Uma infecção considerada como a de maior prevalência em todo o mundo, e que é vista com preocupação, a ponto de serem constituídas comissões periódicas para a realização de Consensos médicos, ainda é relativamente desconhecida da maioria dos brasileiros, apesar de afetar algo em torno de 70% da população.

Provocada por uma bactéria denominada Helicobacter pylori, da qual existem indícios documentados desde o final do século 19, mas que somente na década de 80 do século 20 teve sua ocorrência relacionada a algumas doenças gástrico-intestinais, essa infecção é atualmente a causa mais comum da gastrite crônica e está associada a mais de 80% das úlceras pépticas, 49% dos cânceres gástricos e a mais de 90% dos casos de linfomas associados à mucosa gástrica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o H. pylori como um agente cancerígeno do grupo 1, embora não existam evidências conclusivas de que a erradicação da bactéria possa reduzir o risco de câncer gástrico.

O principal modo de transmissão do microorganismo parece ser por via fecal-oral, principalmente em regiões ou comunidades com condições sócio-sanitárias ou de higiene pessoal insatisfatórias. Conforme indicam vários trabalhos científicos realizados na América Latina, a transmissão se dá também através da água contaminada por esgotos, especialmente na irrigação de vegetais consumidos crus.

A infecção é adquirida na infância e geralmente permanece como uma infecção crônica. Embora a contaminação por esse microorganismo não se acompanhe obrigatoriamente das doenças que são a ele relacionadas, em grande parte dos indivíduos portadores de gastrite crônica, úlcera péptica, câncer gástrico e linfoma associado à mucosa gástrica é verificada a presença da bactéria.

Um dos métodos de diagnósticos mais utilizados é a pesquisa de antígenos da bactéria nas fezes. Além de ser simples e barato, tem sensibilidade e especificidade de 90 a 95%.

Nos países desenvolvidos, a infecção pelo H. pylori em crianças e adolescentes é menos freqüente. Mas cerca de 20% das populações com menos de 40 anos estão afetadas, assim como 50% dos indivíduos com mais de 60 anos. A maior prevalência entre os mais idosos nos países desenvolvidos é explicada pelo fato de esses indivíduos pertencerem a uma geração que adquiriu a infecção na infância, quando as condições sanitárias desses países eram mais deficientes. Essa hipótese parece se confirmar por estudos sorológicos que mostram uma redução de 50% na prevalência de H. pylori nos EUA a partir de 1968.T