O glaucoma é uma doença oftalmológica que atinge 67 milhões de pessoas em todo mundo. Destas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 7 milhões já ficaram cegas dos dois olhos.

No Brasil, 900 mil indivíduos são vítimas do problema, sendo 40 mil no Estado do Paraná. Em Curitiba e região metropolitana, cerca de 8 mil pessoas têm o problema. A maioria – cerca de 80% – desconhece a doença e só procura ajuda médica quando ela já está em estado avançado.

De acordo com o oftalmologista Kenji Sakata, chefe do setor de glaucoma da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a doença atinge o nervo óptico – que sai do olho e vai até o cérebro – e, se não tratada a tempo, leva à cegueira irreversível. É a segunda principal causa de perda total da visão em adultos, só perdendo para a degeneração macular senil, doença relacionada ao avanço da idade.

A principal causa do glaucoma é o aumento da pressão do olho ou pressão intra-ocular. “Em uma pessoa normal, a pressão do olho varia de 15 a 21 milímetros de mercúrio. Até 28 mm, há suspeita de glaucoma. Acima disso, a doença já está caracterizada”, explica Kenji. “Existem vários métodos utilizados para medir a pressão. O principal é o Tonômetro”. Para detectar o glaucoma, além da medição da pressão intra-ocular, costuma-se realizar o exame de fundo de olho e o de campo visual. Todos são considerados indolores.

O oftalmologista explica que existem dois tipos de glaucoma: o crônico simples e o agudo. O primeiro caso é caracterizado pela perda progressiva da visão periférica. A pessoa pode levar de 10 a 20 anos para perder totalmente a visão. Já no segundo caso, mais comum em pessoas acima de 55 anos, a cegueira pode ser verificada de um dia para o outro. “O primeiro sintoma é uma dor intensa no olho, seguida de dor de cabeça. Depois, o problema se reflete no estômago e a pessoa costuma procurar o gastroenterologista, esquecendo-se de que o mal começou a se manifestar através de uma dor no olho. Em grande parte das vezes, o glaucoma só é identificado quando o paciente tem um escurecimento repentino da visão, perdendo-a para sempre”, afirma Kenji.

Principais vítimas

Em 98% dos casos, o glaucoma compromete os dois olhos. É mais comum em pessoas acima dos 40 anos de idade, mas as crianças também são atingidas. “Nas crianças, o glaucoma é congênito. Ou ela nasce com a doença ou o problema começa a se manifestar dentro dos dois primeiros anos de vida”, revela. “O olho da criança começa a crescer ou esticar, mas na maioria das vezes os pais não sabem que isso é característica da doença e acham até bonito. O paciente também apresenta fotofobia, chorando quando sai ao sol e mesmo escondendo o rosto no colo da mãe para evitar a claridade”.

O presidente da Sociedade Latino-Americana de Glaucoma, Remo Susanna Jr., revela que filhos de pais que sofrem de glaucoma têm risco 25 vezes maior de desenvolver o problema do que filhos de pais normais. Porém também são fatores de risco o uso prolongado de medicamentos com cortisona, diabetes e cirurgias refrativas, como a de correção de miopia. “Devido à cirurgia, a doença pode, em determinadas situações, deixar de ser diagnosticada. Isso ocorre porque, em razão do procedimento, há diminuição de espessura da córnea e mensuração da pressão intra-ocular pode ficar erroneamente baixa”. Pessoas da raça negra, conforme informações de Remo, são duas vezes mais propensas a apresentar glaucoma, sendo que os quadros tendem a ser mais graves do que em brancos. “Não há causa para essa diferença de prevalência”, diz.

Prevenção

A prevenção do problema é feita com visitas periódicas ao oftalmologista. Kenji aconselha pessoas com idade superior a 40 anos e jovens que usam óculos a fazerem exames de rotina uma vez por ano. Pessoas que não possuem problemas de visão devem ir ao oftamologista uma vez a cada três anos. Se detectado no começo, o glaucoma pode ser controlado com colírios. “Por se tratar de uma doença crônica, incurável, requer monitoramento e tratamento por toda a vida”.

Associação orienta

Em 6 de maio deste ano, foi criada, em Curitiba, a Associação Paranaense de Portadores de Glaucoma, Familiares e Amigos (Aprag). A entidade tem sede provisória no setor de oftalmologia do Hospital de Clínicas (HC).

O presidente da associação, Afonso Celso Camargo, conta que o principal objetivo é levar informações sobre a doença à população. “Muita gente não tem conhecimentos sobre o glaucoma e só descobre que tem a doença quando a visão já está bastante prejudicada. Queremos conscientizar as pessoas sobre a importância de fazer visitas periódicas ao oftalmologista e sobre os riscos do problema”, afirma.

Os principais alvos são a população carente e os familiares das vítimas de glaucoma, que têm papel fundamental no tratamento. “Como o controle do glaucoma deve ser constante e para o resto da vida, é importante que a família cuide para que o paciente não deixe de usar os medicamentos e vá sempre ao médico”, diz. “Quanto à população carente, geralmente é ela que tem menos acesso a informações sobre o problema. Também vamos fazer campanhas pedindo que a comunidade doe medicamentos a serem repassados a pessoas de menor poder aquisitivo”.

A associação é composta principalmente por especialistas no assunto e vítimas do glaucoma. Entre as atividades estão: organização de campanhas, seminários e palestras. Mais informações: (41) 254-8070. (CV)