O mundo está engordando. Recentes pesquisas dão conta que os brasileiros estão cada vez mais obesos por conta da má alimentação. No entanto, apesar de parecerem bem nutridas, uma parcela da população pode estar sofrendo de um mal cada vez mais frequente no mundo contemporâneo: a fome oculta, que consiste na carência de determinados nutrientes no organismo, desenvolvida, principalmente, em pessoas que não fazem alimentações que contemplem os variados grupos alimentares.

De acordo com a nutricionista Tatiana Pires, consultora da Associação Brasileira de Alimentos Para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), o transtorno é conhecido como a deficiência mundial na dieta de vitaminas e minerais (micronutrientes essenciais) e acomete mais de dois bilhões de pessoas.

Este déficit dietário produz drásticas consequências na saúde pública de diversos países, especialmente em gestantes e crianças, uma vez que prejudicam o crescimento. “O mal, muitas vezes, não é clinicamente evidente e por isso recebe o nome de fome oculta”, revela a consultora.

Segundo a especialista, sua maior incidência se dá em regiões de poucos recursos, em que os alimentos muitas vezes não são seguros para consumo e as pessoas estão mais vulneráveis.

De acordo com dados da Abiad, a pobreza, a falta de acesso à uma alimentação adequada e a alta incidência de doenças infecciosas são fatores chaves para o surgimento da síndrome.

Educação nutricional

Ao suprimir refeições, ingerir sempre os mesmos alimentos e trocar a ingestão de alimentos nutritivos por outros de baixa qualidade nutricional são os principais pecados cometidos à mesa pelo brasileiro. “Dois terços da população tem dieta inadequada em quantidade e qualidade”, lamenta Andréa Ramalho, consultora do Ministério da Saúde.

Não somente a saúde pública é prejudicada com a fome oculta. A deficiência pode representar uma importante barreira no crescimento sócio-econômico de um país, assim como na educação e na produtividade.

Conforme a opinião de Tatiana Pires, uma sociedade que sofre de baixa imunidade pode contrair doenças com mais facilidade, reduzindo sua capacidade mental e a produção no trabalho.

O combate à síndrome já tem uma longa trajetória. Esse foi o principal tema da Conferência Internacional de Nutrição, realizada em Roma, em 1992, com a presença de 159 países que endossaram essa preocupação em um documento, a Declaração Mundial da Nutrição.

Naquela ocasião, os participantes se comprometeram a realizar campanhas para eliminar as deficiências de iodo, vitamina A e de outros micronutrientes importantes, como o ferro.

Entre as formas mais viáveis de combate ao distúrbio estão a fortificação de alimentos, a diversificação na dieta, ações de educação nutricional e a prática de exercícios regulares, além da suplementação de vitaminas e minerais.

Vitaminas e minerais

Todavia, não é somente nos países subdesenvolvidos que ela é encontrada. Países com grande oferta de alimentos industrializados também sofrem do mal, como por exemplo, os Estados Unidos.

Nesses casos, a obesidade e a fome oculta afetam a mesma população por conta dos hábitos de consumo – menor tempo de preparo, abuso nos fast foods, etc. “A população tem amplo acesso a alimentos com baixas quantidades de vitaminas e minerais, aumentam de peso e são carentes de  micronutrientes”, salienta a especialista.

Seguir uma dieta saudável e equilibrada, variada em calorias, carboidratos e proteínas é o primeiro passo para evitar a deficiên,cia nutricional. Quando a pessoa não consegue adequar a alimentação às necessidades do seu organismo é importante a orientação de um médico ou nutricionista.

O consumo de vitaminas e minerais é vital para a manutenção de nossa saúde. “Quando não há disponibilidade de alimentos – ou a necessidade diária excede a capacidade de consumo alimentar – os suplementos vitamínicos podem e devem ser consumidos”, recomenda a nutricionista Vanderli Marchiori, ressaltando que o consumo de vê ser feito sempre com orientação especializada de um nutricionista ou médico.

Segundo a especialista, muitos casos de obesidade estão relacionados à baixa concentração sanguínea de algumas vitaminas e minerais. “Nesses casos, a suplementação passa a ser fundamental no tratamento do paciente”, confirma.

A síndrome da fome oculta pode ser detectada por meio de exames de sangue, sendo que o mais utilizado é o hemograma com dosagem de hemoglobina e análise das reservas de ferro.

O consumo inadequado de nutrientes é difícil de ser detectado, mas pode resultar em consequências graves ao organismo.

Consumo de nutrientes

Crianças e adolescentes: consumo de alimentos com baixa densidade de micronutrientes (pão e macarrão), além de consumo irregular de alimentos (sem horário definido para a refeição), e dieta regular (não variada) são as principais causas de fome oculta neste grupo.

Isso pode impactar no sistema imunológico, além de afetar o crescimento e desenvolvimento motor e a capacidade mental. Esse grupo deve consumir quantidades adequadas de vitamina A, C, D, do complexo B, assim como cálcio, iodo, ferro e zinco.

Idosos: normalmente não contam com uma dieta balanceada devido ao acesso restrito ou a preferência a determinados grupos de alimentos. A fome oculta promove perda de apetite, alteração na percepção sensorial, problemas digestivos e depressão.

Esse grupo deve ser suplementado principalmente com quantidades adequadas de vitamina A, complexo B e vitamina C, bem como vitamina D, devido à baixa mobilidade e exposição solar.

Gestantes e lactantes: existe a necessidade de se aumentar o consumo de certos micronutrientes durante a gestação e o aleitamento materno. A suplementação com ácido fólico, vitamina A, B12, D, ferro e cálcio é importante nesse período.