O implante de titânio, que revolucionou o tratamento dentário de pacientes com ausência de dentes ao acabar com o risco de rejeição e possibilitar uma mastigação com total comodidade e mesma segurança dos dentes naturais, está completando 15 anos no Brasil. A técnica, de origem sueca, foi usada pela primeira vez no país pelo dentista Júlio Cezar Sá Ferreira, de Curitiba, pós-graduado em periodontia e Master of Science pela Universidade da Califórnia. Dois pacientes receberam o implante em um mesmo dia – em 22 de junho de 1987. Um deles teve implantado todos os dentes maxilares em uma cirurgia que durou sete horas no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, e o outro, por ser de menor complexidade, recebeu o implante de dois dentes em procedimento no consultório.


O implante dental osseointegrado (no qual o osso aceita o titânio como se na realidade formasse parte da estrutura do próprio organismo) é uma pequena peça (uma espécie de pino) confeccionada em titânio de altíssimo grau de pureza, que é colocada por uma pequena cirurgia de grande precisão no osso em que deveria estar a raiz do dente natural. Posteriormente é fixada sobre o implante uma coroa dental (parte do dente visível na boca), normalmente feita de porcelana que imita o aspecto do dente natural.


Para o dentista Sá Ferreira há muitos motivos para comemorar. ?Ao contrário de outros materiais que eram utilizados, o titânio não dá rejeição. A estética é perfeita e a função da mastigação é restabelecida. Mesmo para um profissional experiente, só é possível saber se o paciente tem implante ou não por meio de uma radiografia?, afirma. Antes do titânio, o uso de materiais metálicos ou sintéticos, embora contornassem o problema da rejeição, não resolviam os problemas. O organismo simplesmente encapsulava o implante, impedindo a função da mastigação, e o que é pior, sujeitando o paciente às infecções locais.


O implante com titânio surgiu na década de 60 por meio de pesquisas do professor sueco Per-Ingvar Branemark. Trabalhando com materiais à base de titânio ele notou que o organismo aceitava a presença deste material, gerando uma adesão ao metal de maneira muito íntima, dando início a assim chamada era da Osseointegração na Implantologia. Testes feitos em animais mostraram que era impossível retirar a peça de titânio. O osso se quebrava, mas o material continuava aderido. ?A implantologia deixou de ser uma esperança para se tornar uma realidade biologicamente aceitável, com índice de sucesso de 95% dos casos de implantes?, afirma Sá Ferreira.


Ele explica que o insucesso em alguns casos se deve a fatores individuais. ?Se o paciente não tiver os mesmos cuidados de higienização que um dente natural necessita, também há acúmulo de bactérias que podem gerar a perda do implante.? Desde que sejam seguidos os cuidados necessários, o implante não tem prazo de durabilidade, devendo apenas serem substituídas as coroas (dentes artificiais), se houver desgaste.


Hoje o custo para se repor um dente perdido com uma ponte (precisa de pelo menos três coroas) é aproximadamente o mesmo de se fazer um implante, com uma única coroa. Tudo isso sem danificar outros dentes. Há 15 anos, quando começaram os primeiros implantes cada dente custava R$ 3,5 mil. Hoje, pode-se fazer implantes por R$ 1,5 mil. Porém, há casos em que podem custar até R$ 3 mil, dependendo da sofisticação do material que é utilizado.O dentista Sá Ferreira entende que a popularização do implante de titânio é uma questão de tempo. ?Outras técnicas na odontologia já foram muito caras e hoje estão se tornando cada vez mais acessíveis à população?, afirma o dentista.


Em 15 anos, a técnica sofreu outras grandes evoluções. O pino de titânio passou por aperfeiçoamentos tecnológicos e hoje possui textura, como a de um parafuso, que permite uma aderência mais rápida ao osso. A osseointegração (na qual o osso ?agarra? o titânio) leva de 3 a 6 meses, mas o paciente não fica sem dente nesse período. É confeccionada uma pequena prótese estética que possibilita ao paciente ter uma vida social normal. Hoje, o avanço da técnica  permite que em casos selecionados, onde a estrutura óssea é de excelente qualidade, seja colocado o implante e a prótese (dentes) no mesmo dia.


O tempo e o local de cirurgia também mudaram. As primeiras cirurgias tinham um tempo médio de seis horas para implantes de dentes maxilares e eram feitas em hospitais, com anestesia geral. ?Hoje, o mesmo procedimento é feito em consultório em duas horas aplicando apenas anestesia local?, conta o dentista.  


Reconhecimento

O Academia Brasileira de Osseointegração, com sede em São Paulo, presta homenagem aos profissionais que participaram da primeira cirurgia de implante de titânio neste sábado (22 de junho), às 20h, no Grand Hotel Rayon, em Curitiba. Serão homenageados o dentista Júlio Cezar Sá Ferreira, que realizou a cirurgia, e os dentistas protesistas Bento Garcia Júnior, de Curitiba, e Amauri de Moraes Silveira, de Londrina, os quais colocaram as próteses (dentes) definitivas em cima do implante no paciente, meses depois. 


Estarão presentes à solenidade, a poetisa Lourdes Strezzi que recebeu o implante de dois dentes, e a senhora Salma Valentini, viúva do economista Júlio Valentini, o qual teve aos 60 anos todos os dentes maxilares implantados na época. ?Por 14 anos, o implante devolveu ao meu marido o sabor dos alimentos e o gosto de comer?, afirma Salma. O marido tinha todos os dentes, mas teve que extraí-los devido à doença das gengivas (piorréia) que o impedia de ter uma boa mastigação e sentir o sabor dos alimentos. Dona Salma conta que antes da cirurgia, a alimentação do marido era em forma de mingau e tinha dificuldades até para comer pão. ?Com os dentes implantados passou a comer de tudo, inclusive carne?, diz Salma. Júlio Valentini faleceu no ano passado de isquemia cerebral.