O tema já inspirou algumas composições musicais, sem contar as inúmeras e repetidas piadas nas rodas de amigos. Isto acontece com a gagueira.

De maneira bem humorada, seus autores remetem a um problema de fala que tem atormentado crianças e adultos.

São inúmeros os exemplos de pessoas gagas ao longo dos séculos. Pelo que se tem conta Aristóteles, Charles Darwin, Moisés, Marylin Monroe, Isaac Newton, Theodore Roosevelt, Rei Jorge VI e Winston Churchill faziam parte dessa legião.

No passado, a gagueira era entendida como um fenômeno de natureza psicológica que não tinha tratamento. Manifestava-se na infância e acompanhava seu portador até a morte. Em muitos momentos, transformava-se em motivo de chacota o que perpetuava a dificuldade e aumentava o constrangimento.

Ao contrário, gagueira tem cura. Quanto mais precoce o tratamento, melhores serão os resultados. Além do que, cientistas e pesquisadores continuam a realizar estudos para detectar a causa do problema.

Segundo especialistas do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), o problema central da gagueira consiste em uma dificuldade do cérebro para sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar automaticamente para o próximo.

Desta forma, a pessoa consegue iniciar a palavra, mas fica “presa” em algum som ou sílaba até que o cérebro consiga gerar o comando necessário para dar prosseguimento ao restante da palavra.

Disfunção cerebral

Com efeito, a gagueira é um distúrbio em que acontecem quebras ou rupturas involuntárias no fluxo da fala. Ela é caracterizada por repetições de sons, sílabas, palavras, prolongamentos, bloqueios e pausas.

“A pessoa que gagueja sabe exatamente o que quer dizer, mas tem dificuldade na automatização e na temporalização dos movimentos da fala”, explica a fonoaudióloga Érica Ferraz.

Segundo a especialista, a pessoa com gagueira não possui nenhum problema na boca ou na língua nem dificuldade para elaborar o raciocínio. A disfunção é percebida no cérebro. “É por isso que estudos apontam quem o distúrbio não está relacionado à inteligência e também não é contagiosa”, ressalta a fonoaudióloga.

Além das causas neurológicas, estudos científicos também indicam que a gagueira pode ser causada por múltiplos fatores, entre eles, o genético – em que pessoas da mesma família, de diferentes gerações, carregam o gene responsável pela gagueira, que pode ou não se manifestar, dependendo da interação com os fatores sociais e psicológicos a que a pessoa é exposta. Também pode ter como causa, fatores orgânicos, como disfunções ou lesões cerebrais.

Mais homens

A fonoaudióloga Patrícia Mandrá explica que o tratamento é feito com fonoaudiólogo e em alguns casos, até por uma equipe multidisciplinar, que envolve psicólogos, terapeutas e outros especialistas.

“A cura é obtida dentro do nível de disfluência de cada portador, assim como os resultados do tratamento também dependem da idade com que se diagnostica o distúrbio e da época em que se inicia o tratamento”, reconhece. No Brasil não há dados sobre a incidência da gagueira. O distúrbio afeta indivíduos de qualquer faixa etária.

Curiosamente, a gagueira afeta mais homens do que mulheres. As pessoas com gagueira podem ser divididas em dois grupos: aquelas que possuem gagueira em decorrência de aspectos emocionais e ambientais e outras que têm uma pré-disposição genética.

No primeiro caso, o distúrbio é causado por um estresse comunicativo. “Isso acontece quando a mãe corrige a criança cedo demais ou em excesso, também quando um adulto que fala errado é bastante repreendido”, explica a fonoaudióloga.

Com relação ao componente genético, ela destaca que há famílias que registram inúmeros casos de gagueira decorrente de uma falha no processamento neuromuscular.

“Só não se sabe ainda porque isso acontece”, ressalta. O recomendável, em todos os casos, é que a fam&iacu,te;lia ou o paciente procure orientação de um especialista.

O ideal, segundo Patrícia Mandrá, é fazê-lo antes que a situação se torne um sofrimento. Pode-se contar com a ajuda de professores, já que eles convivem mais com a criança em período escolar. Assim, podem perceber se a comunicação está interferindo em seu estudo.

O mesmo acontece no trabalho, vida familiar ou social. Ao primeiro sinal do distúrbio, é importante investigar o problema, já que não podem ser descartados outros distúrbios da comunicação.

Mutação genética

Recentemente, um novo estudo foi apresentado pelo Instituto Nacional de Surdez e outras Desordens de Comunicação dos Estados Unidos. As pesquisas apontaram três genes como causadores da gagueira em pessoas na Inglaterra, Paquistão e Estados Unidos. Mutações em dois desses genes haviam sido anteriormente identificadas em outros distúrbios metabólicos também envolvendo o ciclo celular.

Os cientistas encontraram portadores com a mesma mutação genética descoberta nas famílias iniciais. O trabalho foi repetido com mais de 500 ingleses e norte-americanos, e obteve-se um resultado semelhante. Os pesquisadores descobriram a mesma mutação observada nos paquistaneses.

Os especialistas estimam que cerca de 9% das pessoas que sofrem de gagueira tenham mutações em um dos três genes identificados. Na sequência da pesquisa, será conduzido um estudo epidemiológico mundial para determinar melhor o percentual da população que carrega uma ou mais dessas variantes genéticas.

Dicas para quem gagueja

* Desenvolva sua autoconfiança
* Não tenha pressa para falar
* Pronuncie bem as palavras
* Não se preocupe mais com os outros do que com você mesmo
* Fique atento ao assunto da conversa e não em saber “como” você está falando

Dicas para você colaborar com uma pessoa que gagueja

* Preste atenção ao que a pessoa diz
* Não fique interrompendo o tempo todo
* Não antecipe o que o outro vai dizer
* Olhe e escute sem demonstrar ansiedade
* Estimule a conversa