado mundialmente para o controle da diabete. ?É uma droga realmente nova, extremamente cara, e esse é o projeto a que estamos dedicando maior atenção neste momento?, afirma Craveiro.

Ele diz que não vê dificuldade em levar avante suas pesquisas porque o nordestino, e o cearense em especial, é muito criativo. ? Nós, que trabalhamos com idéias novas, imaginávamos que íamos ter muito poucas idéias novas. É um ledo engano, as idéias aparecem aqui em profusão. São muitas. Oriundas exatamente da criatividade do povo cearense?. Isso, para ele, vem da terra: ?transformar essa terra praticamente árida, como o cearense transforma, é um certificado de que nós temos realmente o nosso povo como a nossa maior riqueza?.